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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Sentindo o golpe

Não foi fácil para Felipe voltar à repartição. O chefe pediu para ele ficar uns três dias de molho em casa, para deixar a poeira assentar, mas de alguma forma Felipe percebia algo estranho no ar.
Apesar de ter ido ao escritório naquele dia, ele não iria trabalhar ainda. A ida foi um pedido do chefe para que pudessem conversar com mais calma sobre o ocorrido quatro dias antes. Ele não sabia realmente o que esperar, por isso estava preparado para tudo: uma reprimenda, uma compensação financeira, ou até mesmo a tão temida demissão. Ser demitido seria catastrófico para ele naquele momento: trabalhava como office-boy fazia poucos meses, já tinha mudado para o período noturno na escola para conciliar o emprego com o estudo.
Ao chegar, Felipe foi direto falar com Elisa, a secretária do chefe. Ela interfonou, desligou o telefone e pediu para que ele esperasse um pouco. Felipe sentou-se numa poltrona ali na salinha, tenso como sempre e aquele breve momento ali com Elisa carregava nele um certo constrangimento. Felipe já não tinha muita conversa com ela normalmente.
Naquele impasse, foi Elisa quem tratou de quebrar o gelo:
- Tá melhor hoje, Felipe?
Felipe olhou para Elisa com um misto de surpresa e abnegação: todos no escritório já deviam saber o que aconteceu.
- Estou melhor sim. - respondeu Felipe, sem olhar nem convencer.
Elisa então tentou um leve esboço de simpatia:
- Só tem aproveitador por aí, quando a gente precisa de dinheiro ninguém vem na nossa casa para oferecer, é só para tirar.
Felipe balançou a cabeça e ficou calado. Não havia muito o que se dizer também.
Enquanto esperava, Felipe viu Beto, o novo funcionário, um pouco mais velho do que ele, mas o rapaz passou direto pelo corredor sem nem olhar. Talvez pela proximidade de idade entre os dois, e por terem começado a trabalhar quase ao mesmo tempo, eles eram mais próximos. Felipe ficou um pouco desanimado, aquele seria um bom momento para receber algum tipo de apoio. A expectativa era muito grande, Felipe não podia nem queria perder aquele emprego.
Trabalhar como office-boy tinha sido a grande oportunidade dele nos últimos tempos, tanto que resolveu estudar a sério, recomeçar o colegial, para ter condições de passar nos exames e fazer faculdade. Ele nem havia pensado nessa possibilidade antes e não tinha opinião formada sobre que curso fazer, porém o tempo como office-boy despertou nele um gosto por Administração. Graças ao serviço Felipe acabou superando a dificuldade que sempre teve com matemática. Aqueles problemas que antes eram impossíveis de se resolver mudaram como mágica: agora apenas eram mais trabalhosos.
Após cinco longos minutos, o telefone tocou. Elisa atendeu, e logo falou para Felipe:
- Já pode entrar, o chefe está esperando.
Felipe andou até a sala do chefe, e ao abrir a porta tentou ensaiar alguma feição mais normal, mas seu rosto se contorcia involuntariamente devido ao peso de sua vergonha pelo que aconteceu na última quinta-feira. Felipe entrou, pediu licença, e o chefe ofereceu a cadeira para que ele se sentasse. Felipe sentou-se, cabeça baixa, as mãos cerradas e juntas entre suas pernas. Ele só esperava pela bronca.
- Como vai, Felipe? - indagou o chefe.
- Vou bem, senhor. - respondeu Felipe.
- A família vai bem? Como eles reagiram à notícia?
- Contei só no sábado pros meus pais. Eles ficaram chateados comigo, perguntaram como pude ser tão tonto, e eu não tinha o que falar: fui tonto mesmo, me desculpe, eu vou te pagar de volta o que eu perdi...
- Garoto, não vou cobrar pelo que aconteceu. Acontece, já é passado, e você precisa do seu salário também, a gente dá um jeito aqui de recuperar o que foi roubado. Só que eu não consigo entender como é que você pôde deixar uma mochila com estranhos no meio da rua. Mochila com três mil reais dentro, três mil reais que não são seus.
Felipe então passou a descrever o que aconteceu da mesma forma que contou aos policiais na delegacia: Tinha acabado de sacar um cheque para a empresa, quando viu uma mulher perder a carteira na rua. Ele pegou a carteira, avisou a mulher que ficou muito agradecida, o abraçou, e prometeu uma recompensa junto com outra mulher que também disse ter achado. A mulher deixou a carteira com eles, voltou depois de alguns minutos e falou que a recompensa estaria em outro lugar, e então ele foi porque conseguiria ir mais rápido até lá, e enquanto isso elas cuidavam da mochila. Ele foi até lá, ninguém conhecia a mulher, e quando ele voltou, não havia mais mulher, nem mochila, nem dinheiro, nem nada.
- Não sabia dessa parte de que você ficou esperando com outra mulher, mas não foi isso que eu perguntei: eu quero entender por que você quis essa recompensa, não só entregou a carteira e foi embora. Você estava a trabalho, tinha um compromisso com o dinheiro que estava levando.
- Eu sei, senhor, e eu peço mil desculpas por isso, fui muito desatento...
- Você tá precisando tanto assim de dinheiro para aceitar uma oferta assim? Você não vê quanta gente cai em golpes por aí? Você precisa ser mais esperto!
- Sim, eu sei que preciso, não vai acontecer de novo, prometo!
- Olha Felipe, eu não sei o que fazer com você agora... o ideal seria eu te proibir de pegar dinheiro, mas você é o office-boy aqui, não posso ficar mandando os outros assistentes aqui para fazer esse serviço...
Felipe ficou preocupado com o que o chefe disse: ele sentiu que viria o anúncio da demissão.
- Senhor, eu sinto muito mesmo, não tenho como me desculpar direito pelo que aconteceu, mas por favor não me mande embora, preciso ajudar a minha família, a minha mãe - e nisso Felipe engasgou, a emoção tomou posse de seus sentidos, as lágrimas começaram a rolar sem esforço.
- Felipe, pare de chorar, a gente vai fazer um acerto temporário para resolver isso. Você é um ótimo funcionário, é dedicado, não chega atrasado que nem outros aqui, fez tanto progresso aqui, quer aprender o serviço, voltou a estudar... vamos ver se conseguimos fazer um acerto, por favor, pare de chorar - disse o chefe sem mudar a expressão no rosto. Nisso, ele pegou o telefone e disse:
- Elisa, por favor, peça para o Ary vir até aqui - e desligou. Em trinta segundos Ary já entrava na sala do chefe. Felipe estava melhor, limpando as lágrimas do rosto e procurando se recompor para disfarçar o que tinha acabado de fazer. Soluçava, porém.
- Felipe, no dia seguinte, enquanto deixei você na sua casa, contei para todo mundo aqui sobre o que tinha acontecido, e que estava em dúvidas sobre o que fazer com... o seu caso. O Ary pediu para conversar comigo em particular e se ofereceu para ajudar. Então vai ficar acertado assim: Você continua fazendo o serviço na rua, só que o Ary vai fazer o que tiver dinheiro envolvido, a gente já fez um acerto, mas será temporário até você reconquistar minha confiança. Esse acerto vai ficar entre nós aqui da sala porque os outros funcionários também vão precisar ganhar confiança em você novamente, e conforme for daqui para frente, vamos avaliar a situação novamente, está certo?
Felipe ficou mais aliviado, e respondeu:
- Sim senhor, muito obrigado, pode confiar em mim, não vou mais te decepcionar, muito obrigado mesmo...
- Agradeça ao Ary também, se não fosse por ele, talvez estivéssemos tendo outra conversa agora.
- Muito obrigado, Ary, não vou te decepcionar. - respondeu Felipe. Ary, que estava apenas olhando tudo, assentiu com a cabeça.
O chefe terminou a conversa dizendo:
- Amanhã você volta a trabalhar como sempre, assim você se recompõe do dia de hoje. E por favor, não caia mais nesses golpes, eles se aproveitam das pessoas desinformadas. Até amanhã, Felipe.
Felipe agradecia e agradecia, e saiu com o Ary pela porta. Durante o caminho até a saída, Felipe viu os outros funcionários olhando e comentando sobre ele. Um deles, mais exaltado, dizendo:
- Tem que ficar de olho nessas pessoas com quem a gente trabalha. Não dá mais para ter tranquilidade nem aqui.
Felipe ficou meio abalado com esse comentário. Ary continuou acompanhando Felipe até a saída, e lá fora, o office-boy mais uma vez agradeceu:
- Seu Ary, muito obrigado mesmo, o senhor é um anjo.
Ary, que não era muito de falar, acabou respondendo:
- Imagina, já passei por problemas também, é tão difícil manter emprego com tanta coisa que acontece.
- Mas eu devia ter sido esperto, fui um idiota por cair nesse golpe.
Ary deixou a gentileza de lado e falou com um pouco mais de seriedade:
- Deixa eu te falar uma coisa sobre golpe: Não existe isso de que quem cai em golpe é idiota. Quem cai em golpe são pessoas inteligentes, desesperadas, e que acreditam na boa-fé das pessoas. Você não é idiota.
- Caí no truque mais velho do mundo, eu devia ter desconfiado...
- Você não é o único a cair em golpe. Sabe o cara que falou coisas sobre você na saída? Uma vez ele perdeu uma fortuna com um programa de televisão para acertar a palavra embaralhada. A palavra era fácil, aí ele pensou que era só ligar e responder que ganhando o dinheiro ali ele poderia pagar as dívidas do cartão de crédito e talvez comprar uma televisão nova. Ficou no telefone esperando para responder, nem chegou a ter a chance, aí perdeu a paciência e desligou. Um mês depois, veio a conta de telefone: ele ficou mais de uma hora na linha enquanto o telefone cobrava ligação de celular para outro estado, e no que achou que ia ganhar dez mil, acabou perdendo quinhentos.
- Sério isso? Felipe ficou impressionado.
- Tô falando. A mulher dele ficou uma arara, ele ficou aquele mês seguinte dormindo no sofá.
Os dois riram. Foi o primeiro riso de Felipe nos últimos quatro dias. Ary continuou:
- A gente cai em golpe muitas vezes porque a gente quer ganhar mais, aí aparece um dinheiro fácil, mas dinheiro fácil assim não existe, e às vezes é dinheiro que a gente nem precisa. Talvez para não cair nesses golpes é ter vida honesta, ser trabalhador, mas de vez em quando vem um momento de dificuldade, em que a gente entra em desespero, e esses golpistas estão sempre por aí para levar vantagem no nosso momento de fraqueza. Aí o jeito é apenas ficar de olho...