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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O acordo

Noite de terça-feira. Em um bar muito parecido com um pub inglês, o movimento era fraco. O local era um ponto de encontro de estudantes, mas o movimento só ficava forte a partir da quinta-feira. Cidade universitária tem dessas coisas, e os donos de bar já esperam por algo assim.
Sentado em uma mesa, sozinho, um homem corpulento, de meia idade, fumava seu charuto, e bebericava uísque cowboy, aquele sem gelo, entre as tragadas. Aparentemente não estava afim de muita conversa, mas também não estava chamando particular atenção das outras pessoas.
Logo entrou no bar uma mulher por volta de trinta anos, bem vestida. Ao entrar, correu os olhos pelas mesas, e ao observar o sujeito sentado sozinho, dirigiu-se até ele e o cumprimentou:
- Olá, há quanto tempo.
- Senta aí. - respondeu rispidamente o cavalheiro. Sem perder o sorriso suspeito do rosto, a figura feminina sentou-se.
- Como vai o senhor? Alguma novidade no serviço? - Perguntou a distinta senhora. Ela esperava por uma resposta, porém não a que ouviu:
- Vai mal. Acabei de voltar de um velório.
A mulher se assustou.
- Olha, eu não tenho nada a ver com isso, nós fizemos o que o senhor falou...
- Não foi isso não: foi um rapaz da contabilidade; Tentaram assaltá-lo no trânsito, ele tomou um tiro e morreu. - continuou o homem. - Você fez o que tinha que fazer.
A mulher ficou sem reação. O homem continuou:
- E então, estava a contento?
- Claro que sim, exatamente como o senhor falou. Não era muita coisa, mas...
- Era o suficiente. - interrompeu o homem. - E aí, estamos acertados?
- Acho que sim. Bem, foi bom fazer negócios com você, até a próxima vez então...
- Não haverá próxima vez. - O homem segurou a mão da mulher na mesa. A moça fez uma cara de assustada, olhou para o balcão.
Uma outra mão segurou no braço do homem:
- Deixa ela ir, acertar negócios é comigo. - falou o homem que acabou de chegar. O homem sentado imediatamente o reconheceu:
- Doutor Alfredo!
O homem largou o braço da mulher, que saiu andando rapidamente pela porta. Doutor Alfredo acomodou-se na mesma cadeira em que a mulher anteriormente estava e começou:
- Devo dizer que o que você fez me surpreendeu bastante. Já lidei com muitos bandidos, muitas pessoas sem escrúpulos, pessoas capazes de vender o próprio filho por ninharia, mas desse tipo de gente nós sabemos o que esperar. Nunca esperei que você fizesse isso que fez. Isso pode te dar problemas no futuro.
- Dos meus problemas cuido eu. - respondeu o homem, charuto na mão. Apesar da expressão calma, o charuto se consumia sozinho por entre seus dedos.
- Ora, que tratamento é esse? O que aconteceu contigo? E a nossa amizade de tantos anos?
- Nossa amizade está quitada, a última parcela já foi paga!
Doutor Alfredo sorriu, o mesmo sorriso que a mulher o havia presenteado, e falou:
- Ah, mas amizades são mais fortes que dinheiro. Amizade também tem a ver com cumplicidade, companheirismo, compromissos...
Nisso o homem se exaltou:
- Acabou! Eu sempre cumpri com a minha palavra durante todos esses anos, paguei tudo o que lhe devia! Mas agora eu não sou mais a mesma pessoa: se isso continuar, acredite: não vai sobrar bar, não vai sobrar cassino, não vai sobrar boca para te salvar. Eu sempre cumpri com minha palavra, e você sabe disso!
Doutor Alfredo olhou para o chão, fungou fortemente e falou, com desinteresse:
- Bom, é justo, você pode ficar tranquilo, ninguém vai te incomodar.
- O quanto eu posso acreditar nisso?
- Eu sempre cumpri a minha palavra, e o senhor sabe disso. - respondeu Doutor Alfredo.
O homem levantou-se da cadeira, arrumou o paletó e dirigiu-se à saída. Deu dois passos, voltou-se para o Doutor Alfredo, e perguntou:
- Você garante que não vai mais perseguir a minha filha?
Doutor Alfredo, sentado em sua cadeira, apoiou seus braços no encosto e, olhando para o homem, disse:
- Você tem a minha garantia, mas isso depende de você: da última vez, foi ela que veio me procurar, Ary.