Noite
de terça-feira. Em um bar muito parecido com um pub inglês,
o movimento era fraco. O local era um ponto de encontro de
estudantes, mas o movimento só ficava forte a partir da
quinta-feira. Cidade universitária tem dessas coisas, e os
donos de bar já esperam por algo assim.
Sentado
em uma mesa, sozinho, um homem corpulento, de meia idade, fumava seu
charuto, e bebericava uísque cowboy, aquele sem gelo, entre as
tragadas. Aparentemente não estava afim de muita conversa, mas
também não estava chamando particular atenção
das outras pessoas.
Logo
entrou no bar uma mulher por volta de trinta anos, bem vestida. Ao
entrar, correu os olhos pelas mesas, e ao observar o sujeito sentado
sozinho, dirigiu-se até ele e o cumprimentou:
-
Olá, há quanto tempo.
-
Senta aí. - respondeu rispidamente o cavalheiro. Sem perder o
sorriso suspeito do rosto, a figura feminina sentou-se.
-
Como vai o senhor? Alguma novidade no serviço? - Perguntou a
distinta senhora. Ela esperava por uma resposta, porém não
a que ouviu:
-
Vai mal. Acabei de voltar de um velório.
A
mulher se assustou.
-
Olha, eu não tenho nada a ver com isso, nós fizemos o
que o senhor falou...
-
Não foi isso não: foi um rapaz da contabilidade;
Tentaram assaltá-lo no trânsito, ele tomou um tiro e
morreu. - continuou o homem. - Você fez o que tinha que fazer.
A
mulher ficou sem reação. O homem continuou:
- E
então, estava a contento?
-
Claro que sim, exatamente como o senhor falou. Não era muita
coisa, mas...
-
Era o suficiente. - interrompeu o homem. - E aí, estamos
acertados?
-
Acho que sim. Bem, foi bom fazer negócios com você, até
a próxima vez então...
-
Não haverá próxima vez. - O homem segurou a mão
da mulher na mesa. A moça fez uma cara de assustada, olhou
para o balcão.
Uma
outra mão segurou no braço do homem:
-
Deixa ela ir, acertar negócios é comigo. - falou o
homem que acabou de chegar. O homem sentado imediatamente o
reconheceu:
-
Doutor Alfredo!
O
homem largou o braço da mulher, que saiu andando rapidamente
pela porta. Doutor Alfredo acomodou-se na mesma cadeira em que a
mulher anteriormente estava e começou:
-
Devo dizer que o que você fez me surpreendeu bastante. Já
lidei com muitos bandidos, muitas pessoas sem escrúpulos,
pessoas capazes de vender o próprio filho por ninharia, mas
desse tipo de gente nós sabemos o que esperar. Nunca esperei
que você fizesse isso que fez. Isso pode te dar problemas no
futuro.
-
Dos meus problemas cuido eu. - respondeu o homem, charuto na mão.
Apesar da expressão calma, o charuto se consumia sozinho por
entre seus dedos.
-
Ora, que tratamento é esse? O que aconteceu contigo? E a nossa
amizade de tantos anos?
-
Nossa amizade está quitada, a última parcela já
foi paga!
Doutor
Alfredo sorriu, o mesmo sorriso que a mulher o havia presenteado, e
falou:
-
Ah, mas amizades são mais fortes que dinheiro. Amizade também
tem a ver com cumplicidade, companheirismo, compromissos...
Nisso
o homem se exaltou:
-
Acabou! Eu sempre cumpri com a minha palavra durante todos esses
anos, paguei tudo o que lhe devia! Mas agora eu não sou mais a
mesma pessoa: se isso continuar, acredite: não vai sobrar bar,
não vai sobrar cassino, não vai sobrar boca para te
salvar. Eu sempre cumpri com minha palavra, e você sabe disso!
Doutor
Alfredo olhou para o chão, fungou fortemente e falou, com
desinteresse:
-
Bom, é justo, você pode ficar tranquilo, ninguém
vai te incomodar.
- O
quanto eu posso acreditar nisso?
- Eu
sempre cumpri a minha palavra, e o senhor sabe disso. - respondeu
Doutor Alfredo.
O
homem levantou-se da cadeira, arrumou o paletó e dirigiu-se à
saída. Deu dois passos, voltou-se para o Doutor Alfredo, e
perguntou:
-
Você garante que não vai mais perseguir a minha filha?
Doutor
Alfredo, sentado em sua cadeira, apoiou seus braços no encosto
e, olhando para o homem, disse:
-
Você tem a minha garantia, mas isso depende de você: da
última vez, foi ela que veio me procurar, Ary.