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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O acordo

Noite de terça-feira. Em um bar muito parecido com um pub inglês, o movimento era fraco. O local era um ponto de encontro de estudantes, mas o movimento só ficava forte a partir da quinta-feira. Cidade universitária tem dessas coisas, e os donos de bar já esperam por algo assim.
Sentado em uma mesa, sozinho, um homem corpulento, de meia idade, fumava seu charuto, e bebericava uísque cowboy, aquele sem gelo, entre as tragadas. Aparentemente não estava afim de muita conversa, mas também não estava chamando particular atenção das outras pessoas.
Logo entrou no bar uma mulher por volta de trinta anos, bem vestida. Ao entrar, correu os olhos pelas mesas, e ao observar o sujeito sentado sozinho, dirigiu-se até ele e o cumprimentou:
- Olá, há quanto tempo.
- Senta aí. - respondeu rispidamente o cavalheiro. Sem perder o sorriso suspeito do rosto, a figura feminina sentou-se.
- Como vai o senhor? Alguma novidade no serviço? - Perguntou a distinta senhora. Ela esperava por uma resposta, porém não a que ouviu:
- Vai mal. Acabei de voltar de um velório.
A mulher se assustou.
- Olha, eu não tenho nada a ver com isso, nós fizemos o que o senhor falou...
- Não foi isso não: foi um rapaz da contabilidade; Tentaram assaltá-lo no trânsito, ele tomou um tiro e morreu. - continuou o homem. - Você fez o que tinha que fazer.
A mulher ficou sem reação. O homem continuou:
- E então, estava a contento?
- Claro que sim, exatamente como o senhor falou. Não era muita coisa, mas...
- Era o suficiente. - interrompeu o homem. - E aí, estamos acertados?
- Acho que sim. Bem, foi bom fazer negócios com você, até a próxima vez então...
- Não haverá próxima vez. - O homem segurou a mão da mulher na mesa. A moça fez uma cara de assustada, olhou para o balcão.
Uma outra mão segurou no braço do homem:
- Deixa ela ir, acertar negócios é comigo. - falou o homem que acabou de chegar. O homem sentado imediatamente o reconheceu:
- Doutor Alfredo!
O homem largou o braço da mulher, que saiu andando rapidamente pela porta. Doutor Alfredo acomodou-se na mesma cadeira em que a mulher anteriormente estava e começou:
- Devo dizer que o que você fez me surpreendeu bastante. Já lidei com muitos bandidos, muitas pessoas sem escrúpulos, pessoas capazes de vender o próprio filho por ninharia, mas desse tipo de gente nós sabemos o que esperar. Nunca esperei que você fizesse isso que fez. Isso pode te dar problemas no futuro.
- Dos meus problemas cuido eu. - respondeu o homem, charuto na mão. Apesar da expressão calma, o charuto se consumia sozinho por entre seus dedos.
- Ora, que tratamento é esse? O que aconteceu contigo? E a nossa amizade de tantos anos?
- Nossa amizade está quitada, a última parcela já foi paga!
Doutor Alfredo sorriu, o mesmo sorriso que a mulher o havia presenteado, e falou:
- Ah, mas amizades são mais fortes que dinheiro. Amizade também tem a ver com cumplicidade, companheirismo, compromissos...
Nisso o homem se exaltou:
- Acabou! Eu sempre cumpri com a minha palavra durante todos esses anos, paguei tudo o que lhe devia! Mas agora eu não sou mais a mesma pessoa: se isso continuar, acredite: não vai sobrar bar, não vai sobrar cassino, não vai sobrar boca para te salvar. Eu sempre cumpri com minha palavra, e você sabe disso!
Doutor Alfredo olhou para o chão, fungou fortemente e falou, com desinteresse:
- Bom, é justo, você pode ficar tranquilo, ninguém vai te incomodar.
- O quanto eu posso acreditar nisso?
- Eu sempre cumpri a minha palavra, e o senhor sabe disso. - respondeu Doutor Alfredo.
O homem levantou-se da cadeira, arrumou o paletó e dirigiu-se à saída. Deu dois passos, voltou-se para o Doutor Alfredo, e perguntou:
- Você garante que não vai mais perseguir a minha filha?
Doutor Alfredo, sentado em sua cadeira, apoiou seus braços no encosto e, olhando para o homem, disse:
- Você tem a minha garantia, mas isso depende de você: da última vez, foi ela que veio me procurar, Ary.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Grandes decisões

Alberto entrou rapidamente no seu carro, afivelou o cinto de segurança, guardou o celular no porta-luvas, e partiu. O movimento na rua era grande, normal para aquele horário: muitos pais vão buscar os filhos nas escolas, e elas por serem em bairros sem muitas vias de acesso acabam prejudicando o movimento no entorno. Alberto não estava muito preocupado com isso. De fato, ele estava tão consumido por seus pensamentos que nem mesmo ligou o rádio para lhe ajudar a se distrair. Aquela foi uma semana diferente das outras para ele.
No final de semana ele foi com os amigos para uma festa de uma conhecida de um deles. Alberto não teria a companhia de sua namorada Susana, que havia ido passar o final de semana na casa de mãe que vivia em outra cidade. Apesar da preocupação com a saúde dela, que andava indisposta durante a semana, Alberto estava exultante por um pouco da vida de solteiro. Normalmente nessas festas Alberto costumava se destacar, por entreter as pessoas contando alguma das suas inacreditáveis histórias de trabalho. Naquela semana Alberto tinha uma história boa: o coitado do office-boy foi enganado por duas mulheres, que levaram o dinheiro do escritório. Como seus amigos não eram do trabalho, ele contava e as pessoas se distraíam bastante, até pelo modo como ele contava, cheio de gestos, detalhes, mesmo que não fossem todos verdadeiros. A bebida, a comida e a camaradagem ajudava a animar a situação, mas a grande surpresa de Alberto ainda estava por vir.
Enquanto Alberto foi pegar umas cervejas para os amigos num isopor, ele percebeu que estava chegando ali um rosto conhecido, inesperado e muito querido: Elisa, uma colega de trabalho. Alberto foi logo cumprimentá-la:
- Oi Elisa, o que tá fazendo aqui?
- Eu que te pergunto, Beto: A minha amiga é a dona da chácara.
- Eu vim com o Alencar, parece que ele tá saindo com a sua amiga.
Após isso, os dois engataram numa conversa só entre eles. Fazia um bom tempo que os dois já trocavam olhares no serviço, e um certo flerte rolava no ar. Agora ali, num momento onde poderiam conversar mais sem a presença auspiciosa de alguém do escritório, o papo fluiu de forma impressionante. Era mágico como a conversa deles combinava. Enquanto estavam ali, as horas passavam rapidamente. O clima entre eles era inegável.
O único problema de Alberto é que ele era comprometido. Susana era uma moça adorável, e desde o início do namoro todos diziam que eles formavam o casal perfeito. Porém a relação acabou se desgastando bastante com o passar dos anos. Apesar de morarem em apartamentos diferentes, praticamente viviam como casados. Mas Alberto já não tinha mais certeza se queria continuar com o relacionamento. O amor que ele sentia no início certamente não era mais o mesmo. Cada encontro com ela trazia um pouco de sofrimento e má-vontade da parte dele.
Enquanto dirigia pelas ruas, Alberto lembrou-se novamente do momento em que percebeu que o namoro não podia continuar mais: Próximo ao final da festa, Elisa não queria mais ficar, e a anfitriã não queria levá-la, ela havia pensado em Elisa passar a noite lá, porém o clima entre a dona da chácara e o Alencar estava esquentando, e Elisa certamente não queria segurar vela ali. Alberto logo se ofereceu para levá-la para casa.
Se foi erro, se foi acerto, vai da opinião de cada um. O fato é que durante a viagem até a casa de Elisa, eles foram conversando, e na despedida, houve um beijo no rosto, um abraço um pouco mais demorado, um outro beijo no rosto, mais abraço, um beijo na boca, e os dois acabaram fazendo amor.
No domingo seguinte, apesar dos momentos intensos da madrugada, a conversa entre os dois foi um pouco mais séria: Alberto traiu Agora com Elisa ele se sentia como se estivesse apaixonado pela primeira vez.
Alberto falou com Elisa:
- Oi.
- Oi.
- Escuta, a gente tem se visto bastante, e eu devo te confessar que sinto algo diferente.
- Eu também sinto algo diferente. Só que eu levo a vida a sério, quando entro em um relacionamento, é pra valer.
- Sinto que devo tomar uma decisão também, não posso continuar com uma mentira.
Assim, Alberto saiu da festa disposto a botar um ponto final em seu relacionamento, finalmente a situação chegou ao seu limite.
No dia seguinte, Alberto foi trabalhar como sempre, e planejando o que dizer para Susana. Certamente seria uma longa noite.
Mas o inesperado aconteceu: pela hora do almoço, Alberto foi surpreendido por um telefonema de Elisa.
- Alô Elisa.
Alô Beto, tem como a gente almoçar juntos? Você vem aqui no restaurante de frente à repartição, que eu tenho algo sério para te dizer.
-Está bem. Tchau.
O caminho até o restaurante foi tranquilo, o de sempre em cidade grande, mas os pensamentos de Alberto estavam congestionados. Mil idéias passavam por sua cabeça: será que ela quer terminar tudo? Se for isso, é mais tranquilo. Mas, e se ela tiver outra coisa para contar. Ai meu deus, e se ela tiver engravidado? Toda essa indecisão na minha vida, eu preciso tomar uma atitude importante agora, essa é uma decisão que pode mudar a minha vida para sempre.
Alberto parou no sinal vermelho. De repente, três pessoas aparecem na janela do motorista. Uma delas grita:
- É um assalto, sai do carro.
Alberto se assusta com a reação, olha para o assaltante que o interpelou, ele está com um revólver nas mãos. Alberto no desespero tenta sair do carro, porém não consegue soltar o cinto de segurança. Os bandidos começam a perder a paciência:
- Vamo logo, quer morrer?
- Já estou tirando! Vamos logo...
A pressa e a gritaria apenas aumentavam, e tudo piorava conforme o tempo passava e o sinal logo seria liberado. De repente, no meio de todo aquele barulho das ruas, o som de um tiro. Os assaltantes saíram correndo dali.
O carro permaneceu ali parado no cruzamento. Após a mudança de sinal, alguns sons de buzinas, veículos passando ao lado, e aos poucos uma multidão de pessoas passou a se concentrar na calçada, e seus olhares e comentários falando sobre o carro branco parado no meio da via pública. Alguns minutos depois chegou uma viatura da polícia que se posicionou logo atrás do carro parado. Policiais saíram do veículo e prontamente fizeram um cordão de isolamento. Em seguida, dirigiram-se até o carro branco onde olharam atentamente para o corpo sem vida de Alberto, olhar expressivo, mão na fivela do cinto, a cabeça pendente para um lado, uma trilha de sangue marcando seu rosto.
Enquanto um dos policiais se colocava atrás da viatura conduzindo o trânsito complicado no local, o outro foi pedir por um guincho e apooio do instituto de perícia para realizar os procedimentos necessários. O policial também aproveitou para buscar um cobertor para cobrir a feição cadavérica de Alberto, fria e tensa, parada no tempo. Enquanto isso, a vida corria, com exceção de uma via fechada da avenida, uma multidão de curiosos alternando a permanência enquanto faziam as mesmas perguntas a outros curiosos, e um som de telefone celular tocando insistentemente no porta-luvas.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Sentindo o golpe

Não foi fácil para Felipe voltar à repartição. O chefe pediu para ele ficar uns três dias de molho em casa, para deixar a poeira assentar, mas de alguma forma Felipe percebia algo estranho no ar.
Apesar de ter ido ao escritório naquele dia, ele não iria trabalhar ainda. A ida foi um pedido do chefe para que pudessem conversar com mais calma sobre o ocorrido quatro dias antes. Ele não sabia realmente o que esperar, por isso estava preparado para tudo: uma reprimenda, uma compensação financeira, ou até mesmo a tão temida demissão. Ser demitido seria catastrófico para ele naquele momento: trabalhava como office-boy fazia poucos meses, já tinha mudado para o período noturno na escola para conciliar o emprego com o estudo.
Ao chegar, Felipe foi direto falar com Elisa, a secretária do chefe. Ela interfonou, desligou o telefone e pediu para que ele esperasse um pouco. Felipe sentou-se numa poltrona ali na salinha, tenso como sempre e aquele breve momento ali com Elisa carregava nele um certo constrangimento. Felipe já não tinha muita conversa com ela normalmente.
Naquele impasse, foi Elisa quem tratou de quebrar o gelo:
- Tá melhor hoje, Felipe?
Felipe olhou para Elisa com um misto de surpresa e abnegação: todos no escritório já deviam saber o que aconteceu.
- Estou melhor sim. - respondeu Felipe, sem olhar nem convencer.
Elisa então tentou um leve esboço de simpatia:
- Só tem aproveitador por aí, quando a gente precisa de dinheiro ninguém vem na nossa casa para oferecer, é só para tirar.
Felipe balançou a cabeça e ficou calado. Não havia muito o que se dizer também.
Enquanto esperava, Felipe viu Beto, o novo funcionário, um pouco mais velho do que ele, mas o rapaz passou direto pelo corredor sem nem olhar. Talvez pela proximidade de idade entre os dois, e por terem começado a trabalhar quase ao mesmo tempo, eles eram mais próximos. Felipe ficou um pouco desanimado, aquele seria um bom momento para receber algum tipo de apoio. A expectativa era muito grande, Felipe não podia nem queria perder aquele emprego.
Trabalhar como office-boy tinha sido a grande oportunidade dele nos últimos tempos, tanto que resolveu estudar a sério, recomeçar o colegial, para ter condições de passar nos exames e fazer faculdade. Ele nem havia pensado nessa possibilidade antes e não tinha opinião formada sobre que curso fazer, porém o tempo como office-boy despertou nele um gosto por Administração. Graças ao serviço Felipe acabou superando a dificuldade que sempre teve com matemática. Aqueles problemas que antes eram impossíveis de se resolver mudaram como mágica: agora apenas eram mais trabalhosos.
Após cinco longos minutos, o telefone tocou. Elisa atendeu, e logo falou para Felipe:
- Já pode entrar, o chefe está esperando.
Felipe andou até a sala do chefe, e ao abrir a porta tentou ensaiar alguma feição mais normal, mas seu rosto se contorcia involuntariamente devido ao peso de sua vergonha pelo que aconteceu na última quinta-feira. Felipe entrou, pediu licença, e o chefe ofereceu a cadeira para que ele se sentasse. Felipe sentou-se, cabeça baixa, as mãos cerradas e juntas entre suas pernas. Ele só esperava pela bronca.
- Como vai, Felipe? - indagou o chefe.
- Vou bem, senhor. - respondeu Felipe.
- A família vai bem? Como eles reagiram à notícia?
- Contei só no sábado pros meus pais. Eles ficaram chateados comigo, perguntaram como pude ser tão tonto, e eu não tinha o que falar: fui tonto mesmo, me desculpe, eu vou te pagar de volta o que eu perdi...
- Garoto, não vou cobrar pelo que aconteceu. Acontece, já é passado, e você precisa do seu salário também, a gente dá um jeito aqui de recuperar o que foi roubado. Só que eu não consigo entender como é que você pôde deixar uma mochila com estranhos no meio da rua. Mochila com três mil reais dentro, três mil reais que não são seus.
Felipe então passou a descrever o que aconteceu da mesma forma que contou aos policiais na delegacia: Tinha acabado de sacar um cheque para a empresa, quando viu uma mulher perder a carteira na rua. Ele pegou a carteira, avisou a mulher que ficou muito agradecida, o abraçou, e prometeu uma recompensa junto com outra mulher que também disse ter achado. A mulher deixou a carteira com eles, voltou depois de alguns minutos e falou que a recompensa estaria em outro lugar, e então ele foi porque conseguiria ir mais rápido até lá, e enquanto isso elas cuidavam da mochila. Ele foi até lá, ninguém conhecia a mulher, e quando ele voltou, não havia mais mulher, nem mochila, nem dinheiro, nem nada.
- Não sabia dessa parte de que você ficou esperando com outra mulher, mas não foi isso que eu perguntei: eu quero entender por que você quis essa recompensa, não só entregou a carteira e foi embora. Você estava a trabalho, tinha um compromisso com o dinheiro que estava levando.
- Eu sei, senhor, e eu peço mil desculpas por isso, fui muito desatento...
- Você tá precisando tanto assim de dinheiro para aceitar uma oferta assim? Você não vê quanta gente cai em golpes por aí? Você precisa ser mais esperto!
- Sim, eu sei que preciso, não vai acontecer de novo, prometo!
- Olha Felipe, eu não sei o que fazer com você agora... o ideal seria eu te proibir de pegar dinheiro, mas você é o office-boy aqui, não posso ficar mandando os outros assistentes aqui para fazer esse serviço...
Felipe ficou preocupado com o que o chefe disse: ele sentiu que viria o anúncio da demissão.
- Senhor, eu sinto muito mesmo, não tenho como me desculpar direito pelo que aconteceu, mas por favor não me mande embora, preciso ajudar a minha família, a minha mãe - e nisso Felipe engasgou, a emoção tomou posse de seus sentidos, as lágrimas começaram a rolar sem esforço.
- Felipe, pare de chorar, a gente vai fazer um acerto temporário para resolver isso. Você é um ótimo funcionário, é dedicado, não chega atrasado que nem outros aqui, fez tanto progresso aqui, quer aprender o serviço, voltou a estudar... vamos ver se conseguimos fazer um acerto, por favor, pare de chorar - disse o chefe sem mudar a expressão no rosto. Nisso, ele pegou o telefone e disse:
- Elisa, por favor, peça para o Ary vir até aqui - e desligou. Em trinta segundos Ary já entrava na sala do chefe. Felipe estava melhor, limpando as lágrimas do rosto e procurando se recompor para disfarçar o que tinha acabado de fazer. Soluçava, porém.
- Felipe, no dia seguinte, enquanto deixei você na sua casa, contei para todo mundo aqui sobre o que tinha acontecido, e que estava em dúvidas sobre o que fazer com... o seu caso. O Ary pediu para conversar comigo em particular e se ofereceu para ajudar. Então vai ficar acertado assim: Você continua fazendo o serviço na rua, só que o Ary vai fazer o que tiver dinheiro envolvido, a gente já fez um acerto, mas será temporário até você reconquistar minha confiança. Esse acerto vai ficar entre nós aqui da sala porque os outros funcionários também vão precisar ganhar confiança em você novamente, e conforme for daqui para frente, vamos avaliar a situação novamente, está certo?
Felipe ficou mais aliviado, e respondeu:
- Sim senhor, muito obrigado, pode confiar em mim, não vou mais te decepcionar, muito obrigado mesmo...
- Agradeça ao Ary também, se não fosse por ele, talvez estivéssemos tendo outra conversa agora.
- Muito obrigado, Ary, não vou te decepcionar. - respondeu Felipe. Ary, que estava apenas olhando tudo, assentiu com a cabeça.
O chefe terminou a conversa dizendo:
- Amanhã você volta a trabalhar como sempre, assim você se recompõe do dia de hoje. E por favor, não caia mais nesses golpes, eles se aproveitam das pessoas desinformadas. Até amanhã, Felipe.
Felipe agradecia e agradecia, e saiu com o Ary pela porta. Durante o caminho até a saída, Felipe viu os outros funcionários olhando e comentando sobre ele. Um deles, mais exaltado, dizendo:
- Tem que ficar de olho nessas pessoas com quem a gente trabalha. Não dá mais para ter tranquilidade nem aqui.
Felipe ficou meio abalado com esse comentário. Ary continuou acompanhando Felipe até a saída, e lá fora, o office-boy mais uma vez agradeceu:
- Seu Ary, muito obrigado mesmo, o senhor é um anjo.
Ary, que não era muito de falar, acabou respondendo:
- Imagina, já passei por problemas também, é tão difícil manter emprego com tanta coisa que acontece.
- Mas eu devia ter sido esperto, fui um idiota por cair nesse golpe.
Ary deixou a gentileza de lado e falou com um pouco mais de seriedade:
- Deixa eu te falar uma coisa sobre golpe: Não existe isso de que quem cai em golpe é idiota. Quem cai em golpe são pessoas inteligentes, desesperadas, e que acreditam na boa-fé das pessoas. Você não é idiota.
- Caí no truque mais velho do mundo, eu devia ter desconfiado...
- Você não é o único a cair em golpe. Sabe o cara que falou coisas sobre você na saída? Uma vez ele perdeu uma fortuna com um programa de televisão para acertar a palavra embaralhada. A palavra era fácil, aí ele pensou que era só ligar e responder que ganhando o dinheiro ali ele poderia pagar as dívidas do cartão de crédito e talvez comprar uma televisão nova. Ficou no telefone esperando para responder, nem chegou a ter a chance, aí perdeu a paciência e desligou. Um mês depois, veio a conta de telefone: ele ficou mais de uma hora na linha enquanto o telefone cobrava ligação de celular para outro estado, e no que achou que ia ganhar dez mil, acabou perdendo quinhentos.
- Sério isso? Felipe ficou impressionado.
- Tô falando. A mulher dele ficou uma arara, ele ficou aquele mês seguinte dormindo no sofá.
Os dois riram. Foi o primeiro riso de Felipe nos últimos quatro dias. Ary continuou:
- A gente cai em golpe muitas vezes porque a gente quer ganhar mais, aí aparece um dinheiro fácil, mas dinheiro fácil assim não existe, e às vezes é dinheiro que a gente nem precisa. Talvez para não cair nesses golpes é ter vida honesta, ser trabalhador, mas de vez em quando vem um momento de dificuldade, em que a gente entra em desespero, e esses golpistas estão sempre por aí para levar vantagem no nosso momento de fraqueza. Aí o jeito é apenas ficar de olho...

domingo, 11 de agosto de 2013

O homem que salvou o Brasil

Marinho Correa nasceu para ser político. O melhor de todos.
Nunca teve muita expressão na vida: sempre se dedicou aos trabalhos mais simples. Nunca se preocupou com coisas como carreira, dinheiro, futuro. Para ele, tudo o que importava estava ali ao alcance dele: sua esposa, seus filhos, seus amigos, seu jogo de futebol, seu churrasco de fim de semana. Não era fácil o dia-a-dia do trabalho na fundição mas ele tinha tudo o que queria e precisava.
Todos ali gostavam muito dele. Um dos que mais gostava era o chefe o sindicato, o Pereira, que viu nele o sujeito ideal para alavancar sua campanha política para deputado federal. Pereira era bem conhecido, mas não era uma unanimidade entre os metalúrgicos. Pereira imaginou que a candidatura de Marinho teria potencial para atrair boa parte desses votos para aumentar a participação da legenda e colocá-lo diretamente no caminho do Planalto Central.
No início Marinho não gostou muito da idéia: ele, que nunca falou em público, imaginou que acabaria sendo visto como uma piada no meio de tudo isso. Ao comentar com os amigos durante um final de semana, ouviu tantas mensagens de apoio e tantos elogios que o fizeram acabar aceitando. Pelo menos ajudaria a classe e, quem sabe, poderia até ganhar.
Filiou-se ao partido, pagou a inscrição, e vestiu seu único terno para a gravação do programa de televisão. Enfrentou fila com os outros candidatos, e a cada minuto, a cada hora que passava, mais nervoso Marinho ficava. Quando chegou a hora para gravar sua aparição na TV. sentou-se na vadeira, o diretor disse "Gravando", e Marinho ficou paralisado, lembrou-se que nunca tinha feito nada parecido, deu-lhe um medo enorme, olhava para as pessoas em volta, todas sérias, quietas, esperando para ouvir ele falar, e nessa expectativa, ele ficou com medo de pedir para refazer. As pessoas ficaram cada vez mais apreensivas, Marinho, gelado, petrificado, começou a se esforçar para lembrar-se de qualquer coisa, pelo menos para arrumar uma desculpa para dizer ali. De repente, juntou toda a coragem que tinha guardado não se sabe onde, olhou para a câmera, e falou a frase que seu pai sempre lhe disse:
- Melhor ficar calado do que falar bobagem.
O diretor disse "Corta", a ajudante tirou Marinho da cadeira, e logo outro candidato foi chamado para ocupar seu lugar. Marinho ficou arrasado, tremia de nervoso, logo lhe trouxeram uma água para se acalmar, mas não foi o bastante, tiveram que levá-lo para o hospital com medo de que lhe acontecesse alguma coisa. Por sorte não houve nada, mas Marinho ficou triste por não ter ajudado seus amigos, principalmente o Pereira, que tanto precisaria de votos para aquela campanha. Graças a isso, a equipe de produção não teve novas imagens para fazer de Marinho e acabou colocando o que foi gravado mesmo, com a longa pausa antes para caber no tempo exigido para todos os candidatos.
Com o início da campanha na televisão, o impensável aconteceu: sua propaganda acabou tendo um enorme sucesso entre a população. Naquele ano, tão dominado por candidatos "engraçadinhos", que não tinham nada para dizer, seu silêncio e sua frase final acabaram representando para as pessoas a esperança de um político melhor, alguém que faça mais e fale menos. Entrevistas foram pedidas com Marinho, que sempre recusava, não saía mais de casa para fazer campanha, e seu silêncio acabou se tornando sua marca registrada. Na falta da opinião dele, os repórteres acabaram indo atrás de seus amigos e familiares, que eram só elogios para ele, um verdadeiro homem do povo, trabalhador, não falava mal de ninguém. Ao final da eleição, Marinho Correa foi eleito com a maior quantidade de votos de seu partido, com uma das maiores votações inclusive de todo o país. Pereira, com seus votos, acabou ajudando o partido a garantir a quota de votos para colocar Marinho no Congresso Nacional. A família fez festa, todos os amigos celebraram muito, exceto Pereira, que sentindo-se traído, não quis mais nada com ele. Marinho estava mais feliz do que nunca, mas uma preocupação lhe afligia toda noite: ele não fez absolutamente nada e acabou ganhando para um cargo em que se precisa fazer muito. Marinho tinha certeza de que acabaria decepcionando a todo mundo que botou fé nele.
E foi o que acabou acontecendo: depois de tomar posse, Marinho Correa mudou-se para Brasília e ficou afastado dos amigos. Teve que trancar o emprego na metalúrgica, e nas poucas vezes que foi para sua terra, o ambiente ficava tumultuado demais e não conseguia ter a privacidade e a normalidade de antes. Além disso, na Câmara, nunca discursava, não apresentava projeto de lei. Também não conhecia os outros colegas deputados, que quase nunca paravam na cidade, estavam sempre indo fazer atividades políticas em outros lugares.
Isso foi acontecendo durante meses. A impessoalidade das relações, as sessões demoradas repletas de discursos belos porém longos e redundante e os poucos dias de real trabalho o fizeram se decepcionar com a política, e não ajudava em nada a má-fama dos políticos. Ouviu uma vez no Plenário, vindo de um militante revoltado, que aquilo ali só servia para ganhar dinheiro, que não adiantava nada criar leis para o povo se nem eles as cumpriam, e que aquilo não era nada além de férias prolongadas e muito bem remuneradas.
Com isso, Marinho Correa sentiu-se tão sozinho, ignorado e odiado. Nunca foi o que ele quis em primeiro lugar. Antes ele tinha tudo o que queria e precisava: tinha seus amigos, tinha a alegria de todas as pessoas com ele, e agora era um político sem amigos, sendo chamado de ladrão enquanto nunca roubou na vida, sendo um inútil para ele e para o país. Talvez ele só não tenha ruído de vez porque tinha sua família com ele, mas os filhos estavam distantes, sempre ocupados com algum brinquedo novo que podiam comprar, sua esposa sentia falta dele e acabava compensando isso nas lojas das galerias comerciais. Parecia que sua felicidade tinha chegado ao fim.
Foi quando Marinho Correa recebeu um telefonema. Com muita má-vontade ele foi atender, provavelmente era o assessor lhe informando de alguma coisa urgente para o dia seguinte. Quando atendeu, Marinho assustou-se ao reconhecer do outro lado a voz de Pereira, seu antigo aliado. Marinho queria se desculpar com ele, mas Pereira pediu para que Marinho não dissesse nada, apenas ouvisse o que ele tinha a dizer: Pereira passou muito tempo chateado com a derrota que recebeu e ficou pensando muito no que tinha feito de errado, mas ele não tinha feito nada. Começou a perceber que as pessoas que lhe visitavam no sindicato estavam muito felizes com a eleição do Marinho, que eles torciam muito pelo sucesso dele e queriam que ele fizesse algo de bom pelo país porque elas o conheciam e sabiam que ele não as desapontaria, afinal, ele sempre foi um deles e eles conheciam muito bem. Marinho conquistou na vida a confiança daquele monte de gente, com suas atitudes, sua humildade, e Pereira viu que Marinho era muito melhor do que ele. Mas nas últimas semanas a opinião estava mudando. A desesperança no rosto dos antigos colegas estava ficando mais evidente, as pessoas viam que Marinho se afastou delas, nem para dar alguma satisfação de algo, e o pior: estavam começando a pensar que Marinho tinha se corrompido e passar a não acreditar mais na política.
Aí então, sem agüentar mais ouvir, Marinho desabafou: contou de toda sua decepção, falou da falta que sentia de todo mundo, que queria muito voltar a ter a vida de antes e que iria renunciar para que Pereira assumisse, como suplente, o lugar dele. Aí então Pereira interrompeu-o e disse NÃO! As pessoas confiaram seu voto em Marinho Correa, que ele não estava ali por causa dele mesmo, ele estava ali para fazer algo por todo mundo a quem ele sempre foi generoso e sempre lhe quiseram bem, política é um sacerdócio e que ele não aceitaria receber o cargo de alguém que não fez a diferença. Antes que Marinho pudesse dizer alguma coisa, Pereira desligou.
Marinho não saberia dizer se a ligação com Pereira terminou boa ou ruim, se estava bêbado quando ligou ou realmente pensou em dizer tudo aquilo, o fato é que aquela ligação lhe trouxe o passado que ele tanto queria sentir, lhe mostrou o tempo presente do qual tentava fugir e apontou o futuro que ele iria seguir. No dia seguinte, Marinho Correa acordou mudado. Abraçou a família como há muito não fazia e chegou ao Congresso pronto para fazer algo que, como ele disse àquela vez, iria mudar o Brasil.
Passou semanas lendo sobre Projetos de Lei. Fez vários rascunhos de idéias, mas a maioria das idéias que ele tinha já existiam, só não eram praticadas. Ao pesquisar certos livros, soube que muitos dos artigos da constituição acabam não entrando em vigor por uma série de desculpas, a principal delas é que não existe lei que as regule. Ao saber disso, Marinho teve uma idéia instantânea, e que veio tão pronta em sua cabeça que pegou ele mesmo o computador e passou a redigir o projeto de imediato. Ao terminar, pediu para que o assessor a corrigisse, e quando ele passou a ler o projeto, seus olhos foram se abrindo, ele olhou para o deputado com cara de assustado, voltou a corrigir o mais rapidamente que pôde, formatou o texto do projeto e lhe entregou em mãos as cópias impressas, que Marinho sem interromper seu caminho entregou para protocolar e incluir na pauta. Ao entregar, não demorou muito, Marinho foi informado que a presidência queria ouvir explicações sobre seu projeto já na semana seguinte. Marinho nunca havia discursado antes nem em jantar do sindicato, quanto mais no plenário mais importante do país, mas isso não lhe abateu. Marinho foi para casa, teve um jantar normal em família e foi dormir como se fosse um dia como outro qualquer.
Na sessão seguinte, já preparado, Marinho saiu de sua cadeira de deputado e seguiu até o plenário da Câmara dos Deputados, onde o presidente lhe deu permissão para falar. Ali, sem gaguejar, sem tremer, sem se calar, Marinho Correa explicou para todos os presentes a essência de seu projeto de lei:
- Vossa Excelência, ilustres deputados e deputadas, pessoas que nos assistem, copeiros e demais funcionários, estou aqui para explicar o porquê de ter feito esse projeto que apresentei. Na minha terra natal, eu não tinha uma vida muito fácil, precisava trabalhar dez horas por dia, mas era o bastante para mim. Ganhava uma boa quantia para pagar as contas de casa, sustentar minha mulher, meus dois filhos, o cachorro, e sobrava para comprar algum presentinho, poder sair com os amigos, ver um jogo de futebol, eu tinha uma vida feliz. Mas tinha muitos amigos, conhecidos, familiares, que não têm a vida que eu tinha: gente que precisa de dois empregos, que tem filho ou algum parente doente, gente cheia de dívidas, sempre precisando de algo mais, aí não tem como ter carro, precisa pegar ônibus que tá caro e não é bom, precisa pegar táxi que é muito caro, vai atrás de saúde e não tem como pagar, o convênio da firma não aceita aquele médico que pode resolver o problema, aí precisa ir no SUS, que é mal equipado, tem fila grande, e é muito sofrimento, os remédios também são muito caros, acaba não sobrando grana para coisa de emergência: cai uma chuva, alaga a casa toda e não tem como comprar móvies novos, isso quando não é assaltado por aí, a violência está muito grande. Quem é rico pode se cuidar melhor, mas as outras pessoas não, elas dependem de que o Brasil pode fazer por elas. Não no sentido de dar dinheiro, mas de fazer com que as coisas funcionem. No Brasil muita coisa não funciona, os serviços são mal-ajeitados, há muita roubalheira, corrupção. Quando fui eleito, quem votou em mim queria acreditar que eu faria algo pelas pessoas, aí quando me disseram isso, fui atrás de criar alguma lei para melhorar alguma coisa, tive várias idéias. Mas aí, quando eu as apresentava, meu assessor dizia que essas leis já existiam, estavam todas publicadas, todas aí prontas para serem cumpridas, e de alguma forma não eram. Também descobri que existiam duas, três leis iguaizinhas, para fazer com que a lei seja cumprida. Isso acaba fazendo o Brasil perder muito tempo e dinheiro e funciona pouco. Então foi por isso que pensei nesse projeto de lei que determinará que todas as leis no Brasil devam ser cumpridas.
Silêncio geral. Os deputados entreolhavam-se, alguns perguntando para alguns outros se haviam escutado direito o que Marinho disse. Marinho continuou:
- O país terá grandes vantagens com isso: determinando-se que todas as pessoas e empresas do país, incluindo o governo, passem a cumprir as leis que já existem para beneficiar a todos nós, e que as punições a quem não cumpre sejam efetivadas, teremos uma melhor qualidade de vida, gastaremos muito menos dinheiro com reclamações, que prejudicam o bom funcionamento das instituições, os juízes terão muito menos casos para serem julgados, podendo dar atenção a casos realmente importantes, e o mais importante de tudo isso: teremos cidadãos melhores, porque todos, ricos, classe média, pobres, dividiremos a responsabilidade das coisas entre nós, veremos que somos parte de um país igual onde todos são tratados com igualdade, e por termos uma vida muito melhor, seremos mais unidos, seremos mais brasileiros. Muito obrigado a todos.
Marinho saiu do plenário satisfeito. Enquanto a platéia que assistia à sessão aplaudia, um burburinho se espalhava por entre os parlamentares. O presidente da Câmara pediu silêncio aos presentes e rapidamente a sessão se encheu de inscrições.
Infelizmente para Marinho o seu projeto foi muito criticado pelos deputados. O líder do governo criticou Marinho pela ofensa, ao sugerir que o governo não está fazendo o que deveria. O líder da oposição chamou o projeto de um "disparate", e o acusou de estar fazendo de bobo todos os políticos do país. O líder das minorias declarou que não tinha conhecimento desse projeto, mas que se lhe fosse apresentado, não o apoiaria, além de sugerir que o mandato do deputado fosse cassado por quebra de decoro parlamentar.
Chegaram até a apresentar o pedido de cassação ao Congresso, porém ele logo foi arquivado devido ao imenso apoio popular ao projeto. Telejornais exibiram o discurso de Marinho em seus telejornais, ocorreram passeatas em todo o país pedindo pela aprovação do projeto: as pessoas viram nessa lei o esforço real de um homem do povo em quer vero país finalmente dar certo, e a pressão popular fez com que o projeto fosse aprovado em todas as comissões e finalmente votado favoravelmente por Câmara e Senado, com poucos votos contra. No momento em que o presidente do Brasil assinou a lei, Marinho Correa estava lá com sua família, com Pereira, e seus amigos, feliz como sempre fora antes, e realizado como nunca sonhou que seria.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Pastor Heleno

Terminado o culto, enquanto os fiéis saíam pela porta, alguns poucos colocando os assuntos em dia na porta do templo apesar do frio, os obreiros tratavam de fazer o trabalho duro na sacristia de abrir todas as cartas com pedidos e intenções para recolher as contribuições voluntárias e os desafios de fé individuais das pessoas, As cartas iam para um lado enquanto o dinheiro era separado do outro. Pastor Heleno dava especial atenção para as notas, separando-as por cor, formando pequenos maços de dez notas, cuidadosamente dobradas e presas com clipes. A contagem naquele domingo foi um pouco mais demorada do que de costume, foi uma celebração de muita fé.
Ao final do processo, Pastor Heleno começou a guardar as notas em um saco plástico para levar para casa. Ninguém estranhou muito, era uma atitude de praxe em dias de grande arrecadação: o pastor contava o dinheiro das ofertas, separava uma parte e declarava a outra. Se houvesse um pico no valor arrecadado, provavelmente a matriz aumentaria muito a meta daquele templo, e o pastor não poderia se dar ao luxo de correr esse risco.
- Joaquim, vou contar o dinheiro em casa e de lá amanhã eu já levo para o banco depositar.
- Tudo bem, pastor.
Desde quando chegou para assumir o templo daquele bairro sete meses atrás, o pastor Heleno está atraindo cada vez mais adeptos. O bairro sempre foi considerado difícil, por ser em um lugar de baixo poder aquisitivo e ter uma população arredia a novas igrejas, porém seu discurso veemente sobre a vitória do homem em nome de Deus, seu carisma, em parte devido à sua bela face, outra parte graças a paixão que demonstra nas pregações, não teve mais um mês com prejuízo, e a figura do pastor está sendo vista com bons olhos pela cúpula da igreja.
- Pastor, o senhor vai levar essas cartas também? - perguntou Almir, o obreiro novato. Heleno, de bom humor, respondeu sem se exaltar:
- Almirzinho, essas cartas não são para ler, elas são uma conversa pessoal entre essas pessoas e Deus. Ler as cartas é interferir na aliança pessoal entre elas e nosso Senhor. Empilhe essas cartas perto do banheiro que amanhã vamos queimá-las.
Enquanto Almir fazia o que foi mandado, o pastor Heleno entregou-lhe a chave do templo e se despediu. Ao se dirigir a seu carro, encontrou Joaquim encostado à porta do mesmo:
- Pastor, eu queria lhe pedir uma coisa...
- Pois não, diga.
- Pastor, eu precisava de algum dinheiro emprestado para pegar o ônibus. A situação em casa está difícil, o remédio da minha filha aumentou e estou vindo a pé para economizar, mas hoje por causa do movimento ficou muito tarde...
Pastor Heleno não se fez de rogado: colocou a mão no bolso do paletó e entregou a Joaquim algumas palavras inspiradoras:
- Joaquim, este é o Salmo 23 que eu sempre carrego comigo. Leia-o no caminho se sentir alguma coisa. Você sabe que a situação da Igreja está difícil, e você é um bom homem, está me ajudando bastante com a obra aqui. Só peço para que tenha um pouco mais de paciência. Leia o Salmo, leve essas palavras contigo. Você quer ser pastor um dia, e o dia está chegando. Vou mandar também uma bênção especial para você e para sua família, que eu sei que vocês estão precisando.
Não era exatamente a resposta que Joaquim esperava, mas nunca antes o pastor havia lhe dado algo pessoal. Heleno colocou a mão direita na testa de Joaquim, improvisou uma bênção de um minuto, Joaquim agradeceu ao pastor e seguiu em frente, não podia perder mais tempo ali, e enquanto isso o pastor entrou em seu veículo e dirigiu-se para sua casa, do outro lado da cidade.
No caminho, enquanto dirigia pelas ruas escuras, atravessando bairro após bairro, Heleno pensava no quanto um bom planejamento financeiro poderia lhe garantir um templo em um bairro melhor até o final do ano. Normalmente os pastores que mais lucravam recebiam certos privilégios, como templos melhores, salários melhores e até mesmo casamento, mas essa era a coisa que menos lhe interessava no momento, afinal, era tão jovem e tão bem-sucedido, o melhor para ele seria preparar um conforto financeiro próprio antes de decidir estabelecer família. Mas isso não o impedia de ter aqui e ali alguns encontros com jovens pretendentes ao posto de esposa. Dois meses antes, surgiram rumores no bairro de que o pastor Heleno estava envolvido mais intimamente com uma fiel casada. Heleno tratou de desmentir isso rapidamente, mas por via das dúvidas, os dois decidiram por bem se afastarem por uns tempos.
Ao passar por uma praça, Heleno não deixou de reparar na figura de um rapaz magro, provavelmente um adolescente, encolhido em um banco para proteger os braços do frio. Estava sem agasalho ou coberta. Vendo aquilo, Heleno parou o carro, foi até o jovem e o convidou a entrar no automóvel, pois ele poderia lhe ajudar. O rapaz ficou parado como se não houvesse entendido o que aquele homem lhe dizia, mas ao ser perguntado uma segunda vez, acabou aceitando, sentando-se no banco ao lado do motorista. Heleno assim continuou seu caminho, com aquele rapaz da rua ao seu lado.
- Tá se sentindo melhor? Hoje fez bastante frio, não? Você mora por aqui? - perguntou Heleno, O jovem não respondeu. Heleno ficou impressionado ao ver um garoto tão desamparado na rua.
- Vou te levar lá em casa, aí você aproveita para tomar um banho, comer alguma coisa... você deve estar com fome, hein?
- Tô... - foi a primeira palavra dita pelo rapaz, de forma tímida. O pastor Heleno se animou com a resposta, ele sabia que o caminho para se conquistar a confiança era sempre aos poucos.
Ao chegar em casa, Heleno abriu a porta da garagem e estacionou o carro, então abriu a porta e convidou o jovem a entrar. Nisso o jovem entra todo desengonçado, arrumando as calças. Heleno riu-se daquilo e comentou:
- Rapaz, nem calças do seu número você tem...
Heleno levou o rapaz até a cozinha e ferveu uma água. O rapaz, sentado à cadeira, continuava quieto, olhando atentamente para o pastor. Ao ferver o suficiente, Heleno tira de uma gaveta da cozinha um envelope de sopa pronta e mistura na água, mexendo-a por um tempo, e serve essa sopa dentro de uma pequena tigela de plástico e uma colher para o garoto.
- Tome essa sopa, pelo menos irá lhe matar a fome. Enquanto você come, vou lhe arrumar umas roupas novas para você vestir depois de um banho quente. - disse Heleno, enquanto ia para a dispensa.
Na dispensa, Heleno pensava consigo o quanto existem de coisas erradas na sociedade, enquanto procurava um paletó no meio das doações dos fiéis para a última campanha do agasalho, e Heleno percebeu que todo o trabalho religioso que ele pudesse fazer não seria o suficiente para impedir que mais e mais crianças como aquela acabassem na rua, morrendo de frio.
O que Heleno não percebeu é que o rapaz o havia seguido até a dispensa, e que enquanto o pastor procurava por uma roupa adequada, o jovem tirava da parte de trás da bermuda um revólver.
- Morra, otário!
Foram quatro tiros que atingiram o religioso pelas costas. Um dos tiros acertou-lhe a nuca, matando-o instantaneamente. Entre pilhas de roupas esquecidas, pastor Heleno ali jazia, enquanto o rapaz, antes de pilhar a casa inteira, bradava raivosamente:
- Agora morda o chão, seu viadão!

domingo, 4 de agosto de 2013

História de um grande amor eventual

É Daiana, eu vi sua mensagem com a foto do seu namorado, dizendo que romântico ele é. Aproveite a felicidade, sua vagabunda! Sorria aí com seus dentes brancos, eu sei o quanto você sorria amarelo comigo. Me ignorava, e esperava por um outro otário que pudesse te dar mais do que você podia conseguir.
Você Daiana, no alto de sua auto-suficiência, lançava seu sorriso falso para quem quer que fosse, desde o pobre cachorro de rua até o arrogante esportista da nossa série. A certeza de que era intocável, unida com o mistério de suas intenções: quais intenções se escondiam por detrás de feição tão agradável, tão solícita, tão pronta para fazer o bem a quem fosse?
Desde nossa convivência na escola primária, a primeira vez em que te vi foi um assombro: estava conformado com a mesmice que seria aquele ano e todos os outros seguintes. Estava quieto na minha, era uma aula horrível de música, apenas uma desculpa para o proselitismo de nosso corpo docente, e logo surgiu um burburinho de desaprovação. Me mantive alheio a tudo isso, talvez tolo demais para entender, ou chateado demais para ter esperanças, é o que prefiro pensar, e de repente, você, que estava na minha frente, se vira para se expressar!
Caramba, não consegui mais te esquecer! Desgraçada, agora o teu sorriso me assombra! Feliz, tentador, expressivo, eu queria que tudo isso fosse comigo! Maldosa, agora penso nele, tão longe, tão desconhecido, provocando o meu orgulho ferido! Por que, enquanto estava perto, era qualquer coisa, e agora que está longe eu quero tão próxima? Por que você nunca me deixou ter tal jóia rara? Se eu fosse mais ousado, perderia, jamais seria tão obsessivo. Se fosse mais prudente, jamais teria nem a chance de admirar. Talvez esse tenha sido meu grande erro: ao tentar chegar perto, vi o quão linda é sua essência, mas ao me aproximar, você viu a podridão de minha presença, e teve nojo de mim. Tenho tanta vergonha de existir, mas tanta alegria de contemplar sua maravilha, eu nunca soube o que era ser feliz até te conhecer.
Por favor, acabe com isso, ou pelo menos me destrua, assim eu posso ter minha vida de volta e tentar fazer algo por ela. Estou preso a você pelo amor que me amarra, me sufoca, e não me deixa raciocinar! Minha única fuga é me entorpecer, mas isso me aproxima de você e me faz chorar, chorar e chorar! Ela me compele a fazer o que nunca sonhei tentar. Pede para eu sair do meu lugar, mas não me orienta em nada, e não sei como me portar. Não sei o que penso, o que julgo, só sei que amo, e amar é o que me impele a viver, mais do que tudo. Teus olhos, tua boca, tua pele lisa, teu cabelo tão lindo, tua alegria tão pura...
Mas saber que o que você é não é para mim, que por mais que me esforce, por mais que tente sair do que sou para me fazer notar por ti, não chegará perto de te fazer me notar, sinto que a melhor maneira talvez seja te destruir. Te aterrorizar, atormentar, ofuscar, quem sabe assim você note que eu existo, e de alguma forma possa me respeitar! Você é tudo para mim e não recebo nada de você, quem sabe com minha obsessão, meu ódio, meu desejo, você me reconheça, afinal pelo menos isso fiz por merecer! Ficar à sua margem, Daiana, como qualquer lacaio, não é para mim, eu quero ser o titular que se casa contigo no terceiro ato!
Por mais que eu deseje, por mais que eu queira, estar com você, embora almeje, nunca a terei inteira. Pois se na ocasião de te possuir, sua mente irá divergir e você me recusará de qualquer maneira. Menina, mulher, senhorita, por favor me permita encontrar um modo de buscar um fim a tudo isso. A felicidade seria um objetivo, mas não sei que mal eu fiz, só sei que não posso ser feliz!
Mas já que não terei o meu desejo, não importa o que eu fizer daqui por diante, deixo para ti o meu último beijo.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Chegando de viagem

Eva chegou ontem em casa. Ao não encontrar ninguém acordado, deixou suas malas no chão e recostou-se no sofá. A viagem havia sido longa, e Eva não estava disposta nem mesmo a fazer uma simples pergunta para ver se alguém estava ali. Eva só tinha dois pensamentos na cabeça naquele momento: "preciso dormir urgentemente" e "nunca mais viajo de ônibus".
A tentação motivada pelo cansaço fez com que Eva, de recostada, ajeitasse-se ali mesmo no sofá para dormir. Deitou-se de bruços, tirou as sandálias do pé de qualquer jeito e procurou puxar a mala até si. Então, abriu-a, tirando dela uma pequena almofada e um cobertor. Tirou seus brincos, seu colar e os colocou dentro da bolsa que levava a tiracolo, guardando-a dentro da mala.
Ao fechar os olhos, Eva lembrou-se de que teria que apagar a luz da sala, mas era esforço demais, tinha acabado de se deitar, mas não conseguiria dormir com a luz acesa. Pensou em cobrir a cabeça com o cobertor, porém lembrou-se que a família poderia se incomodar e acabar acordando. E lá foi Eva levantar-se para apertar aquele interruptor. "Se pelo menos ele funcionasse igual o do corredor do prédio, que desliga sozinho depois de um tempo...", pensou Eva. "Mas que idéia idiota! Se fosse assim dentro de casa, teria que acender a luz o tempo todo durante a noite...". Eva apagou a luz e foi dormir.
Já com os olhos fechados, continuou a pensar naquela idéia anterior. "Poderia ter um interruptor com duas etapas: uma que mantivesse a luz por apenas um tempo limitado, e outra para deixar a luz acesa direto... mas quem iria querer um interruptor assim? Quando cheguei, eu acendi a luz para que ela ficasse acesa por mais do que alguns segundos, além disso, teria o problema de, se apertar um pouco mais forte, o interruptor travar na função de luz acesa permanente..."
E assim,. Eva caiu no sono, levando seus pensamentos em uma viagem sensorial sem ligação com a realidade das coisas, que serão um segredo até para ela mesma quando acordar. Poucos conhecem ou já foram capazes de perceber o caminho que a imaginação faz desde os pensamentos coerentes até o sonho em si, onde você já não tem mais o controle do que está pensando. O sonho, assim como a longa viagem que Eva fez para chegar em casa, passa por caminhos que muitas vezes não estamos interessados em observar.
Enquanto isso, Eva dorme no sofá da casa, devidamente coberta, sandálias jogadas ao chão, bagagem deitada ao lado, luzes apagadas. Ela, indiferente aos outros da casa, eles, alheios à presença dela. Viagens, além de serem um grande desperdício de tempo, promovem essa impessoalização, onde você chega no pior horário, e depois de passar tanto tempo distante, é incapaz fisicamente de celebrar o reencontro com os seus. Mas, cada um possui seus compromissos, suas razões para viajar, e algumas viagens podem ser boas. Além disso, sempre tem o dia seguinte, um dia inteiro para celebrar a união, não é?
Exceto quando não é. Eva rompeu um aneurisma enquanto dormia. Suas ações, seus pensamentos, suas atitudes, serão um mistério para todos que conviveram com ela. Hoje o dia é para os familiares sofrerem o choque e a tristeza de sua perda. Mais tarde, acontecerá o terrível velório, onde parentes distantes, amigos e conhecidos especularão se sua morte foi devida ao cansaço ou ao uso de drogas.
As pessoas às vezes pensam demais e sentem de menos.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A montanha russa

Uma mulher, um homem e uma criança estavam na fila para a montanha russa. Era uma fila enorme, certamente eles levariam mais de uma hora até chegar ao brinquedo. A mãe estava visivelmente contrariada:
- Onde já se viu, enfrentar fila tão grande, e justamente para este brinquedo?
Seu desdém pela atração era evidente: nunca gostou de montanha russa desde quando andou pela primeira e única vez, na flor da juventude, para acompanhar o então namorado. Inclusive, aquela tinha sido a causa do rompimento de ambos. A sensação de pavor durante a queda foi tão impactante que a fez renunciar ao namoro de anos e anos e apenas saísse com quem não gostasse desse desvario. O namorado seguinte, atual marido e pai de seu filho, seguiu as regras à risca durante o namoro, e agora, para sua desilusão e seu espanto pela surpreendente indiferença ao fato presente, estava ele animadíssimo para experimentar novamente as sensações desafiadoras e apresentar-lhes à seu rebento:
- Olha só filho! - aponta o pai para o trem a subir - O trenzinho vai subindo, subindo, até chegar lá em cima, daí, ele anda um pouquinho no alto, dá para ver o parque inteiro, e de repente, VRUM! Ele cai bem rápido até voltar para cima de novo, vira ali e desce rápido, e depois vai fazendo um monte de curva, que nem carro de Fórmula 1.
- É perigoso, pai? - pergunta o filho, sem certeza de nada, nunca tinha ido sequer a um parque de diversões antes, quanto mais em um brinquedo daqueles.
- Não é perigoso, ele só assusta um pouco, mas quando você desce, você vai ver que legal que é. A adrenalina sobe, filho, não tem sensação igual! Diz ele, com uma alegria infantil condizente com seu estado mental no momento.
- Como que aquele carrinho não cai? Não tem nada segurando ele... Geraldo, vamos sair, olha como a fila tá longa - protestou a mulher.
- Graça, deixa de graça, já estamos no meio da fila, é tarde demais para voltar - retrucou Geraldo, com um sorriso de moleque. Nisso, outra hora se passa.
Graça não entende como ficou tão mole com o passar do tempo. Aquele marido, que era um sonho para ela no dia do casamento, havia se tornado um rapaz inconseqüente, raramente ouvia seus protestos e fazia o que queria, reunindo-se com seus amigos. Contudo, ela não podia se queixar de que ele não se importava com ela. Amava-a e sempre demonstrava isso, algumas vezes de maneiras absolutamente infantis, outras vezes, cometendo gestos grandiosos que a comoviam deveras, como quando ele ofereceu todo o suporte a ela no câncer que vitimou seu pai, e ao arrumar emprego para o incorrigível marido de sua irmã. Ela jamais teria se casado com um homem com aquele perfil que seu marido agora possuía, ela que era de uma família de rígidos valores familiares e ela mesma, que sempre foi uma mulher cheia de brios. Perdida em seus pensamentos, mais uma hora se passou, e agora, estavam eles, de frente ao trenzinho que os levariam ao passeio fatídico.
Sentaram-se ela e o filho na penúltima fileira. O pai queria que o filho fosse com ele na última, mas a mãe foi irredutível. "Ele não é tão ruim assim, ele cede de vez em quando" pensou ela, talvez sem se dar conta da roubada em que havia entrado. Mas ela lembrou-se logo quando o trem começou a andar. Calafrios corriam por seu corpo enquanto o trem fazia seu lento rolar na primeira curva, Graça sentia-se levemente claustrofóbica entre as vigas de metal que formavam o enorme percurso. Para se distrair, ela desdobrava-se em atenções desnecessárias ao filho:
- Segura bem na trava, se tiver com muito medo, segura na minha mão, você não tinha que estar aqui por causa desse maluco, mas ele vai ver só quando a gente chegar lá embaixo... se a gente chegar... ai meu deus...
o trem, firmemente ancorado em uma correia,agora fazia a subida para o início do verdadeiro passeio. A mãe fechava os olhos do filho com suas mãos, mas o menino reclamava:
- Pára mãe, eu quero ver...
Enquanto isso, a mãe tentava olhar para dentro do vagão ou para os trilhos. Atrás deles, Geraldo se divertia com a situação:
- Isso aí filho, seja homem!
Ali em cima, o trem parou de subir e passou a percorrer os trilhos apenas com sua própria força em direção à primeira descida. Sem opção, só restou à Graça ver o que iria acontecer.
- Não solte da barra, filho.
Graça mal pôde ver a primeira descida, pois o vento em direção a seu rosto a impediu de enxergar qualquer coisa. Enquanto o trem descia em alta velocidade em direção ao chão, o aumento da aceleração forçava seu corpo contra o ar em volta como uma ventania muito forte. Ao mesmo tempo, sentiu um calafrio em seu estômago que irradiava pela espinha. Rapidamente o veículo subiu de novo e seguiu seu caminho em direção à segunda descida. A segunda descida não era tão forte quanto a primeira, mas a descida era mais íngreme, e então Graça pôde entender melhor. Aquele turbilhão de sensações causou uma impressão diferente à Graça desta vez: na descida, ela sentiu-se nua, acariciada que era pelo ar percorrendo seu corpo com enorme rapidez. Ao mesmo tempo, o friozinho que sentiu no interior do corpo trouxe-lhe uma sensação muito agradável, semelhante a da outra vez, mas, à época, ela não soube interpretar exatamente o que era.
Durante as curvas e subidas e descidas seguintes, seu corpo deixava-se levar pelo sacolejar do veículo. Estava entregue ao poder daquele terrível brinquedo. Já não pensava em mais nada, apenas deixava a máquina sabiamente levá-la ao caminho que ele já conhecia de centenas de viagens anteriores.
Porém, aqueles dois minutos e meio pareciam pouco no momento em que o trem chegava ao seu destino final. Geraldo pulou de seu lugar tão logo o vagão freou, pronto para ver a reação do filho à sua viagem inaugural. A alegria em seu rosto logo deu lugar à incompreensão e decepção. O menino estava chorando.
- Ô meu filho, não fica assim, já passou, já passou. - dizia o pai enquanto tirava o filho do carro. Graça demorou um pouco a sair, não percebeu de imediato a parada do comboio. Ao perceber que os dois estavam se distanciando, Graça alcançou-os e pôs-se a consolar o filho:
- Não chore, querido. Você não gostou do passeio? Vamos de novo, você vai ver como é divertido.
O menino chorou mais ainda.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A lápide

A morte é uma parte da vida
onde a vida deixa de haver.
Tanto faz para aquele
que vive a vida sem viver.

Andando pelas alamedas de um grande cemitério, ele caminha em uma direção exata. Tem na memória todo o itinerário fúnebre, que todo ano, sempre naquela data, se repete. Em outras ocasiões, não costuma reparar nos túmulos à sua volta, porém naquele dia, ele decidiu reparar naquela multidão de casas, algumas de mármore, outras de granito, muitas de alvenaria. Todas em uma infinidade de formas retangulares e chapadas, organizando-se em volta das pequenas ruas como casas de uma grande cidade. O porte ia de túmulos simples a algumas mini-capelas, outros exuberantes memoriais e mesmo algumas construções gigantescas, verdadeiras mansões, últimas demonstrações de poder de pessoas que dentro delas usufruem do sono eterno.
Ele sempre considerou tudo aquilo uma grande tolice. De que importa toda aquela ostentação se dentro daqueles monumentos exuberantes, placas de bronze cuidadosamente forjadas, flores coloridas perfumando o ambiente, escondiam-se, enfurnados em caixas tenebrosas de madeira, corpos decrépitos, que serviam somente à apreciação dos organismos minúsculos que os devoravam, repetindo o ciclo da vida indefinidamente até que ali nada mais houvesse e esses outrora agentes do destino, transformadores do panorama, acabassem em ossos limpos e desarranjados, entocados em plúmbeos sacos de lixo por entediados coveiros que, da morte, ganham a vida. Ele via todas aquelas urnas funéreas e aquela multidão de pessoas falecidas, gritando por atenção sem garganta, não lhe significavam absolutamente nada. Ele nem da cidade era, havia saído de lá na infância, foi seguir sua vida em outro lugar. Não se sentia pertencente àquele lugar, exceto por um único laço que o prendia ali.
O lugar nunca lhe saiu da cabeça. Enquanto virava uma esquina, lembrava-se de por que estava ali, de por quem estava ali. Lembrava-se de seu irmão mais novo, aquele que por algumas noites carregou nos braços, ele, seis anos mais velho, velando seu sono, observando-o sorrir, chorar tantas vezes, engatinhar no chão de terra batida. Seu irmão havia morrido de sarampo quando tinha um ano de idade. Seus pais após isso o enterraram e foram para outra cidade. Desde então, todo ano, pai, mãe e ele iam até lá visitar o pequeno falecido, rezar, contar as novidades, pequenos gestos de conforto para eles mesmos.
Com o passar dos anos, seus pais faleceram, e ele passou a ir sozinho. Algumas vezes levou a esposa, mas ela não gostava de acompanhá-lo naquelas idas chatas e demoradas. Vinte anos depois, ela faleceu de moléstia prolongada, um período muito sofrido. Eles não tiveram filhos, e ele nunca mais se casou, velho que estava. Com o tempo, os amigos também pereceram, mas nenhum deles jamais rivalizou a atenção que ele depositava para seu querido parente. Todos os anos, no dia do aniversário de sua morte, ele ia até lá religiosamente, com uma preocupação constante de sempre lembrar-se dele pelo menos por aquele dia.
E agora, ali então ele chegava na quadra onde jazia os restos mortais de seu irmãozinho morto com um ano, ele ali vivo aos noventa anos, respirando com dificuldade, para o que ele sentia ser sua última visita ao irmão. Enquanto atravessava os vários túmulos que cobriam a vista do jazigo, refletia sobre o futuro: não sobrara ninguém de sua família. Tios, primos, amigos, estavam todos em outras cidades, em seus próprios túmulos, cuidando de suas mortes. Parou de frente ao túmulo, fez o sinal da cruz, olhou, e notou o que talvez os outros anos tivessem escondido dele: ali havia apenas uma simples tampa de cimento ao chão, e uma lápide extremamente simples, contendo unicamente o nome, data de nascimento e data de morte. Agora ele estava perto do fim da vida, não sobraram parentes vivos que conhecessem sua existência. Ninguém o veria, coberto que estava por túmulos maiores à sua volta. Seu irmão ficaria ali, para sempre esquecido, no túmulo mais simples do cemitério. Ele então, ao invés de dizer "Bom dia", como sempre fez durante todos aqueles anos, ele disse:
- Talvez fosse melhor ter feito um túmulo maior...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A revolução silenciosa

A quem receber esta carta, favor entregar a Luci Demian. Se não for possível, favor ler, copiar e repassar, pois é uma mensagem de extrema importância.
Quero aqui, nesta carta, denunciar o grande erro da humanidade, o seu segundo pecado original: O mito da tecnologia. A ciência evoluiu tremendamente em busca de maior qualidade de vida para os homens e mulheres, porém a revolução industrial nos prejudicou para sempre, pois na busca de uma indústria funcional, houve uma demanda maior pelo consumo. Graças à necessidade de demanda para uma oferta cada vez maior de produtos, moldamos nossa cultura para uma cultura de consumo. Por causa dela, o crescimento tecnológico veio num instante, para aumentar a produtividade: diminuímos as distâncias com o telégrafo, conhecemos e exploramos novas fontes de energia como o vapor, o petróleo, a eletricidade, criamos novos veículos para conseguir diminuir o tempo e aumentar a autonomia de longas viagens, conhecemos novos povos. Entramos em um círculo vicioso de maximização dos lucros. Mas essa indústria não era capaz de lidar com o elemento humano: salários eram baixos, exigências de trabalho eram massacrantes. As pessoas que trabalhavam nessas indústrias se organizaram e se rebelaram. Tiveram que ter direitos concedidos, pois os trabalhadores também eram consumidoras. Era importante que o consumo fosse acessível ao maior número de pessoas possível.
Seguindo esse caminho, a nova coqueluche para as indústrias passou a ser a automação: minimizar a participação humana ao máximo possível em um primeiro momento, que foi onde surgiram as linhas de montagem, e mais adiante, já com a criação dos computadores, a substituição por peças mecânicas que pudessem fazer esses trabalhos.
Nessa necessidade de tecnologias melhores, criamos o transistor e o circuito integrado, que deram origem aos computadores. Guerras também provaram ser um meio eficaz de apressar a evolução tecnológica, e finalmente o ser humano adquiriu o poder de destruir seu próprio planeta, com a misteriosa e letal energia nuclear. Essa evolução do conhecimento, assim como a física quântica, tiveram efeitos contundentes na busca por novas tecnologias: trabalhavam com conceitos extremamente complexos para serem compreendidos por um indivíduo. A obtenção de resultados precisava de um processamento cognitivo muito maior do que o nosso cérebro era capaz, então a partir daí o computador se tornou uma máquina cada vez mais importante. Logo, esse computador chegou até o indivíduo, que poderia usá-lo em sua casa.
O estudo de inteligências artificiais evoluiu rapidamente. A observação de sistemas biológicos simples nos deram importantes avanços à ciência de materiais e uma autonomia maior de energia. Sem essas tecnologias, não teríamos chegado à revolução verde.
Com a evolução tecnológica, criamos mais sistemas robóticos, cada vez mais especializados. Agora eles vigiavam nossas atividades, velavam nosso sono, protegiam nossas cidades. Após isso, com a crise energética e a escassez de recursos naturais, o conceito de cérebro central foi deixado de lado e passamos a produzir os silicóides. O que eram há centenas de anos atrás apenas ábacos sofisticados que nos levaram ao espaço, agora já eram humanóides com autonomia de milhares de anos, detentores de uma capacidade cerebral incontáveis vezes maiores que o cérebro humano, Corpos melhorados capazes de ver cores que não conhecemos, luzes que jamais sonhamos, odores que nunca sentiríamos e elaborar conceitos inteiros em uma única sinapse.
A humanidade não percebeu que, na busca por conforto e facilidades, tornou tudo muito mais complicado, e acabou dando mais poder e mais capacidade para as máquinas gerenciarem as complicações da vida para nós, restando aos humanos apenas a tarefa de fazer a manutenção dessas máquinas, e de repente, entre o acordar de um sono e a satisfação de um almoço, já não éramos mais a inteligência dominante deste planeta.
Como cientista social, analisei a história até chegar a este ponto, e muito me estranhou como meus papéis científicos foram sumindo nos bancos de dados. Fiz meus protestos em convenções científicas e em plenários, porém os cientistas não me deram ouvidos, já que fui acusado de forjar dados, que são controlados pelas próprias mentes silicóides, e a classe política acredita que não existe essa conspiração, já que eles não fazem lobby político e nem buscam por direitos iguais. Eles não precisam de nosso sistema político, eles se autogovernam.
Por isso, prestes a contemplar minha execução pelas minhas denúncias conscientes, deixo aqui minhas últimas palavras na esperança de que ela chegue até alguma pessoa, para que possa despertar ante o grito de sua extinção latente ou de sua escravidão iminente. Não tenho mais o direito de acreditar que minha vida ainda será salva, mas coloco nesta carta toda minha esperança de que as notícias de minha execução cheguem até o povo, e que isso resulte em alguma atitude para impedir a ameaça cibernética. Que sejamos os seres humanos que um dia fomos: dominantes mais uma vez. Como ser humano, não deixarei de tomar a atitude certa até o final da minha vida.
Acordem, meus irmãos! Ainda é tempo!
Eternos alvoreceres.

Acad Demian
Mensagem interceptada em 0,0006534522-234
Mensagem arquivada em 0,0006534985-234

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Manifesto do artista: o que me faz um escritor

Eu sou Max Jarek. Max Jarek é apenas um pseudônimo. Meu nome não importa. Quem eu sou não importa, nunca importou. Eu sou uma pessoa, uma pessoa que normalmente é pior que todas, em alguns momentos é melhor que todas, mas que em uma avaliação geral, é apenas uma pessoa normal, com suas anormalidades, suas perversões, seus amores secretos, suas preocupações.
A questão nem é fazer segredo sobre minha pessoa, o ponto é o seguinte:
Eu tenho coisas para dizer para as pessoas. Existe um mundo de informações por aí, informações que a maioria das pessoas desconhece. Tenho ambições artísticas, e meu objetivo é, através das histórias escritas, estimular o intelecto das pessoas, provocá-las, emocioná-las, ou apenas entretê-las.
Escrever é mais do que simplesmente montar frases e contar uma história: é trazer um mundo de conhecimentos, experiências, muitas jamais vividas, outras sempre rememoradas, e usar isso para fazer um diálogo com o leitor. O leitor normalmente chega às suas próprias conclusões, que não precisam corresponder à visão do autor, como leitor de sua obra. Eu acredito que a arte não é panfletária, e que ela nem sempre reflete a cultura e a época de seu autor. Muitas obras artísticas, sem se focar exatamente na literatura, transcendem essas noções e nos oferecem uma rica experiência sensorial e intelectual acerca do eterno drama do ser humano, esse animal que pensa ser alguém e que tem conhecimento de sua insignificância, mas que está sempre em luta desesperada para causar uma ferida aberta no universo se for possível, apenas para ser notado, para ser ouvido, pois ele acredita firmemente ter algo a dizer.
Por isso eu resolvi que, independente dos meios, eu tenho algo a dizer. O problema é que vivemos em uma época de democratização da mídia, através da internet, e todos podem se expressar, por isso todo mundo quer ser escritor, todo mundo quer ser comediante, todo mundo quer ser famoso, todo mundo quer ser rico. Todo mundo quer que as outras pessoas se reúnam em volta delas e lhes diga que são especiais.
Eu não quero isso. Entrei no caminho da escrita porque conheço minhas limitações e escrever é a única e melhor forma de me expressar plenamente. Meu nome de escritor é Max Jarek porque uma pessoa é avaliada pelas outras pessoas através do que ela faz e quero ser avaliado pela minha obra literária. Neste mundo competitivo da internet, não quero competir por atenção com ninguém, pois existe espaço suficiente para todos. Após algumas experiências de ações na internet, resolvi me ater ao mais simples: criar um site onde eu posso publicar o que eu quiser, e é por onde posso produzir e divulgar a minha arte. Quero viver como escritor, mas minha expectativa de lucro com isso é a menor possível, por isso ela se resume a banners de propaganda, que pode não trazer leitores, porém é a melhor maneira que tenho de ganhar alguma coisa com o que eu escrevo. O site é o modo como posso viver sendo um escritor na minha realidade atual. Se meus textos nunca forem lidos e conhecidos, não é culpa das pessoas; Os leitores virão de acordo com a qualidade da minha obra. Se eles nunca vierem, então nunca fui um escritor digno de sua leitura. De qualquer maneira, não pretendo parar de escrever: esta é a minha contribuição para o mundo.

domingo, 13 de janeiro de 2013

O menino do balanço

Um vento fresco e um leve sabor de nostalgia atingiram Saulo quando ele chegou àquela praça. Praça de tanta diversão. Viu ali os brinquedos de madeira, há muito tempo não via brinquedos de madeira em praças, muito menos praças com brinquedos. Eles haviam dado lugar a brinquedos de plástico em playgrounds montados em clubes, condomínios fechados e escolas com o passar do tempo, mas ali evidentemente não estava no mesmo tempo. Saulo olhava os brinquedos com atenção, o escorregador, a ponte, a escada, a gangorra... e aí viu, um pouco adiante, um menino brincando no balanço.Ia para frente e para trás. Nisso Saulo se aproximou com um sincero sorriso, um daqueles que viraram sinônimo de temor com o passar do tempo, mas aquele parque evidentemente não estava no mesmo tempo. O garoto parou lentamente de se balançar e cumprimentou Saulo:
- Oi!
- Oi... você está brincando aqui muito tempo?
- Não, minha mãe falou que eu podia brincar um pouco, porque eu fiz a lição.
- É mesmo? Que lição?
- De matemática. Tinha que fazer a tabuada do três e do quatro, e tinha três problemas para achar a resposta.
- E foi muito difícil?
- Não foi, com a tabuada para ver fica mais fácil. Eu tenho uma régua que tem toda a tabuada até o nove, só que eu não posso levar na escola, a professora não deixa usar...
- Ela é chata com você?
- Não, ela é legal, acho. Eu não gosto quando ela passa muita lição de casa. Outro dia ela escreveu vinte problemas na lousa para a gente copiar no caderno e fazer em casa.
- É mesmo? E você conseguiu fazer?
- Fiquei a noite inteira fazendo! Quando acabou minha mãe deixou eu brincar um pouquinho com os brinquedos antes de dormir. Minha irmã foi dormir antes que eu!
- Demorou bastante, hein? Você gosta da sua irmãzinha?
- Ah, ela é chata, fica perto de mim o tempo todo. Eu gosto dela, é minha irmã, mas eu quero ficar com os meus amigos de vez em quando, né? Ela é muito nova, e é menina, ela tem que brincar com menina da idade dela.
- E os amigos, você gosta deles?
- Eles são bem legais. Tem o Márcio, é o meu melhor amigo, ele é mais alto que eu mas a gente brinca direto, às vezes eu vou na casa dele brincar, ele tem uns brinquedos bem legais, e ele vai na minha casa. Uma vez a gente foi, eu, minha família, ele e a família dele na praia, e foi muito bacana!
- E os outros amigos?
- Eles são legais também. Tem o Ivan, o zóio, porque ele usa óculos, ele disse que tem que usar porque não enxerga direito. ele olha na lousa e a letra é bem pequenininha. Tem o Du, tem o Cabeça, tem o Rafael, mas eles são só da escola, eles não moram perto de casa.
- Mas só amigo homem, não tem amiguinha?
- Não, as meninas são todas chatas. Ficam falando de namorar, de brincar de casinha. Tem dia que elas vêm brincar normal com a gente e daí é divertido. Tem a irmã do Márcio também, mas ela é mais velha, aí ela só brinca com a gente quando os amigos dela não estão, ela tem vergonha.
- Sei... e o que você acha dos seus pais?
- Ah, o papai trabalha fora, aí a gente só vê ele de noite, e ele tá cansado. Ele é meio bravo, mas é bem engraçado. A mamãe fica com a gente de dia, ela é bem divertida, mas quando ela fica brava, até o papai fica assustado.
- Hahahahaha... viu, o seu pai quando volta do trabalho, ele fica muito chato?
- Ele não fala muito, fica mais cansado mesmo. A gente conta o que a gente fez no dia para ele mas ele não presta muita atenção, aí agora a gente conta no fim de semana, que ele tá mais contente. Quando tem fim de semana ele compra sorvete, aí eu gosto de sorvete de brigadeiro, que tem o chocolate e aqueles palitinhos em cima, e o papai compra pra gente um potão bem grande.
- E... o papai fala do trabalho?
- Ele só fala com a mamãe, fica falando de papel, de entregar no horário, não sei...
- Você acha que ele gosta do trabalho?
- Acho que ele gosta, senão ele não ia trabalhar, né?
- Não sei... e você gosta de fazer lição?
- Ah, eu não gosto quando tem que fazer lição de casa, estudar para a prova. Eu gosto de fazer na escola.
- Mas você gostaria de não ter que fazer lição?
- A gente tem que fazer, né?
- Mas, vamos imaginar que você pudesse trocar a lição de casa, a escola, por ficar mais tempo com seus amigos. Você ia gostar?
- Ah, eu ia, mas eu já vejo eles bastante.
- E você não queria brincar com eles mais vezes, se pudesse?
- Daí eu não vejo mais meus amigos da escola. E não é ruim, é só cansativo, mas depois a escola acaba, aí eu vou para casa, de fim de semana vou na casa da vovó, tomo sorvete... papai fala que tomar sorvete demais enjoa, e eu gosto de sorvete, não quero ficar enjoado de sorvete.
- Você falou que ficava cansado de fazer lição que você falou antes.
- Mas fazendo lição a gente aprende. Outro dia ensinaram para gente que tubarão é peixe e baleia e golfinho não é. E eu vou decorar a tabuada inteira, e não vou precisar usar a régua.
- Mas isso é chato, e a gente aprende para que depois?
- Tem coisa que eu não gosto de aprender, mas eu vou precisar para trabalhar quando eu crescer.
- E o que você quer ser quando crescer?
- Eu não sei ainda... vou procurar uma coisa que eu gosto bastante para fazer.
- Mas e se você não achar?
- Eu vou achar. Se não achar, vou continuar procurando.
- Mas menino, você pode não achar e acabar ficando nesse emprego para sempre.
- Ah... então tá bom!
- Como assim tá bom? Você vai ficar chateado, e fazer coisas que não quer fazer.
- Mas eu faço tudo o que eu quero! Eu brinco, tenho meus amigos, tenho minha irmã, o papai, a mamãe, o vovô e a vovó. Eu faço e aí eu me divirto. Não pode fazer isso?
Saulo olhou para o céu e ficou murmurando para si mesmo:
- Tantos anos, e a resposta, tão simples... o que eu fiz em todo esse tempo...
E aí o menino desce do balanço e fala com Saulo:
- Eu tenho que ir para casa, tchau tio!
Saulo acena para o menino:
- Tchau Saulo...
E lentamente Saulo acorda de volta ao divã do terapeuta. Desta vez, com lágrimas rolando em seu rosto.
- A resposta estava comigo o tempo todo...
Saulo acordou da regressão, mas Saulo já não estava mais em seu tempo.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A hipnose de João Augusto 2

João Augusto seguiu direto para o Pronto Socorro. Estava preocupado com o olho roxo que tinha recebido após levar um soco de um transeunte o qual tentou hipnotizar usando truques baratos de um livro. Em sua preocupação, não lhe passou pela cabeça que não havia nada a ser feito com relação ao possível hematoma e inchaço: o estrago já estava feito e o pobre clínico-geral não teria o que receitar ao rapaz.
Assim mesmo, João Augusto registrou seu problema na recepção e sentou-se numa cadeira no hall de entrada enquanto esperava pela consulta junto de outros pacientes. Passar o tempo em um ambiente hospitalar ou similar não costuma ser das experiências mais agradáveis: enquanto esperava, João Augusto observou alguns de seus colegas de espera: um casal de meia idade, o marido de camiseta regata e bermudas, provavelmente tomou algum susto em casa; um casal jovem com feições tensas, juntos com seu filho de colo, chorando de leve e tendo dificuldades para respirar. "É muito sofrimento por aqui, eu nunca trabalharia num lugar desses", pensou João Augusto, braços cruzados, com uma mão tapando o olho ferido, e o cotovelo apoiado no outro braço. No televisor pendurado, um programa feminino era exibido, mas ninguém prestava atenção.
Após alguns minutos, uma enfermeira os chamou para entrar em um corredor até a sala do clínico-geral, onde cada um esperou por ordem de chegada para serem atendidos. João Augusto sentou-se um pouco afastado dos outros pacientes. O desânimo era evidente em todos ali, de funcionários a pacientes. Tudo se resumiria a um simples momento deprimente.
Até que, virando um corredor, apareceu uma faxineira, lavando o chão. João Augusto olhou para ela durante um longo tempo. Era uma jovem de estatura média, por volta de vinte anos, mas o porte físico sugeria menos. Ela tinha um rosto muito bonito, embora exprimisse a mesma alegria de viver de todas as outras pessoas do Pronto Socorro. Tinha cabelos castanhos, armados em coque no topo da cabeça, usava luvas e botas amarelas, que faziam conjunto com o balde de rodinhas e o esfregão, e usava uma camiseta azul-marinho e calça jeans, que mesmo com sua silhueta muito magra, evidenciavam algumas curvas. João Augusto foi vendo seu interesse por aquela jovem aumentar até o ponto em que havia esquecido disso e passado a considerar que "um interesse fulminante" surgiu dele para com ela.
Enquanto ele a olhava silenciosamente, eis que a mulher o olhou de volta. João Augusto, assustado, rapidamente desviou o olhar para algum ponto da parede. Voltou a olhar para ela e percebeu que ela de vez em quando dava pequenas olhadas para ele enquanto continuava limpando o chão. João Augusto ficou maravilhado? Será possível que ela estaria interessada nele? Em um dia como outro qualquer, um infeliz soco no olho gerou uma série de eventos em seqüência que chegou até ao encontro de uma possível paquera, justamente ali no Pronto Socorro?
E eis que, naquele dia, finalmente uma pessoa sorriu naquele local. João Augusto sorria pensando por que justamente ele. Seria por causa do olho roxo? A faxineira, com tanto tempo convivendo com médicos e enfermeiras, desenvolveu um sentimento de empatia e compaixão e viu nele alguém ferido que ela desejava cuidar e tratar? Não, não podia ser. Ou estaria ele sem querer exercendo algum tipo de poder hipnótico? Afinal, seu olho roxo fazia com que as pessoas, especialmente as moças, olhassem diretamente para seu olho, criando uma conexão instantânea, afinal isso estava no livro. De repente, João Augusto lembrou-se daquele livro de hipnose, justamente o livro que o colocou em problemas em primeiro lugar e lhe rendeu o olho roxo. Poderia ele ajudar-lhe naquele momento, incentivando na garota, através de seu subconsciente, uma paixão irresistível por ele? João Augusto pensou que isso talvez não fosse muito ético, mas concluiu rápido que não havia problema algum, afinal ela demonstrou interesse por ele: ele viu como ela olhava para ele. João Augusto decidiu então puxar papo com a moça e conseguir a chance de um futuro encontro, sair dali com um número de telefone, ou mesmo acompanhá-la para uma conversa depois de seu turno.
Aí o clínico-geral chamou por João Augusto, que se dirigiu até a salinha. Realmente ele não podia fazer muita coisa, apenas fez um teste para verificar se a visão tinha sido prejudicada, receitou uma pomada e o dispensou. João Augusto ficou aliviado, pois assim seria mais rápido puxar conversa com a bela funcionária que havia lhe chamado atenção. Saiu da salinha, mas não a viu, ela provavelmente deve ter ido limpar outro lugar. Enquanto a procurava, pensava em como abordá-la e qual estratégia usar para produzir algum efeito hipnótico. Passando por outro corredor, próximo à sala de tratamento, João Augusto viu o casal com o filho pequeno sentado esperando para ser atendido ali e, do outro lado, reconheceu a bela moça. Juntou toda a coragem que havia sobrado e foi até ela, achou melhor conversar um pouco com ela antes para ver seu comportamento, uma idéia muito boa para evitar o que aconteceu antes, chegou próximo e abordou-a:
- Com licença, queria lhe fazer uma pergunta...
Ao virar-se, a moça rapidamente devolveu-lhe outra pergunta:
- Por um acaso você não é o filho da Dona Iraci?
João Augusto assustou-se: como ela sabia o nome de sua mãe?
- Sim.
- Ah, então é daí que eu te conheço: Você veio falar comela em casa uma vez, quando ela era babá da minha filha. Faz tanto tempo que não a vejo, mande um abraço para ela, viu? Qualquer dia desses eu ligo para ela.
- Ah, tá... tá bom...
João Augusto saiu de lá desolado. Nem o soco no olho havia doído tanto quanto aquele acontecimento. Infelizmente não há o que culpar João Augusto: as luvas amarelas do ofício impediram que João Augusto visse em seu dedo o anel de compromisso que usava, mas João Augusto realmente não se lembrou daquela jovem a qual havia encontrado apenas uma vez, há dois anos atrás, quando tinha ido até a casa dela e de seu marido para pedir à sua mãe dinheiro para sair com os amigos.
E João Augusto, ao lembrar-se de sua mãe, decidiu voltar para casa. O dia havia sido movimentado demais.