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domingo, 13 de janeiro de 2013

O menino do balanço

Um vento fresco e um leve sabor de nostalgia atingiram Saulo quando ele chegou àquela praça. Praça de tanta diversão. Viu ali os brinquedos de madeira, há muito tempo não via brinquedos de madeira em praças, muito menos praças com brinquedos. Eles haviam dado lugar a brinquedos de plástico em playgrounds montados em clubes, condomínios fechados e escolas com o passar do tempo, mas ali evidentemente não estava no mesmo tempo. Saulo olhava os brinquedos com atenção, o escorregador, a ponte, a escada, a gangorra... e aí viu, um pouco adiante, um menino brincando no balanço.Ia para frente e para trás. Nisso Saulo se aproximou com um sincero sorriso, um daqueles que viraram sinônimo de temor com o passar do tempo, mas aquele parque evidentemente não estava no mesmo tempo. O garoto parou lentamente de se balançar e cumprimentou Saulo:
- Oi!
- Oi... você está brincando aqui muito tempo?
- Não, minha mãe falou que eu podia brincar um pouco, porque eu fiz a lição.
- É mesmo? Que lição?
- De matemática. Tinha que fazer a tabuada do três e do quatro, e tinha três problemas para achar a resposta.
- E foi muito difícil?
- Não foi, com a tabuada para ver fica mais fácil. Eu tenho uma régua que tem toda a tabuada até o nove, só que eu não posso levar na escola, a professora não deixa usar...
- Ela é chata com você?
- Não, ela é legal, acho. Eu não gosto quando ela passa muita lição de casa. Outro dia ela escreveu vinte problemas na lousa para a gente copiar no caderno e fazer em casa.
- É mesmo? E você conseguiu fazer?
- Fiquei a noite inteira fazendo! Quando acabou minha mãe deixou eu brincar um pouquinho com os brinquedos antes de dormir. Minha irmã foi dormir antes que eu!
- Demorou bastante, hein? Você gosta da sua irmãzinha?
- Ah, ela é chata, fica perto de mim o tempo todo. Eu gosto dela, é minha irmã, mas eu quero ficar com os meus amigos de vez em quando, né? Ela é muito nova, e é menina, ela tem que brincar com menina da idade dela.
- E os amigos, você gosta deles?
- Eles são bem legais. Tem o Márcio, é o meu melhor amigo, ele é mais alto que eu mas a gente brinca direto, às vezes eu vou na casa dele brincar, ele tem uns brinquedos bem legais, e ele vai na minha casa. Uma vez a gente foi, eu, minha família, ele e a família dele na praia, e foi muito bacana!
- E os outros amigos?
- Eles são legais também. Tem o Ivan, o zóio, porque ele usa óculos, ele disse que tem que usar porque não enxerga direito. ele olha na lousa e a letra é bem pequenininha. Tem o Du, tem o Cabeça, tem o Rafael, mas eles são só da escola, eles não moram perto de casa.
- Mas só amigo homem, não tem amiguinha?
- Não, as meninas são todas chatas. Ficam falando de namorar, de brincar de casinha. Tem dia que elas vêm brincar normal com a gente e daí é divertido. Tem a irmã do Márcio também, mas ela é mais velha, aí ela só brinca com a gente quando os amigos dela não estão, ela tem vergonha.
- Sei... e o que você acha dos seus pais?
- Ah, o papai trabalha fora, aí a gente só vê ele de noite, e ele tá cansado. Ele é meio bravo, mas é bem engraçado. A mamãe fica com a gente de dia, ela é bem divertida, mas quando ela fica brava, até o papai fica assustado.
- Hahahahaha... viu, o seu pai quando volta do trabalho, ele fica muito chato?
- Ele não fala muito, fica mais cansado mesmo. A gente conta o que a gente fez no dia para ele mas ele não presta muita atenção, aí agora a gente conta no fim de semana, que ele tá mais contente. Quando tem fim de semana ele compra sorvete, aí eu gosto de sorvete de brigadeiro, que tem o chocolate e aqueles palitinhos em cima, e o papai compra pra gente um potão bem grande.
- E... o papai fala do trabalho?
- Ele só fala com a mamãe, fica falando de papel, de entregar no horário, não sei...
- Você acha que ele gosta do trabalho?
- Acho que ele gosta, senão ele não ia trabalhar, né?
- Não sei... e você gosta de fazer lição?
- Ah, eu não gosto quando tem que fazer lição de casa, estudar para a prova. Eu gosto de fazer na escola.
- Mas você gostaria de não ter que fazer lição?
- A gente tem que fazer, né?
- Mas, vamos imaginar que você pudesse trocar a lição de casa, a escola, por ficar mais tempo com seus amigos. Você ia gostar?
- Ah, eu ia, mas eu já vejo eles bastante.
- E você não queria brincar com eles mais vezes, se pudesse?
- Daí eu não vejo mais meus amigos da escola. E não é ruim, é só cansativo, mas depois a escola acaba, aí eu vou para casa, de fim de semana vou na casa da vovó, tomo sorvete... papai fala que tomar sorvete demais enjoa, e eu gosto de sorvete, não quero ficar enjoado de sorvete.
- Você falou que ficava cansado de fazer lição que você falou antes.
- Mas fazendo lição a gente aprende. Outro dia ensinaram para gente que tubarão é peixe e baleia e golfinho não é. E eu vou decorar a tabuada inteira, e não vou precisar usar a régua.
- Mas isso é chato, e a gente aprende para que depois?
- Tem coisa que eu não gosto de aprender, mas eu vou precisar para trabalhar quando eu crescer.
- E o que você quer ser quando crescer?
- Eu não sei ainda... vou procurar uma coisa que eu gosto bastante para fazer.
- Mas e se você não achar?
- Eu vou achar. Se não achar, vou continuar procurando.
- Mas menino, você pode não achar e acabar ficando nesse emprego para sempre.
- Ah... então tá bom!
- Como assim tá bom? Você vai ficar chateado, e fazer coisas que não quer fazer.
- Mas eu faço tudo o que eu quero! Eu brinco, tenho meus amigos, tenho minha irmã, o papai, a mamãe, o vovô e a vovó. Eu faço e aí eu me divirto. Não pode fazer isso?
Saulo olhou para o céu e ficou murmurando para si mesmo:
- Tantos anos, e a resposta, tão simples... o que eu fiz em todo esse tempo...
E aí o menino desce do balanço e fala com Saulo:
- Eu tenho que ir para casa, tchau tio!
Saulo acena para o menino:
- Tchau Saulo...
E lentamente Saulo acorda de volta ao divã do terapeuta. Desta vez, com lágrimas rolando em seu rosto.
- A resposta estava comigo o tempo todo...
Saulo acordou da regressão, mas Saulo já não estava mais em seu tempo.