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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A revolução silenciosa

A quem receber esta carta, favor entregar a Luci Demian. Se não for possível, favor ler, copiar e repassar, pois é uma mensagem de extrema importância.
Quero aqui, nesta carta, denunciar o grande erro da humanidade, o seu segundo pecado original: O mito da tecnologia. A ciência evoluiu tremendamente em busca de maior qualidade de vida para os homens e mulheres, porém a revolução industrial nos prejudicou para sempre, pois na busca de uma indústria funcional, houve uma demanda maior pelo consumo. Graças à necessidade de demanda para uma oferta cada vez maior de produtos, moldamos nossa cultura para uma cultura de consumo. Por causa dela, o crescimento tecnológico veio num instante, para aumentar a produtividade: diminuímos as distâncias com o telégrafo, conhecemos e exploramos novas fontes de energia como o vapor, o petróleo, a eletricidade, criamos novos veículos para conseguir diminuir o tempo e aumentar a autonomia de longas viagens, conhecemos novos povos. Entramos em um círculo vicioso de maximização dos lucros. Mas essa indústria não era capaz de lidar com o elemento humano: salários eram baixos, exigências de trabalho eram massacrantes. As pessoas que trabalhavam nessas indústrias se organizaram e se rebelaram. Tiveram que ter direitos concedidos, pois os trabalhadores também eram consumidoras. Era importante que o consumo fosse acessível ao maior número de pessoas possível.
Seguindo esse caminho, a nova coqueluche para as indústrias passou a ser a automação: minimizar a participação humana ao máximo possível em um primeiro momento, que foi onde surgiram as linhas de montagem, e mais adiante, já com a criação dos computadores, a substituição por peças mecânicas que pudessem fazer esses trabalhos.
Nessa necessidade de tecnologias melhores, criamos o transistor e o circuito integrado, que deram origem aos computadores. Guerras também provaram ser um meio eficaz de apressar a evolução tecnológica, e finalmente o ser humano adquiriu o poder de destruir seu próprio planeta, com a misteriosa e letal energia nuclear. Essa evolução do conhecimento, assim como a física quântica, tiveram efeitos contundentes na busca por novas tecnologias: trabalhavam com conceitos extremamente complexos para serem compreendidos por um indivíduo. A obtenção de resultados precisava de um processamento cognitivo muito maior do que o nosso cérebro era capaz, então a partir daí o computador se tornou uma máquina cada vez mais importante. Logo, esse computador chegou até o indivíduo, que poderia usá-lo em sua casa.
O estudo de inteligências artificiais evoluiu rapidamente. A observação de sistemas biológicos simples nos deram importantes avanços à ciência de materiais e uma autonomia maior de energia. Sem essas tecnologias, não teríamos chegado à revolução verde.
Com a evolução tecnológica, criamos mais sistemas robóticos, cada vez mais especializados. Agora eles vigiavam nossas atividades, velavam nosso sono, protegiam nossas cidades. Após isso, com a crise energética e a escassez de recursos naturais, o conceito de cérebro central foi deixado de lado e passamos a produzir os silicóides. O que eram há centenas de anos atrás apenas ábacos sofisticados que nos levaram ao espaço, agora já eram humanóides com autonomia de milhares de anos, detentores de uma capacidade cerebral incontáveis vezes maiores que o cérebro humano, Corpos melhorados capazes de ver cores que não conhecemos, luzes que jamais sonhamos, odores que nunca sentiríamos e elaborar conceitos inteiros em uma única sinapse.
A humanidade não percebeu que, na busca por conforto e facilidades, tornou tudo muito mais complicado, e acabou dando mais poder e mais capacidade para as máquinas gerenciarem as complicações da vida para nós, restando aos humanos apenas a tarefa de fazer a manutenção dessas máquinas, e de repente, entre o acordar de um sono e a satisfação de um almoço, já não éramos mais a inteligência dominante deste planeta.
Como cientista social, analisei a história até chegar a este ponto, e muito me estranhou como meus papéis científicos foram sumindo nos bancos de dados. Fiz meus protestos em convenções científicas e em plenários, porém os cientistas não me deram ouvidos, já que fui acusado de forjar dados, que são controlados pelas próprias mentes silicóides, e a classe política acredita que não existe essa conspiração, já que eles não fazem lobby político e nem buscam por direitos iguais. Eles não precisam de nosso sistema político, eles se autogovernam.
Por isso, prestes a contemplar minha execução pelas minhas denúncias conscientes, deixo aqui minhas últimas palavras na esperança de que ela chegue até alguma pessoa, para que possa despertar ante o grito de sua extinção latente ou de sua escravidão iminente. Não tenho mais o direito de acreditar que minha vida ainda será salva, mas coloco nesta carta toda minha esperança de que as notícias de minha execução cheguem até o povo, e que isso resulte em alguma atitude para impedir a ameaça cibernética. Que sejamos os seres humanos que um dia fomos: dominantes mais uma vez. Como ser humano, não deixarei de tomar a atitude certa até o final da minha vida.
Acordem, meus irmãos! Ainda é tempo!
Eternos alvoreceres.

Acad Demian
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