Um vento fresco e um
leve sabor de nostalgia atingiram Saulo quando ele chegou àquela
praça. Praça de tanta diversão. Viu ali os
brinquedos de madeira, há muito tempo não via
brinquedos de madeira em praças, muito menos praças com
brinquedos. Eles haviam dado lugar a brinquedos de plástico em
playgrounds montados em clubes, condomínios fechados e escolas
com o passar do tempo, mas ali evidentemente não estava no
mesmo tempo. Saulo olhava os brinquedos com atenção, o
escorregador, a ponte, a escada, a gangorra... e aí viu, um
pouco adiante, um menino brincando no balanço.Ia para frente e
para trás. Nisso Saulo se aproximou com um sincero sorriso, um
daqueles que viraram sinônimo de temor com o passar do tempo,
mas aquele parque evidentemente não estava no mesmo tempo. O
garoto parou lentamente de se balançar e cumprimentou Saulo:
- Oi!
- Oi... você
está brincando aqui muito tempo?
- Não, minha mãe
falou que eu podia brincar um pouco, porque eu fiz a lição.
- É mesmo? Que
lição?
- De matemática.
Tinha que fazer a tabuada do três e do quatro, e tinha três
problemas para achar a resposta.
- E foi muito difícil?
- Não foi, com a
tabuada para ver fica mais fácil. Eu tenho uma régua
que tem toda a tabuada até o nove, só que eu não
posso levar na escola, a professora não deixa usar...
- Ela é chata
com você?
- Não, ela é
legal, acho. Eu não gosto quando ela passa muita lição
de casa. Outro dia ela escreveu vinte problemas na lousa para a gente
copiar no caderno e fazer em casa.
- É mesmo? E
você conseguiu fazer?
- Fiquei a noite
inteira fazendo! Quando acabou minha mãe deixou eu brincar um
pouquinho com os brinquedos antes de dormir. Minha irmã foi
dormir antes que eu!
- Demorou bastante,
hein? Você gosta da sua irmãzinha?
- Ah, ela é
chata, fica perto de mim o tempo todo. Eu gosto dela, é minha
irmã, mas eu quero ficar com os meus amigos de vez em quando,
né? Ela é muito nova, e é menina, ela tem que
brincar com menina da idade dela.
- E os amigos, você
gosta deles?
- Eles são bem
legais. Tem o Márcio, é o meu melhor amigo, ele é
mais alto que eu mas a gente brinca direto, às vezes eu vou na
casa dele brincar, ele tem uns brinquedos bem legais, e ele vai na
minha casa. Uma vez a gente foi, eu, minha família, ele e a
família dele na praia, e foi muito bacana!
- E os outros amigos?
- Eles são
legais também. Tem o Ivan, o zóio, porque ele usa
óculos, ele disse que tem que usar porque não enxerga
direito. ele olha na lousa e a letra é bem pequenininha. Tem o
Du, tem o Cabeça, tem o Rafael, mas eles são só
da escola, eles não moram perto de casa.
- Mas só amigo
homem, não tem amiguinha?
- Não, as
meninas são todas chatas. Ficam falando de namorar, de brincar
de casinha. Tem dia que elas vêm brincar normal com a gente e
daí é divertido. Tem a irmã do Márcio
também, mas ela é mais velha, aí ela só
brinca com a gente quando os amigos dela não estão, ela
tem vergonha.
- Sei... e o que você
acha dos seus pais?
- Ah, o papai trabalha
fora, aí a gente só vê ele de noite, e ele tá
cansado. Ele é meio bravo, mas é bem engraçado.
A mamãe fica com a gente de dia, ela é bem divertida,
mas quando ela fica brava, até o papai fica assustado.
- Hahahahaha... viu, o
seu pai quando volta do trabalho, ele fica muito chato?
- Ele não fala
muito, fica mais cansado mesmo. A gente conta o que a gente fez no
dia para ele mas ele não presta muita atenção,
aí agora a gente conta no fim de semana, que ele tá
mais contente. Quando tem fim de semana ele compra sorvete, aí
eu gosto de sorvete de brigadeiro, que tem o chocolate e aqueles
palitinhos em cima, e o papai compra pra gente um potão bem
grande.
- E... o papai fala do
trabalho?
- Ele só fala
com a mamãe, fica falando de papel, de entregar no horário,
não sei...
- Você acha que
ele gosta do trabalho?
- Acho que ele gosta,
senão ele não ia trabalhar, né?
- Não sei... e
você gosta de fazer lição?
- Ah, eu não
gosto quando tem que fazer lição de casa, estudar para
a prova. Eu gosto de fazer na escola.
- Mas você
gostaria de não ter que fazer lição?
- A gente tem que
fazer, né?
- Mas, vamos imaginar
que você pudesse trocar a lição de casa, a
escola, por ficar mais tempo com seus amigos. Você ia gostar?
- Ah, eu ia, mas eu já
vejo eles bastante.
- E você não
queria brincar com eles mais vezes, se pudesse?
- Daí eu não
vejo mais meus amigos da escola. E não é ruim, é
só cansativo, mas depois a escola acaba, aí eu vou para
casa, de fim de semana vou na casa da vovó, tomo sorvete...
papai fala que tomar sorvete demais enjoa, e eu gosto de sorvete, não
quero ficar enjoado de sorvete.
- Você falou que
ficava cansado de fazer lição que você falou
antes.
- Mas fazendo lição
a gente aprende. Outro dia ensinaram para gente que tubarão é
peixe e baleia e golfinho não é. E eu vou decorar a
tabuada inteira, e não vou precisar usar a régua.
- Mas isso é
chato, e a gente aprende para que depois?
- Tem coisa que eu não
gosto de aprender, mas eu vou precisar para trabalhar quando eu
crescer.
- E o que você
quer ser quando crescer?
- Eu não sei
ainda... vou procurar uma coisa que eu gosto bastante para fazer.
- Mas e se você
não achar?
- Eu vou achar. Se não
achar, vou continuar procurando.
- Mas menino, você
pode não achar e acabar ficando nesse emprego para sempre.
- Ah... então tá
bom!
- Como assim tá
bom? Você vai ficar chateado, e fazer coisas que não
quer fazer.
- Mas eu faço
tudo o que eu quero! Eu brinco, tenho meus amigos, tenho minha irmã,
o papai, a mamãe, o vovô e a vovó. Eu faço
e aí eu me divirto. Não pode fazer isso?
Saulo olhou para o céu
e ficou murmurando para si mesmo:
- Tantos anos, e a
resposta, tão simples... o que eu fiz em todo esse tempo...
E aí o menino
desce do balanço e fala com Saulo:
- Eu tenho que ir para
casa, tchau tio!
Saulo acena para o
menino:
- Tchau Saulo...
E lentamente Saulo
acorda de volta ao divã do terapeuta. Desta vez, com lágrimas
rolando em seu rosto.
- A resposta estava
comigo o tempo todo...
Saulo acordou da regressão, mas Saulo já não estava mais em seu tempo.