Não
foi fácil para Felipe voltar à repartição.
O chefe pediu para ele ficar uns três dias de molho em casa,
para deixar a poeira assentar, mas de alguma forma Felipe percebia
algo estranho no ar.
Apesar
de ter ido ao escritório naquele dia, ele não iria
trabalhar ainda. A ida foi um pedido do chefe para que pudessem
conversar com mais calma sobre o ocorrido quatro dias antes. Ele não
sabia realmente o que esperar, por isso estava preparado para tudo:
uma reprimenda, uma compensação financeira, ou até
mesmo a tão temida demissão. Ser demitido seria
catastrófico para ele naquele momento: trabalhava como
office-boy fazia poucos meses, já tinha mudado para o período
noturno na escola para conciliar o emprego com o estudo.
Ao
chegar, Felipe foi direto falar com Elisa, a secretária do
chefe. Ela interfonou, desligou o telefone e pediu para que ele
esperasse um pouco. Felipe sentou-se numa poltrona ali na salinha,
tenso como sempre e aquele breve momento ali com Elisa carregava nele
um certo constrangimento. Felipe já não tinha muita
conversa com ela normalmente.
Naquele
impasse, foi Elisa quem tratou de quebrar o gelo:
- Tá
melhor hoje, Felipe?
Felipe
olhou para Elisa com um misto de surpresa e abnegação:
todos no escritório já deviam saber o que aconteceu.
-
Estou melhor sim. - respondeu Felipe, sem olhar nem convencer.
Elisa
então tentou um leve esboço de simpatia:
- Só
tem aproveitador por aí, quando a gente precisa de dinheiro
ninguém vem na nossa casa para oferecer, é só
para tirar.
Felipe
balançou a cabeça e ficou calado. Não havia
muito o que se dizer também.
Enquanto
esperava, Felipe viu Beto, o novo funcionário, um pouco mais
velho do que ele, mas o rapaz passou direto pelo corredor sem nem
olhar. Talvez pela proximidade de idade entre os dois, e por terem
começado a trabalhar quase ao mesmo tempo, eles eram mais
próximos. Felipe ficou um pouco desanimado, aquele seria um
bom momento para receber algum tipo de apoio. A expectativa era muito
grande, Felipe não podia nem queria perder aquele emprego.
Trabalhar
como office-boy tinha sido a grande oportunidade dele nos últimos
tempos, tanto que resolveu estudar a sério, recomeçar o
colegial, para ter condições de passar nos exames e
fazer faculdade. Ele nem havia pensado nessa possibilidade antes e
não tinha opinião formada sobre que curso fazer, porém
o tempo como office-boy despertou nele um gosto por Administração.
Graças ao serviço Felipe acabou superando a dificuldade
que sempre teve com matemática. Aqueles problemas que antes
eram impossíveis de se resolver mudaram como mágica:
agora apenas eram mais trabalhosos.
Após
cinco longos minutos, o telefone tocou. Elisa atendeu, e logo falou
para Felipe:
- Já
pode entrar, o chefe está esperando.
Felipe
andou até a sala do chefe, e ao abrir a porta tentou ensaiar
alguma feição mais normal, mas seu rosto se contorcia
involuntariamente devido ao peso de sua vergonha pelo que aconteceu
na última quinta-feira. Felipe entrou, pediu licença, e
o chefe ofereceu a cadeira para que ele se sentasse. Felipe
sentou-se, cabeça baixa, as mãos cerradas e juntas
entre suas pernas. Ele só esperava pela bronca.
-
Como vai, Felipe? - indagou o chefe.
-
Vou bem, senhor. - respondeu Felipe.
- A
família vai bem? Como eles reagiram à notícia?
-
Contei só no sábado pros meus pais. Eles ficaram
chateados comigo, perguntaram como pude ser tão tonto, e eu
não tinha o que falar: fui tonto mesmo, me desculpe, eu vou te
pagar de volta o que eu perdi...
-
Garoto, não vou cobrar pelo que aconteceu. Acontece, já
é passado, e você precisa do seu salário também,
a gente dá um jeito aqui de recuperar o que foi roubado. Só
que eu não consigo entender como é que você pôde
deixar uma mochila com estranhos no meio da rua. Mochila com três
mil reais dentro, três mil reais que não são
seus.
Felipe
então passou a descrever o que aconteceu da mesma forma que
contou aos policiais na delegacia: Tinha acabado de sacar um cheque
para a empresa, quando viu uma mulher perder a carteira na rua. Ele
pegou a carteira, avisou a mulher que ficou muito agradecida, o
abraçou, e prometeu uma recompensa junto com outra mulher que
também disse ter achado. A mulher deixou a carteira com eles,
voltou depois de alguns minutos e falou que a recompensa estaria em
outro lugar, e então ele foi porque conseguiria ir mais rápido
até lá, e enquanto isso elas cuidavam da mochila. Ele
foi até lá, ninguém conhecia a mulher, e quando
ele voltou, não havia mais mulher, nem mochila, nem dinheiro,
nem nada.
-
Não sabia dessa parte de que você ficou esperando com
outra mulher, mas não foi isso que eu perguntei: eu quero
entender por que você quis essa recompensa, não só
entregou a carteira e foi embora. Você estava a trabalho, tinha
um compromisso com o dinheiro que estava levando.
- Eu
sei, senhor, e eu peço mil desculpas por isso, fui muito
desatento...
-
Você tá precisando tanto assim de dinheiro para aceitar
uma oferta assim? Você não vê quanta gente cai em
golpes por aí? Você precisa ser mais esperto!
-
Sim, eu sei que preciso, não vai acontecer de novo, prometo!
-
Olha Felipe, eu não sei o que fazer com você agora... o
ideal seria eu te proibir de pegar dinheiro, mas você é
o office-boy aqui, não posso ficar mandando os outros
assistentes aqui para fazer esse serviço...
Felipe
ficou preocupado com o que o chefe disse: ele sentiu que viria o
anúncio da demissão.
-
Senhor, eu sinto muito mesmo, não tenho como me desculpar
direito pelo que aconteceu, mas por favor não me mande embora,
preciso ajudar a minha família, a minha mãe - e nisso
Felipe engasgou, a emoção tomou posse de seus sentidos,
as lágrimas começaram a rolar sem esforço.
-
Felipe, pare de chorar, a gente vai fazer um acerto temporário
para resolver isso. Você é um ótimo funcionário,
é dedicado, não chega atrasado que nem outros aqui, fez
tanto progresso aqui, quer aprender o serviço, voltou a
estudar... vamos ver se conseguimos fazer um acerto, por favor, pare
de chorar - disse o chefe sem mudar a expressão no rosto.
Nisso, ele pegou o telefone e disse:
-
Elisa, por favor, peça para o Ary vir até aqui - e
desligou. Em trinta segundos Ary já entrava na sala do chefe.
Felipe estava melhor, limpando as lágrimas do rosto e
procurando se recompor para disfarçar o que tinha acabado de
fazer. Soluçava, porém.
-
Felipe, no dia seguinte, enquanto deixei você na sua casa,
contei para todo mundo aqui sobre o que tinha acontecido, e que
estava em dúvidas sobre o que fazer com... o seu caso. O Ary
pediu para conversar comigo em particular e se ofereceu para ajudar.
Então vai ficar acertado assim: Você continua fazendo o
serviço na rua, só que o Ary vai fazer o que tiver
dinheiro envolvido, a gente já fez um acerto, mas será
temporário até você reconquistar minha confiança.
Esse acerto vai ficar entre nós aqui da sala porque os outros
funcionários também vão precisar ganhar
confiança em você novamente, e conforme for daqui para
frente, vamos avaliar a situação novamente, está
certo?
Felipe
ficou mais aliviado, e respondeu:
-
Sim senhor, muito obrigado, pode confiar em mim, não vou mais
te decepcionar, muito obrigado mesmo...
-
Agradeça ao Ary também, se não fosse por ele,
talvez estivéssemos tendo outra conversa agora.
-
Muito obrigado, Ary, não vou te decepcionar. - respondeu
Felipe. Ary, que estava apenas olhando tudo, assentiu com a cabeça.
O
chefe terminou a conversa dizendo:
-
Amanhã você volta a trabalhar como sempre, assim você
se recompõe do dia de hoje. E por favor, não caia mais
nesses golpes, eles se aproveitam das pessoas desinformadas. Até
amanhã, Felipe.
Felipe
agradecia e agradecia, e saiu com o Ary pela porta. Durante o caminho
até a saída, Felipe viu os outros funcionários
olhando e comentando sobre ele. Um deles, mais exaltado, dizendo:
-
Tem que ficar de olho nessas pessoas com quem a gente trabalha. Não
dá mais para ter tranquilidade nem aqui.
Felipe
ficou meio abalado com esse comentário. Ary continuou
acompanhando Felipe até a saída, e lá fora, o
office-boy mais uma vez agradeceu:
-
Seu Ary, muito obrigado mesmo, o senhor é um anjo.
Ary,
que não era muito de falar, acabou respondendo:
-
Imagina, já passei por problemas também, é tão
difícil manter emprego com tanta coisa que acontece.
-
Mas eu devia ter sido esperto, fui um idiota por cair nesse golpe.
Ary
deixou a gentileza de lado e falou com um pouco mais de seriedade:
-
Deixa eu te falar uma coisa sobre golpe: Não existe isso de
que quem cai em golpe é idiota. Quem cai em golpe são
pessoas inteligentes, desesperadas, e que acreditam na boa-fé
das pessoas. Você não é idiota.
-
Caí no truque mais velho do mundo, eu devia ter desconfiado...
-
Você não é o único a cair em golpe. Sabe o
cara que falou coisas sobre você na saída? Uma vez ele
perdeu uma fortuna com um programa de televisão para acertar a
palavra embaralhada. A palavra era fácil, aí ele pensou
que era só ligar e responder que ganhando o dinheiro ali ele
poderia pagar as dívidas do cartão de crédito e
talvez comprar uma televisão nova. Ficou no telefone esperando
para responder, nem chegou a ter a chance, aí perdeu a
paciência e desligou. Um mês depois, veio a conta de
telefone: ele ficou mais de uma hora na linha enquanto o telefone
cobrava ligação de celular para outro estado, e no que
achou que ia ganhar dez mil, acabou perdendo quinhentos.
-
Sério isso? Felipe ficou impressionado.
- Tô
falando. A mulher dele ficou uma arara, ele ficou aquele mês
seguinte dormindo no sofá.
Os
dois riram. Foi o primeiro riso de Felipe nos últimos quatro
dias. Ary continuou:
- A
gente cai em golpe muitas vezes porque a gente quer ganhar mais, aí
aparece um dinheiro fácil, mas dinheiro fácil assim não
existe, e às vezes é dinheiro que a gente nem precisa.
Talvez para não cair nesses golpes é ter vida honesta,
ser trabalhador, mas de vez em quando vem um momento de dificuldade,
em que a gente entra em desespero, e esses golpistas estão
sempre por aí para levar vantagem no nosso momento de
fraqueza. Aí o jeito é apenas ficar de olho...