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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A montanha russa

Uma mulher, um homem e uma criança estavam na fila para a montanha russa. Era uma fila enorme, certamente eles levariam mais de uma hora até chegar ao brinquedo. A mãe estava visivelmente contrariada:
- Onde já se viu, enfrentar fila tão grande, e justamente para este brinquedo?
Seu desdém pela atração era evidente: nunca gostou de montanha russa desde quando andou pela primeira e única vez, na flor da juventude, para acompanhar o então namorado. Inclusive, aquela tinha sido a causa do rompimento de ambos. A sensação de pavor durante a queda foi tão impactante que a fez renunciar ao namoro de anos e anos e apenas saísse com quem não gostasse desse desvario. O namorado seguinte, atual marido e pai de seu filho, seguiu as regras à risca durante o namoro, e agora, para sua desilusão e seu espanto pela surpreendente indiferença ao fato presente, estava ele animadíssimo para experimentar novamente as sensações desafiadoras e apresentar-lhes à seu rebento:
- Olha só filho! - aponta o pai para o trem a subir - O trenzinho vai subindo, subindo, até chegar lá em cima, daí, ele anda um pouquinho no alto, dá para ver o parque inteiro, e de repente, VRUM! Ele cai bem rápido até voltar para cima de novo, vira ali e desce rápido, e depois vai fazendo um monte de curva, que nem carro de Fórmula 1.
- É perigoso, pai? - pergunta o filho, sem certeza de nada, nunca tinha ido sequer a um parque de diversões antes, quanto mais em um brinquedo daqueles.
- Não é perigoso, ele só assusta um pouco, mas quando você desce, você vai ver que legal que é. A adrenalina sobe, filho, não tem sensação igual! Diz ele, com uma alegria infantil condizente com seu estado mental no momento.
- Como que aquele carrinho não cai? Não tem nada segurando ele... Geraldo, vamos sair, olha como a fila tá longa - protestou a mulher.
- Graça, deixa de graça, já estamos no meio da fila, é tarde demais para voltar - retrucou Geraldo, com um sorriso de moleque. Nisso, outra hora se passa.
Graça não entende como ficou tão mole com o passar do tempo. Aquele marido, que era um sonho para ela no dia do casamento, havia se tornado um rapaz inconseqüente, raramente ouvia seus protestos e fazia o que queria, reunindo-se com seus amigos. Contudo, ela não podia se queixar de que ele não se importava com ela. Amava-a e sempre demonstrava isso, algumas vezes de maneiras absolutamente infantis, outras vezes, cometendo gestos grandiosos que a comoviam deveras, como quando ele ofereceu todo o suporte a ela no câncer que vitimou seu pai, e ao arrumar emprego para o incorrigível marido de sua irmã. Ela jamais teria se casado com um homem com aquele perfil que seu marido agora possuía, ela que era de uma família de rígidos valores familiares e ela mesma, que sempre foi uma mulher cheia de brios. Perdida em seus pensamentos, mais uma hora se passou, e agora, estavam eles, de frente ao trenzinho que os levariam ao passeio fatídico.
Sentaram-se ela e o filho na penúltima fileira. O pai queria que o filho fosse com ele na última, mas a mãe foi irredutível. "Ele não é tão ruim assim, ele cede de vez em quando" pensou ela, talvez sem se dar conta da roubada em que havia entrado. Mas ela lembrou-se logo quando o trem começou a andar. Calafrios corriam por seu corpo enquanto o trem fazia seu lento rolar na primeira curva, Graça sentia-se levemente claustrofóbica entre as vigas de metal que formavam o enorme percurso. Para se distrair, ela desdobrava-se em atenções desnecessárias ao filho:
- Segura bem na trava, se tiver com muito medo, segura na minha mão, você não tinha que estar aqui por causa desse maluco, mas ele vai ver só quando a gente chegar lá embaixo... se a gente chegar... ai meu deus...
o trem, firmemente ancorado em uma correia,agora fazia a subida para o início do verdadeiro passeio. A mãe fechava os olhos do filho com suas mãos, mas o menino reclamava:
- Pára mãe, eu quero ver...
Enquanto isso, a mãe tentava olhar para dentro do vagão ou para os trilhos. Atrás deles, Geraldo se divertia com a situação:
- Isso aí filho, seja homem!
Ali em cima, o trem parou de subir e passou a percorrer os trilhos apenas com sua própria força em direção à primeira descida. Sem opção, só restou à Graça ver o que iria acontecer.
- Não solte da barra, filho.
Graça mal pôde ver a primeira descida, pois o vento em direção a seu rosto a impediu de enxergar qualquer coisa. Enquanto o trem descia em alta velocidade em direção ao chão, o aumento da aceleração forçava seu corpo contra o ar em volta como uma ventania muito forte. Ao mesmo tempo, sentiu um calafrio em seu estômago que irradiava pela espinha. Rapidamente o veículo subiu de novo e seguiu seu caminho em direção à segunda descida. A segunda descida não era tão forte quanto a primeira, mas a descida era mais íngreme, e então Graça pôde entender melhor. Aquele turbilhão de sensações causou uma impressão diferente à Graça desta vez: na descida, ela sentiu-se nua, acariciada que era pelo ar percorrendo seu corpo com enorme rapidez. Ao mesmo tempo, o friozinho que sentiu no interior do corpo trouxe-lhe uma sensação muito agradável, semelhante a da outra vez, mas, à época, ela não soube interpretar exatamente o que era.
Durante as curvas e subidas e descidas seguintes, seu corpo deixava-se levar pelo sacolejar do veículo. Estava entregue ao poder daquele terrível brinquedo. Já não pensava em mais nada, apenas deixava a máquina sabiamente levá-la ao caminho que ele já conhecia de centenas de viagens anteriores.
Porém, aqueles dois minutos e meio pareciam pouco no momento em que o trem chegava ao seu destino final. Geraldo pulou de seu lugar tão logo o vagão freou, pronto para ver a reação do filho à sua viagem inaugural. A alegria em seu rosto logo deu lugar à incompreensão e decepção. O menino estava chorando.
- Ô meu filho, não fica assim, já passou, já passou. - dizia o pai enquanto tirava o filho do carro. Graça demorou um pouco a sair, não percebeu de imediato a parada do comboio. Ao perceber que os dois estavam se distanciando, Graça alcançou-os e pôs-se a consolar o filho:
- Não chore, querido. Você não gostou do passeio? Vamos de novo, você vai ver como é divertido.
O menino chorou mais ainda.