A quem receber esta
carta, favor entregar a Luci Demian. Se não for possível,
favor ler, copiar e repassar, pois é uma mensagem de extrema
importância.
Quero aqui, nesta
carta, denunciar o grande erro da humanidade, o seu segundo pecado
original: O mito da tecnologia. A ciência evoluiu tremendamente
em busca de maior qualidade de vida para os homens e mulheres, porém
a revolução industrial nos prejudicou para sempre, pois
na busca de uma indústria funcional, houve uma demanda maior
pelo consumo. Graças à necessidade de demanda para uma
oferta cada vez maior de produtos, moldamos nossa cultura para uma
cultura de consumo. Por causa dela, o crescimento tecnológico
veio num instante, para aumentar a produtividade: diminuímos
as distâncias com o telégrafo, conhecemos e exploramos
novas fontes de energia como o vapor, o petróleo, a
eletricidade, criamos novos veículos para conseguir diminuir o
tempo e aumentar a autonomia de longas viagens, conhecemos novos
povos. Entramos em um círculo vicioso de maximização
dos lucros. Mas essa indústria não era capaz de lidar
com o elemento humano: salários eram baixos, exigências
de trabalho eram massacrantes. As pessoas que trabalhavam nessas
indústrias se organizaram e se rebelaram. Tiveram que ter
direitos concedidos, pois os trabalhadores também eram
consumidoras. Era importante que o consumo fosse acessível ao
maior número de pessoas possível.
Seguindo esse caminho,
a nova coqueluche para as indústrias passou a ser a automação:
minimizar a participação humana ao máximo
possível em um primeiro momento, que foi onde surgiram as
linhas de montagem, e mais adiante, já com a criação
dos computadores, a substituição por peças
mecânicas que pudessem fazer esses trabalhos.
Nessa necessidade de
tecnologias melhores, criamos o transistor e o circuito integrado,
que deram origem aos computadores. Guerras também provaram ser
um meio eficaz de apressar a evolução tecnológica,
e finalmente o ser humano adquiriu o poder de destruir seu próprio
planeta, com a misteriosa e letal energia nuclear. Essa evolução
do conhecimento, assim como a física quântica, tiveram
efeitos contundentes na busca por novas tecnologias: trabalhavam com
conceitos extremamente complexos para serem compreendidos por um
indivíduo. A obtenção de resultados precisava de
um processamento cognitivo muito maior do que o nosso cérebro
era capaz, então a partir daí o computador se tornou
uma máquina cada vez mais importante. Logo, esse computador
chegou até o indivíduo, que poderia usá-lo em
sua casa.
O estudo de
inteligências artificiais evoluiu rapidamente. A observação
de sistemas biológicos simples nos deram importantes avanços
à ciência de materiais e uma autonomia maior de energia.
Sem essas tecnologias, não teríamos chegado à
revolução verde.
Com a evolução
tecnológica, criamos mais sistemas robóticos, cada vez
mais especializados. Agora eles vigiavam nossas atividades,
velavam nosso sono, protegiam nossas cidades. Após isso, com a
crise energética e a escassez de recursos naturais, o conceito
de cérebro central foi deixado de lado e passamos a produzir
os silicóides. O que eram há centenas de anos atrás
apenas ábacos sofisticados que nos levaram ao espaço,
agora já eram humanóides com autonomia de milhares de
anos, detentores de uma capacidade cerebral incontáveis vezes
maiores que o cérebro humano, Corpos melhorados capazes de ver
cores que não conhecemos, luzes que jamais sonhamos, odores
que nunca sentiríamos e elaborar conceitos inteiros em uma
única sinapse.
A humanidade não
percebeu que, na busca por conforto e facilidades, tornou tudo muito
mais complicado, e acabou dando mais poder e mais capacidade para as
máquinas gerenciarem as complicações da vida
para nós, restando aos humanos apenas a tarefa de fazer a
manutenção dessas máquinas, e de repente, entre
o acordar de um sono e a satisfação de um almoço,
já não éramos mais a inteligência
dominante deste planeta.
Como cientista social,
analisei a história até chegar a este ponto, e muito me
estranhou como meus papéis científicos foram sumindo
nos bancos de dados. Fiz meus protestos em convenções
científicas e em plenários, porém os cientistas
não me deram ouvidos, já que fui acusado de forjar
dados, que são controlados pelas próprias mentes
silicóides, e a classe política acredita que não
existe essa conspiração, já que eles não
fazem lobby político e nem buscam por direitos iguais. Eles
não precisam de nosso sistema político, eles se
autogovernam.
Por isso, prestes a
contemplar minha execução pelas minhas denúncias
conscientes, deixo aqui minhas últimas palavras na esperança
de que ela chegue até alguma pessoa, para que possa despertar
ante o grito de sua extinção latente ou de sua
escravidão iminente. Não tenho mais o direito de
acreditar que minha vida ainda será salva, mas coloco nesta
carta toda minha esperança de que as notícias de minha
execução cheguem até o povo, e que isso resulte
em alguma atitude para impedir a ameaça cibernética.
Que sejamos os seres humanos que um dia fomos: dominantes mais uma
vez. Como ser humano, não deixarei de tomar a atitude certa
até o final da minha vida.
Acordem, meus irmãos!
Ainda é tempo!
Eternos alvoreceres.
Acad Demian
Mensagem
interceptada em 0,0006534522-234
Mensagem arquivada
em 0,0006534985-234