Uma mulher, um homem e
uma criança estavam na fila para a montanha russa. Era uma
fila enorme, certamente eles levariam mais de uma hora até
chegar ao brinquedo. A mãe estava visivelmente contrariada:
- Onde já se
viu, enfrentar fila tão grande, e justamente para este
brinquedo?
Seu desdém pela
atração era evidente: nunca gostou de montanha russa
desde quando andou pela primeira e única vez, na flor da
juventude, para acompanhar o então namorado. Inclusive, aquela
tinha sido a causa do rompimento de ambos. A sensação
de pavor durante a queda foi tão impactante que a fez
renunciar ao namoro de anos e anos e apenas saísse com quem
não gostasse desse desvario. O namorado seguinte, atual marido
e pai de seu filho, seguiu as regras à risca durante o namoro,
e agora, para sua desilusão e seu espanto pela surpreendente
indiferença ao fato presente, estava ele animadíssimo
para experimentar novamente as sensações desafiadoras e
apresentar-lhes à seu rebento:
- Olha só filho!
- aponta o pai para o trem a subir - O trenzinho vai subindo,
subindo, até chegar lá em cima, daí, ele anda um
pouquinho no alto, dá para ver o parque inteiro, e de repente,
VRUM! Ele cai bem rápido até voltar para cima de novo,
vira ali e desce rápido, e depois vai fazendo um monte de
curva, que nem carro de Fórmula 1.
- É perigoso,
pai? - pergunta o filho, sem certeza de nada, nunca tinha ido sequer
a um parque de diversões antes, quanto mais em um brinquedo
daqueles.
- Não é
perigoso, ele só assusta um pouco, mas quando você
desce, você vai ver que legal que é. A adrenalina sobe,
filho, não tem sensação igual! Diz ele, com uma
alegria infantil condizente com seu estado mental no momento.
- Como que aquele
carrinho não cai? Não tem nada segurando ele...
Geraldo, vamos sair, olha como a fila tá longa - protestou a
mulher.
- Graça, deixa
de graça, já estamos no meio da fila, é tarde
demais para voltar - retrucou Geraldo, com um sorriso de moleque.
Nisso, outra hora se passa.
Graça não
entende como ficou tão mole com o passar do tempo. Aquele
marido, que era um sonho para ela no dia do casamento, havia se
tornado um rapaz inconseqüente, raramente ouvia seus protestos e
fazia o que queria, reunindo-se com seus amigos. Contudo, ela não
podia se queixar de que ele não se importava com ela. Amava-a
e sempre demonstrava isso, algumas vezes de maneiras absolutamente
infantis, outras vezes, cometendo gestos grandiosos que a comoviam
deveras, como quando ele ofereceu todo o suporte a ela no câncer
que vitimou seu pai, e ao arrumar emprego para o incorrigível
marido de sua irmã. Ela jamais teria se casado com um homem
com aquele perfil que seu marido agora possuía, ela que era de
uma família de rígidos valores familiares e ela mesma,
que sempre foi uma mulher cheia de brios. Perdida em seus
pensamentos, mais uma hora se passou, e agora, estavam eles, de
frente ao trenzinho que os levariam ao passeio fatídico.
Sentaram-se ela e o
filho na penúltima fileira. O pai queria que o filho fosse com
ele na última, mas a mãe foi irredutível. "Ele
não é tão ruim assim, ele cede de vez em quando"
pensou ela, talvez sem se dar conta da roubada em que havia entrado.
Mas ela lembrou-se logo quando o trem começou a andar.
Calafrios corriam por seu corpo enquanto o trem fazia seu lento rolar
na primeira curva, Graça sentia-se levemente claustrofóbica
entre as vigas de metal que formavam o enorme percurso. Para se
distrair, ela desdobrava-se em atenções desnecessárias
ao filho:
- Segura bem na trava,
se tiver com muito medo, segura na minha mão, você não
tinha que estar aqui por causa desse maluco, mas ele vai ver só
quando a gente chegar lá embaixo... se a gente chegar... ai
meu deus...
o trem, firmemente
ancorado em uma correia,agora fazia a subida para o início do
verdadeiro passeio. A mãe fechava os olhos do filho com suas
mãos, mas o menino reclamava:
- Pára mãe,
eu quero ver...
Enquanto isso, a mãe
tentava olhar para dentro do vagão ou para os trilhos. Atrás
deles, Geraldo se divertia com a situação:
- Isso aí filho,
seja homem!
Ali em cima, o trem
parou de subir e passou a percorrer os trilhos apenas com sua própria
força em direção à primeira descida. Sem
opção, só restou à Graça ver o que
iria acontecer.
- Não solte da
barra, filho.
Graça mal pôde
ver a primeira descida, pois o vento em direção a seu
rosto a impediu de enxergar qualquer coisa. Enquanto o trem descia em
alta velocidade em direção ao chão, o aumento da
aceleração forçava seu corpo contra o ar em
volta como uma ventania muito forte. Ao mesmo tempo, sentiu um
calafrio em seu estômago que irradiava pela espinha.
Rapidamente o veículo subiu de novo e seguiu seu caminho em
direção à segunda descida. A segunda descida não
era tão forte quanto a primeira, mas a descida era mais
íngreme, e então Graça pôde entender
melhor. Aquele turbilhão de sensações causou uma
impressão diferente à Graça desta vez: na
descida, ela sentiu-se nua, acariciada que era pelo ar percorrendo
seu corpo com enorme rapidez. Ao mesmo tempo, o friozinho que sentiu
no interior do corpo trouxe-lhe uma sensação muito
agradável, semelhante a da outra vez, mas, à época,
ela não soube interpretar exatamente o que era.
Durante as curvas e
subidas e descidas seguintes, seu corpo deixava-se levar pelo
sacolejar do veículo. Estava entregue ao poder daquele
terrível brinquedo. Já não pensava em mais nada,
apenas deixava a máquina sabiamente levá-la ao caminho
que ele já conhecia de centenas de viagens anteriores.
Porém, aqueles
dois minutos e meio pareciam pouco no momento em que o trem chegava
ao seu destino final. Geraldo pulou de seu lugar tão logo o
vagão freou, pronto para ver a reação do filho à
sua viagem inaugural. A alegria em seu rosto logo deu lugar à
incompreensão e decepção. O menino estava
chorando.
- Ô meu filho,
não fica assim, já passou, já passou. - dizia o
pai enquanto tirava o filho do carro. Graça demorou um pouco a
sair, não percebeu de imediato a parada do comboio. Ao
perceber que os dois estavam se distanciando, Graça
alcançou-os e pôs-se a consolar o filho:
- Não chore,
querido. Você não gostou do passeio? Vamos de novo, você
vai ver como é divertido.
O menino chorou mais
ainda.