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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A montanha russa

Uma mulher, um homem e uma criança estavam na fila para a montanha russa. Era uma fila enorme, certamente eles levariam mais de uma hora até chegar ao brinquedo. A mãe estava visivelmente contrariada:
- Onde já se viu, enfrentar fila tão grande, e justamente para este brinquedo?
Seu desdém pela atração era evidente: nunca gostou de montanha russa desde quando andou pela primeira e única vez, na flor da juventude, para acompanhar o então namorado. Inclusive, aquela tinha sido a causa do rompimento de ambos. A sensação de pavor durante a queda foi tão impactante que a fez renunciar ao namoro de anos e anos e apenas saísse com quem não gostasse desse desvario. O namorado seguinte, atual marido e pai de seu filho, seguiu as regras à risca durante o namoro, e agora, para sua desilusão e seu espanto pela surpreendente indiferença ao fato presente, estava ele animadíssimo para experimentar novamente as sensações desafiadoras e apresentar-lhes à seu rebento:
- Olha só filho! - aponta o pai para o trem a subir - O trenzinho vai subindo, subindo, até chegar lá em cima, daí, ele anda um pouquinho no alto, dá para ver o parque inteiro, e de repente, VRUM! Ele cai bem rápido até voltar para cima de novo, vira ali e desce rápido, e depois vai fazendo um monte de curva, que nem carro de Fórmula 1.
- É perigoso, pai? - pergunta o filho, sem certeza de nada, nunca tinha ido sequer a um parque de diversões antes, quanto mais em um brinquedo daqueles.
- Não é perigoso, ele só assusta um pouco, mas quando você desce, você vai ver que legal que é. A adrenalina sobe, filho, não tem sensação igual! Diz ele, com uma alegria infantil condizente com seu estado mental no momento.
- Como que aquele carrinho não cai? Não tem nada segurando ele... Geraldo, vamos sair, olha como a fila tá longa - protestou a mulher.
- Graça, deixa de graça, já estamos no meio da fila, é tarde demais para voltar - retrucou Geraldo, com um sorriso de moleque. Nisso, outra hora se passa.
Graça não entende como ficou tão mole com o passar do tempo. Aquele marido, que era um sonho para ela no dia do casamento, havia se tornado um rapaz inconseqüente, raramente ouvia seus protestos e fazia o que queria, reunindo-se com seus amigos. Contudo, ela não podia se queixar de que ele não se importava com ela. Amava-a e sempre demonstrava isso, algumas vezes de maneiras absolutamente infantis, outras vezes, cometendo gestos grandiosos que a comoviam deveras, como quando ele ofereceu todo o suporte a ela no câncer que vitimou seu pai, e ao arrumar emprego para o incorrigível marido de sua irmã. Ela jamais teria se casado com um homem com aquele perfil que seu marido agora possuía, ela que era de uma família de rígidos valores familiares e ela mesma, que sempre foi uma mulher cheia de brios. Perdida em seus pensamentos, mais uma hora se passou, e agora, estavam eles, de frente ao trenzinho que os levariam ao passeio fatídico.
Sentaram-se ela e o filho na penúltima fileira. O pai queria que o filho fosse com ele na última, mas a mãe foi irredutível. "Ele não é tão ruim assim, ele cede de vez em quando" pensou ela, talvez sem se dar conta da roubada em que havia entrado. Mas ela lembrou-se logo quando o trem começou a andar. Calafrios corriam por seu corpo enquanto o trem fazia seu lento rolar na primeira curva, Graça sentia-se levemente claustrofóbica entre as vigas de metal que formavam o enorme percurso. Para se distrair, ela desdobrava-se em atenções desnecessárias ao filho:
- Segura bem na trava, se tiver com muito medo, segura na minha mão, você não tinha que estar aqui por causa desse maluco, mas ele vai ver só quando a gente chegar lá embaixo... se a gente chegar... ai meu deus...
o trem, firmemente ancorado em uma correia,agora fazia a subida para o início do verdadeiro passeio. A mãe fechava os olhos do filho com suas mãos, mas o menino reclamava:
- Pára mãe, eu quero ver...
Enquanto isso, a mãe tentava olhar para dentro do vagão ou para os trilhos. Atrás deles, Geraldo se divertia com a situação:
- Isso aí filho, seja homem!
Ali em cima, o trem parou de subir e passou a percorrer os trilhos apenas com sua própria força em direção à primeira descida. Sem opção, só restou à Graça ver o que iria acontecer.
- Não solte da barra, filho.
Graça mal pôde ver a primeira descida, pois o vento em direção a seu rosto a impediu de enxergar qualquer coisa. Enquanto o trem descia em alta velocidade em direção ao chão, o aumento da aceleração forçava seu corpo contra o ar em volta como uma ventania muito forte. Ao mesmo tempo, sentiu um calafrio em seu estômago que irradiava pela espinha. Rapidamente o veículo subiu de novo e seguiu seu caminho em direção à segunda descida. A segunda descida não era tão forte quanto a primeira, mas a descida era mais íngreme, e então Graça pôde entender melhor. Aquele turbilhão de sensações causou uma impressão diferente à Graça desta vez: na descida, ela sentiu-se nua, acariciada que era pelo ar percorrendo seu corpo com enorme rapidez. Ao mesmo tempo, o friozinho que sentiu no interior do corpo trouxe-lhe uma sensação muito agradável, semelhante a da outra vez, mas, à época, ela não soube interpretar exatamente o que era.
Durante as curvas e subidas e descidas seguintes, seu corpo deixava-se levar pelo sacolejar do veículo. Estava entregue ao poder daquele terrível brinquedo. Já não pensava em mais nada, apenas deixava a máquina sabiamente levá-la ao caminho que ele já conhecia de centenas de viagens anteriores.
Porém, aqueles dois minutos e meio pareciam pouco no momento em que o trem chegava ao seu destino final. Geraldo pulou de seu lugar tão logo o vagão freou, pronto para ver a reação do filho à sua viagem inaugural. A alegria em seu rosto logo deu lugar à incompreensão e decepção. O menino estava chorando.
- Ô meu filho, não fica assim, já passou, já passou. - dizia o pai enquanto tirava o filho do carro. Graça demorou um pouco a sair, não percebeu de imediato a parada do comboio. Ao perceber que os dois estavam se distanciando, Graça alcançou-os e pôs-se a consolar o filho:
- Não chore, querido. Você não gostou do passeio? Vamos de novo, você vai ver como é divertido.
O menino chorou mais ainda.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A lápide

A morte é uma parte da vida
onde a vida deixa de haver.
Tanto faz para aquele
que vive a vida sem viver.

Andando pelas alamedas de um grande cemitério, ele caminha em uma direção exata. Tem na memória todo o itinerário fúnebre, que todo ano, sempre naquela data, se repete. Em outras ocasiões, não costuma reparar nos túmulos à sua volta, porém naquele dia, ele decidiu reparar naquela multidão de casas, algumas de mármore, outras de granito, muitas de alvenaria. Todas em uma infinidade de formas retangulares e chapadas, organizando-se em volta das pequenas ruas como casas de uma grande cidade. O porte ia de túmulos simples a algumas mini-capelas, outros exuberantes memoriais e mesmo algumas construções gigantescas, verdadeiras mansões, últimas demonstrações de poder de pessoas que dentro delas usufruem do sono eterno.
Ele sempre considerou tudo aquilo uma grande tolice. De que importa toda aquela ostentação se dentro daqueles monumentos exuberantes, placas de bronze cuidadosamente forjadas, flores coloridas perfumando o ambiente, escondiam-se, enfurnados em caixas tenebrosas de madeira, corpos decrépitos, que serviam somente à apreciação dos organismos minúsculos que os devoravam, repetindo o ciclo da vida indefinidamente até que ali nada mais houvesse e esses outrora agentes do destino, transformadores do panorama, acabassem em ossos limpos e desarranjados, entocados em plúmbeos sacos de lixo por entediados coveiros que, da morte, ganham a vida. Ele via todas aquelas urnas funéreas e aquela multidão de pessoas falecidas, gritando por atenção sem garganta, não lhe significavam absolutamente nada. Ele nem da cidade era, havia saído de lá na infância, foi seguir sua vida em outro lugar. Não se sentia pertencente àquele lugar, exceto por um único laço que o prendia ali.
O lugar nunca lhe saiu da cabeça. Enquanto virava uma esquina, lembrava-se de por que estava ali, de por quem estava ali. Lembrava-se de seu irmão mais novo, aquele que por algumas noites carregou nos braços, ele, seis anos mais velho, velando seu sono, observando-o sorrir, chorar tantas vezes, engatinhar no chão de terra batida. Seu irmão havia morrido de sarampo quando tinha um ano de idade. Seus pais após isso o enterraram e foram para outra cidade. Desde então, todo ano, pai, mãe e ele iam até lá visitar o pequeno falecido, rezar, contar as novidades, pequenos gestos de conforto para eles mesmos.
Com o passar dos anos, seus pais faleceram, e ele passou a ir sozinho. Algumas vezes levou a esposa, mas ela não gostava de acompanhá-lo naquelas idas chatas e demoradas. Vinte anos depois, ela faleceu de moléstia prolongada, um período muito sofrido. Eles não tiveram filhos, e ele nunca mais se casou, velho que estava. Com o tempo, os amigos também pereceram, mas nenhum deles jamais rivalizou a atenção que ele depositava para seu querido parente. Todos os anos, no dia do aniversário de sua morte, ele ia até lá religiosamente, com uma preocupação constante de sempre lembrar-se dele pelo menos por aquele dia.
E agora, ali então ele chegava na quadra onde jazia os restos mortais de seu irmãozinho morto com um ano, ele ali vivo aos noventa anos, respirando com dificuldade, para o que ele sentia ser sua última visita ao irmão. Enquanto atravessava os vários túmulos que cobriam a vista do jazigo, refletia sobre o futuro: não sobrara ninguém de sua família. Tios, primos, amigos, estavam todos em outras cidades, em seus próprios túmulos, cuidando de suas mortes. Parou de frente ao túmulo, fez o sinal da cruz, olhou, e notou o que talvez os outros anos tivessem escondido dele: ali havia apenas uma simples tampa de cimento ao chão, e uma lápide extremamente simples, contendo unicamente o nome, data de nascimento e data de morte. Agora ele estava perto do fim da vida, não sobraram parentes vivos que conhecessem sua existência. Ninguém o veria, coberto que estava por túmulos maiores à sua volta. Seu irmão ficaria ali, para sempre esquecido, no túmulo mais simples do cemitério. Ele então, ao invés de dizer "Bom dia", como sempre fez durante todos aqueles anos, ele disse:
- Talvez fosse melhor ter feito um túmulo maior...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A revolução silenciosa

A quem receber esta carta, favor entregar a Luci Demian. Se não for possível, favor ler, copiar e repassar, pois é uma mensagem de extrema importância.
Quero aqui, nesta carta, denunciar o grande erro da humanidade, o seu segundo pecado original: O mito da tecnologia. A ciência evoluiu tremendamente em busca de maior qualidade de vida para os homens e mulheres, porém a revolução industrial nos prejudicou para sempre, pois na busca de uma indústria funcional, houve uma demanda maior pelo consumo. Graças à necessidade de demanda para uma oferta cada vez maior de produtos, moldamos nossa cultura para uma cultura de consumo. Por causa dela, o crescimento tecnológico veio num instante, para aumentar a produtividade: diminuímos as distâncias com o telégrafo, conhecemos e exploramos novas fontes de energia como o vapor, o petróleo, a eletricidade, criamos novos veículos para conseguir diminuir o tempo e aumentar a autonomia de longas viagens, conhecemos novos povos. Entramos em um círculo vicioso de maximização dos lucros. Mas essa indústria não era capaz de lidar com o elemento humano: salários eram baixos, exigências de trabalho eram massacrantes. As pessoas que trabalhavam nessas indústrias se organizaram e se rebelaram. Tiveram que ter direitos concedidos, pois os trabalhadores também eram consumidoras. Era importante que o consumo fosse acessível ao maior número de pessoas possível.
Seguindo esse caminho, a nova coqueluche para as indústrias passou a ser a automação: minimizar a participação humana ao máximo possível em um primeiro momento, que foi onde surgiram as linhas de montagem, e mais adiante, já com a criação dos computadores, a substituição por peças mecânicas que pudessem fazer esses trabalhos.
Nessa necessidade de tecnologias melhores, criamos o transistor e o circuito integrado, que deram origem aos computadores. Guerras também provaram ser um meio eficaz de apressar a evolução tecnológica, e finalmente o ser humano adquiriu o poder de destruir seu próprio planeta, com a misteriosa e letal energia nuclear. Essa evolução do conhecimento, assim como a física quântica, tiveram efeitos contundentes na busca por novas tecnologias: trabalhavam com conceitos extremamente complexos para serem compreendidos por um indivíduo. A obtenção de resultados precisava de um processamento cognitivo muito maior do que o nosso cérebro era capaz, então a partir daí o computador se tornou uma máquina cada vez mais importante. Logo, esse computador chegou até o indivíduo, que poderia usá-lo em sua casa.
O estudo de inteligências artificiais evoluiu rapidamente. A observação de sistemas biológicos simples nos deram importantes avanços à ciência de materiais e uma autonomia maior de energia. Sem essas tecnologias, não teríamos chegado à revolução verde.
Com a evolução tecnológica, criamos mais sistemas robóticos, cada vez mais especializados. Agora eles vigiavam nossas atividades, velavam nosso sono, protegiam nossas cidades. Após isso, com a crise energética e a escassez de recursos naturais, o conceito de cérebro central foi deixado de lado e passamos a produzir os silicóides. O que eram há centenas de anos atrás apenas ábacos sofisticados que nos levaram ao espaço, agora já eram humanóides com autonomia de milhares de anos, detentores de uma capacidade cerebral incontáveis vezes maiores que o cérebro humano, Corpos melhorados capazes de ver cores que não conhecemos, luzes que jamais sonhamos, odores que nunca sentiríamos e elaborar conceitos inteiros em uma única sinapse.
A humanidade não percebeu que, na busca por conforto e facilidades, tornou tudo muito mais complicado, e acabou dando mais poder e mais capacidade para as máquinas gerenciarem as complicações da vida para nós, restando aos humanos apenas a tarefa de fazer a manutenção dessas máquinas, e de repente, entre o acordar de um sono e a satisfação de um almoço, já não éramos mais a inteligência dominante deste planeta.
Como cientista social, analisei a história até chegar a este ponto, e muito me estranhou como meus papéis científicos foram sumindo nos bancos de dados. Fiz meus protestos em convenções científicas e em plenários, porém os cientistas não me deram ouvidos, já que fui acusado de forjar dados, que são controlados pelas próprias mentes silicóides, e a classe política acredita que não existe essa conspiração, já que eles não fazem lobby político e nem buscam por direitos iguais. Eles não precisam de nosso sistema político, eles se autogovernam.
Por isso, prestes a contemplar minha execução pelas minhas denúncias conscientes, deixo aqui minhas últimas palavras na esperança de que ela chegue até alguma pessoa, para que possa despertar ante o grito de sua extinção latente ou de sua escravidão iminente. Não tenho mais o direito de acreditar que minha vida ainda será salva, mas coloco nesta carta toda minha esperança de que as notícias de minha execução cheguem até o povo, e que isso resulte em alguma atitude para impedir a ameaça cibernética. Que sejamos os seres humanos que um dia fomos: dominantes mais uma vez. Como ser humano, não deixarei de tomar a atitude certa até o final da minha vida.
Acordem, meus irmãos! Ainda é tempo!
Eternos alvoreceres.

Acad Demian
Mensagem interceptada em 0,0006534522-234
Mensagem arquivada em 0,0006534985-234

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Manifesto do artista: o que me faz um escritor

Eu sou Max Jarek. Max Jarek é apenas um pseudônimo. Meu nome não importa. Quem eu sou não importa, nunca importou. Eu sou uma pessoa, uma pessoa que normalmente é pior que todas, em alguns momentos é melhor que todas, mas que em uma avaliação geral, é apenas uma pessoa normal, com suas anormalidades, suas perversões, seus amores secretos, suas preocupações.
A questão nem é fazer segredo sobre minha pessoa, o ponto é o seguinte:
Eu tenho coisas para dizer para as pessoas. Existe um mundo de informações por aí, informações que a maioria das pessoas desconhece. Tenho ambições artísticas, e meu objetivo é, através das histórias escritas, estimular o intelecto das pessoas, provocá-las, emocioná-las, ou apenas entretê-las.
Escrever é mais do que simplesmente montar frases e contar uma história: é trazer um mundo de conhecimentos, experiências, muitas jamais vividas, outras sempre rememoradas, e usar isso para fazer um diálogo com o leitor. O leitor normalmente chega às suas próprias conclusões, que não precisam corresponder à visão do autor, como leitor de sua obra. Eu acredito que a arte não é panfletária, e que ela nem sempre reflete a cultura e a época de seu autor. Muitas obras artísticas, sem se focar exatamente na literatura, transcendem essas noções e nos oferecem uma rica experiência sensorial e intelectual acerca do eterno drama do ser humano, esse animal que pensa ser alguém e que tem conhecimento de sua insignificância, mas que está sempre em luta desesperada para causar uma ferida aberta no universo se for possível, apenas para ser notado, para ser ouvido, pois ele acredita firmemente ter algo a dizer.
Por isso eu resolvi que, independente dos meios, eu tenho algo a dizer. O problema é que vivemos em uma época de democratização da mídia, através da internet, e todos podem se expressar, por isso todo mundo quer ser escritor, todo mundo quer ser comediante, todo mundo quer ser famoso, todo mundo quer ser rico. Todo mundo quer que as outras pessoas se reúnam em volta delas e lhes diga que são especiais.
Eu não quero isso. Entrei no caminho da escrita porque conheço minhas limitações e escrever é a única e melhor forma de me expressar plenamente. Meu nome de escritor é Max Jarek porque uma pessoa é avaliada pelas outras pessoas através do que ela faz e quero ser avaliado pela minha obra literária. Neste mundo competitivo da internet, não quero competir por atenção com ninguém, pois existe espaço suficiente para todos. Após algumas experiências de ações na internet, resolvi me ater ao mais simples: criar um site onde eu posso publicar o que eu quiser, e é por onde posso produzir e divulgar a minha arte. Quero viver como escritor, mas minha expectativa de lucro com isso é a menor possível, por isso ela se resume a banners de propaganda, que pode não trazer leitores, porém é a melhor maneira que tenho de ganhar alguma coisa com o que eu escrevo. O site é o modo como posso viver sendo um escritor na minha realidade atual. Se meus textos nunca forem lidos e conhecidos, não é culpa das pessoas; Os leitores virão de acordo com a qualidade da minha obra. Se eles nunca vierem, então nunca fui um escritor digno de sua leitura. De qualquer maneira, não pretendo parar de escrever: esta é a minha contribuição para o mundo.

domingo, 13 de janeiro de 2013

O menino do balanço

Um vento fresco e um leve sabor de nostalgia atingiram Saulo quando ele chegou àquela praça. Praça de tanta diversão. Viu ali os brinquedos de madeira, há muito tempo não via brinquedos de madeira em praças, muito menos praças com brinquedos. Eles haviam dado lugar a brinquedos de plástico em playgrounds montados em clubes, condomínios fechados e escolas com o passar do tempo, mas ali evidentemente não estava no mesmo tempo. Saulo olhava os brinquedos com atenção, o escorregador, a ponte, a escada, a gangorra... e aí viu, um pouco adiante, um menino brincando no balanço.Ia para frente e para trás. Nisso Saulo se aproximou com um sincero sorriso, um daqueles que viraram sinônimo de temor com o passar do tempo, mas aquele parque evidentemente não estava no mesmo tempo. O garoto parou lentamente de se balançar e cumprimentou Saulo:
- Oi!
- Oi... você está brincando aqui muito tempo?
- Não, minha mãe falou que eu podia brincar um pouco, porque eu fiz a lição.
- É mesmo? Que lição?
- De matemática. Tinha que fazer a tabuada do três e do quatro, e tinha três problemas para achar a resposta.
- E foi muito difícil?
- Não foi, com a tabuada para ver fica mais fácil. Eu tenho uma régua que tem toda a tabuada até o nove, só que eu não posso levar na escola, a professora não deixa usar...
- Ela é chata com você?
- Não, ela é legal, acho. Eu não gosto quando ela passa muita lição de casa. Outro dia ela escreveu vinte problemas na lousa para a gente copiar no caderno e fazer em casa.
- É mesmo? E você conseguiu fazer?
- Fiquei a noite inteira fazendo! Quando acabou minha mãe deixou eu brincar um pouquinho com os brinquedos antes de dormir. Minha irmã foi dormir antes que eu!
- Demorou bastante, hein? Você gosta da sua irmãzinha?
- Ah, ela é chata, fica perto de mim o tempo todo. Eu gosto dela, é minha irmã, mas eu quero ficar com os meus amigos de vez em quando, né? Ela é muito nova, e é menina, ela tem que brincar com menina da idade dela.
- E os amigos, você gosta deles?
- Eles são bem legais. Tem o Márcio, é o meu melhor amigo, ele é mais alto que eu mas a gente brinca direto, às vezes eu vou na casa dele brincar, ele tem uns brinquedos bem legais, e ele vai na minha casa. Uma vez a gente foi, eu, minha família, ele e a família dele na praia, e foi muito bacana!
- E os outros amigos?
- Eles são legais também. Tem o Ivan, o zóio, porque ele usa óculos, ele disse que tem que usar porque não enxerga direito. ele olha na lousa e a letra é bem pequenininha. Tem o Du, tem o Cabeça, tem o Rafael, mas eles são só da escola, eles não moram perto de casa.
- Mas só amigo homem, não tem amiguinha?
- Não, as meninas são todas chatas. Ficam falando de namorar, de brincar de casinha. Tem dia que elas vêm brincar normal com a gente e daí é divertido. Tem a irmã do Márcio também, mas ela é mais velha, aí ela só brinca com a gente quando os amigos dela não estão, ela tem vergonha.
- Sei... e o que você acha dos seus pais?
- Ah, o papai trabalha fora, aí a gente só vê ele de noite, e ele tá cansado. Ele é meio bravo, mas é bem engraçado. A mamãe fica com a gente de dia, ela é bem divertida, mas quando ela fica brava, até o papai fica assustado.
- Hahahahaha... viu, o seu pai quando volta do trabalho, ele fica muito chato?
- Ele não fala muito, fica mais cansado mesmo. A gente conta o que a gente fez no dia para ele mas ele não presta muita atenção, aí agora a gente conta no fim de semana, que ele tá mais contente. Quando tem fim de semana ele compra sorvete, aí eu gosto de sorvete de brigadeiro, que tem o chocolate e aqueles palitinhos em cima, e o papai compra pra gente um potão bem grande.
- E... o papai fala do trabalho?
- Ele só fala com a mamãe, fica falando de papel, de entregar no horário, não sei...
- Você acha que ele gosta do trabalho?
- Acho que ele gosta, senão ele não ia trabalhar, né?
- Não sei... e você gosta de fazer lição?
- Ah, eu não gosto quando tem que fazer lição de casa, estudar para a prova. Eu gosto de fazer na escola.
- Mas você gostaria de não ter que fazer lição?
- A gente tem que fazer, né?
- Mas, vamos imaginar que você pudesse trocar a lição de casa, a escola, por ficar mais tempo com seus amigos. Você ia gostar?
- Ah, eu ia, mas eu já vejo eles bastante.
- E você não queria brincar com eles mais vezes, se pudesse?
- Daí eu não vejo mais meus amigos da escola. E não é ruim, é só cansativo, mas depois a escola acaba, aí eu vou para casa, de fim de semana vou na casa da vovó, tomo sorvete... papai fala que tomar sorvete demais enjoa, e eu gosto de sorvete, não quero ficar enjoado de sorvete.
- Você falou que ficava cansado de fazer lição que você falou antes.
- Mas fazendo lição a gente aprende. Outro dia ensinaram para gente que tubarão é peixe e baleia e golfinho não é. E eu vou decorar a tabuada inteira, e não vou precisar usar a régua.
- Mas isso é chato, e a gente aprende para que depois?
- Tem coisa que eu não gosto de aprender, mas eu vou precisar para trabalhar quando eu crescer.
- E o que você quer ser quando crescer?
- Eu não sei ainda... vou procurar uma coisa que eu gosto bastante para fazer.
- Mas e se você não achar?
- Eu vou achar. Se não achar, vou continuar procurando.
- Mas menino, você pode não achar e acabar ficando nesse emprego para sempre.
- Ah... então tá bom!
- Como assim tá bom? Você vai ficar chateado, e fazer coisas que não quer fazer.
- Mas eu faço tudo o que eu quero! Eu brinco, tenho meus amigos, tenho minha irmã, o papai, a mamãe, o vovô e a vovó. Eu faço e aí eu me divirto. Não pode fazer isso?
Saulo olhou para o céu e ficou murmurando para si mesmo:
- Tantos anos, e a resposta, tão simples... o que eu fiz em todo esse tempo...
E aí o menino desce do balanço e fala com Saulo:
- Eu tenho que ir para casa, tchau tio!
Saulo acena para o menino:
- Tchau Saulo...
E lentamente Saulo acorda de volta ao divã do terapeuta. Desta vez, com lágrimas rolando em seu rosto.
- A resposta estava comigo o tempo todo...
Saulo acordou da regressão, mas Saulo já não estava mais em seu tempo.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A hipnose de João Augusto 2

João Augusto seguiu direto para o Pronto Socorro. Estava preocupado com o olho roxo que tinha recebido após levar um soco de um transeunte o qual tentou hipnotizar usando truques baratos de um livro. Em sua preocupação, não lhe passou pela cabeça que não havia nada a ser feito com relação ao possível hematoma e inchaço: o estrago já estava feito e o pobre clínico-geral não teria o que receitar ao rapaz.
Assim mesmo, João Augusto registrou seu problema na recepção e sentou-se numa cadeira no hall de entrada enquanto esperava pela consulta junto de outros pacientes. Passar o tempo em um ambiente hospitalar ou similar não costuma ser das experiências mais agradáveis: enquanto esperava, João Augusto observou alguns de seus colegas de espera: um casal de meia idade, o marido de camiseta regata e bermudas, provavelmente tomou algum susto em casa; um casal jovem com feições tensas, juntos com seu filho de colo, chorando de leve e tendo dificuldades para respirar. "É muito sofrimento por aqui, eu nunca trabalharia num lugar desses", pensou João Augusto, braços cruzados, com uma mão tapando o olho ferido, e o cotovelo apoiado no outro braço. No televisor pendurado, um programa feminino era exibido, mas ninguém prestava atenção.
Após alguns minutos, uma enfermeira os chamou para entrar em um corredor até a sala do clínico-geral, onde cada um esperou por ordem de chegada para serem atendidos. João Augusto sentou-se um pouco afastado dos outros pacientes. O desânimo era evidente em todos ali, de funcionários a pacientes. Tudo se resumiria a um simples momento deprimente.
Até que, virando um corredor, apareceu uma faxineira, lavando o chão. João Augusto olhou para ela durante um longo tempo. Era uma jovem de estatura média, por volta de vinte anos, mas o porte físico sugeria menos. Ela tinha um rosto muito bonito, embora exprimisse a mesma alegria de viver de todas as outras pessoas do Pronto Socorro. Tinha cabelos castanhos, armados em coque no topo da cabeça, usava luvas e botas amarelas, que faziam conjunto com o balde de rodinhas e o esfregão, e usava uma camiseta azul-marinho e calça jeans, que mesmo com sua silhueta muito magra, evidenciavam algumas curvas. João Augusto foi vendo seu interesse por aquela jovem aumentar até o ponto em que havia esquecido disso e passado a considerar que "um interesse fulminante" surgiu dele para com ela.
Enquanto ele a olhava silenciosamente, eis que a mulher o olhou de volta. João Augusto, assustado, rapidamente desviou o olhar para algum ponto da parede. Voltou a olhar para ela e percebeu que ela de vez em quando dava pequenas olhadas para ele enquanto continuava limpando o chão. João Augusto ficou maravilhado? Será possível que ela estaria interessada nele? Em um dia como outro qualquer, um infeliz soco no olho gerou uma série de eventos em seqüência que chegou até ao encontro de uma possível paquera, justamente ali no Pronto Socorro?
E eis que, naquele dia, finalmente uma pessoa sorriu naquele local. João Augusto sorria pensando por que justamente ele. Seria por causa do olho roxo? A faxineira, com tanto tempo convivendo com médicos e enfermeiras, desenvolveu um sentimento de empatia e compaixão e viu nele alguém ferido que ela desejava cuidar e tratar? Não, não podia ser. Ou estaria ele sem querer exercendo algum tipo de poder hipnótico? Afinal, seu olho roxo fazia com que as pessoas, especialmente as moças, olhassem diretamente para seu olho, criando uma conexão instantânea, afinal isso estava no livro. De repente, João Augusto lembrou-se daquele livro de hipnose, justamente o livro que o colocou em problemas em primeiro lugar e lhe rendeu o olho roxo. Poderia ele ajudar-lhe naquele momento, incentivando na garota, através de seu subconsciente, uma paixão irresistível por ele? João Augusto pensou que isso talvez não fosse muito ético, mas concluiu rápido que não havia problema algum, afinal ela demonstrou interesse por ele: ele viu como ela olhava para ele. João Augusto decidiu então puxar papo com a moça e conseguir a chance de um futuro encontro, sair dali com um número de telefone, ou mesmo acompanhá-la para uma conversa depois de seu turno.
Aí o clínico-geral chamou por João Augusto, que se dirigiu até a salinha. Realmente ele não podia fazer muita coisa, apenas fez um teste para verificar se a visão tinha sido prejudicada, receitou uma pomada e o dispensou. João Augusto ficou aliviado, pois assim seria mais rápido puxar conversa com a bela funcionária que havia lhe chamado atenção. Saiu da salinha, mas não a viu, ela provavelmente deve ter ido limpar outro lugar. Enquanto a procurava, pensava em como abordá-la e qual estratégia usar para produzir algum efeito hipnótico. Passando por outro corredor, próximo à sala de tratamento, João Augusto viu o casal com o filho pequeno sentado esperando para ser atendido ali e, do outro lado, reconheceu a bela moça. Juntou toda a coragem que havia sobrado e foi até ela, achou melhor conversar um pouco com ela antes para ver seu comportamento, uma idéia muito boa para evitar o que aconteceu antes, chegou próximo e abordou-a:
- Com licença, queria lhe fazer uma pergunta...
Ao virar-se, a moça rapidamente devolveu-lhe outra pergunta:
- Por um acaso você não é o filho da Dona Iraci?
João Augusto assustou-se: como ela sabia o nome de sua mãe?
- Sim.
- Ah, então é daí que eu te conheço: Você veio falar comela em casa uma vez, quando ela era babá da minha filha. Faz tanto tempo que não a vejo, mande um abraço para ela, viu? Qualquer dia desses eu ligo para ela.
- Ah, tá... tá bom...
João Augusto saiu de lá desolado. Nem o soco no olho havia doído tanto quanto aquele acontecimento. Infelizmente não há o que culpar João Augusto: as luvas amarelas do ofício impediram que João Augusto visse em seu dedo o anel de compromisso que usava, mas João Augusto realmente não se lembrou daquela jovem a qual havia encontrado apenas uma vez, há dois anos atrás, quando tinha ido até a casa dela e de seu marido para pedir à sua mãe dinheiro para sair com os amigos.
E João Augusto, ao lembrar-se de sua mãe, decidiu voltar para casa. O dia havia sido movimentado demais.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O guardador de carros

Armando tinha ambições na vida.
Quem chegava ali na praça do coreto, perto do Teatro Municipal, jamais imaginaria que um daqueles guardadores de carro tinha algum objetivo na vida, mas as pessoas não costumam reconhecer iguais entre aquelas pobres pessoas ali. E Armando não estava exatamente a passeio, "é só um trampo temporário", dizia ele, pelo menos até encontrar um emprego de verdade, um que lhe desse a certeza de um salário no final do mês.
Armando lembrava com carinho de seu último emprego como vendedor em uma loja de armarinhos. Armando era bastante dedicado ao serviço, atendendo bem às pessoas, e sempre aproveitando o tempo livre para reorganizar o estoque, ou fazer alguns reparos na loja, pegando algum material de construção que sobrou em casa, até mesmo comprando alguns materiais menores pagando do próprio bolso. O Seu Zeca era um ótimo empregador, e aos poucos foi reconhecendo o talento e a dedicação do rapaz. Costumava deixar a loja nas mãos de Armando no período da tarde, voltando apenas para o fechamento do dia, e Armando estava feliz, gostava do lugar, e tinha grandes esperanças de progredir ali. Sua dedicação certamente seria recompensada, e ele poderia ser efetivado no emprego após esse período de experiência, ter sua carteira assinada e com o progresso da loja conseguir um aumento.
"Talvez se eu não tivesse sido preso, eu ainda estaria lá", pensava enquanto olhava as entradas das ruas em busca de um carro prestes a estacionar ou algum cidadão aproximando-se de seu veículo para partir naquele meio de tarde, a praça estava bem movimentada. A prisão foi um grande mal-entendido, e aconteceu justamente no final do dia: Em um daqueles turnos da tarde em que o Seu Zeca não estava presente, Armando não conseguia abrir a gaveta da caixa registradora. Revirou a loja procurando pela chave da gaveta, pensou em ligar para o Seu Zeca para perguntar por ela, mas conforme chegavam os clientes Armando tinha pouco tempo para tomar uma atitude, senão perderia as vendas, e isso poderia prejudicá-lo, ele ainda estava no período de experiência. Então, ele tomou a decisão infeliz de guardar o dinheiro das vendas no próprio bolso. A chave não era encontrada em lugar algum, e Armando ia memorizando a quantia para não se perder na conta, quando o Seu Zeca voltasse, poderia explicar a situação toda. O problema é que o Seu Zeca voltou ao final do dia acompanhado por um amigo, o Guarda Nogueira. Não é que o Armando não tivesse se preocupado com a presença daquele policial, mas de alguma forma o Guarda Nogueira desconfiou de alguma coisa e o colocou na parede. Revistando-o, encontrou o dinheiro das vendas do dia: várias notas enroladas em bolos, cada bolo com um valor diferente. Armando tentou argumentar
- Eu não roubei, é que a gaveta do caixa estava fechada e eu não achava a chave, então coloquei no bolso...
E aí, Seu Zeca diz:
- Mas a chave da gaveta estava aqui, na gaveta de documentos, como sempre - e balançou o chaveiro na sua frente.
Armando não podia acreditar, ele tinha procurado naquela gaveta várias vezes e não encontrou aquela chave. Talvez não tivesse procurado direito, mas como explicar para os dois naquele momento onde todas as evidências iam contra ele? Triste, ele viu toda a confiança e todo esforço em garantir aquele emprego evaporar dos olhos de Seu Zeca, e não voltou para casa naquele dia, onde passou a pior noite de sua vida numa sala da delegacia onde foi denunciado, fichado e marcado como ladrão de um crime que não cometeu. Arrasado voltou para casa e não teve coragem de contar para ninguém da sua família o que aconteceu.
Ao se lembrar disso, uma lágrima rolou em seu rosto. Armando lembrava-se desse evento com tristeza e vergonha. Tratou logo de enxugar as lágrimas para que as pessoas não reparassem, mas ele não precisava se preocupar porque ninguém olhava para ele, todos ocupados demais cuidando de seus próprios problemas ou desviando do caminho para evitá-lo. E enquanto isso, Armando seguia ali, sentado em um dos bancos da praça, olhando com atenção para o movimento.
Porém, apesar desse evento traumático, Armando não iria deixar isso impedir sua busca por um emprego efetivo, de carteira assinada. Pediu a um amigo para fazer-lhe um currículo e após seu turno, tirava alguns do bolso, desdobrava-os e deixava em algumas lojas e escritórios, e após isso comprava algum salgado em um bar no caminho. Infelizmente não podia incluir o emprego na loja de armarinhos, Armando até mesmo evitava passar por ali. Mas não podia desistir, ele tinha que sobreviver, tinha que seguir em frente.
Enquanto esses pensamentos passavam pela cabeça de Armando, ele percebeu que um homem calvo, gordo, usando terno, se dirigia até seu carro. Armando levantou-se e foi apressado até ele, porém o homem estava andando com dificuldade. Quando Armando chegou, percebeu que ele respirava com força, e preocupado foi até ele dar uma ajuda a chegar ao automóvel:
- Tudo bem, senhor? Quer alguma coisa?
Chegaram até a porta do motorista, mas o homem nem conseguiu responder: desabou no chão, naquele espaço entre dois carros. Armando tentou segurá-lo, em vão, pelas laterais do corpo. No movimento de suas mãos ao tentar agarrar seu corpanzil rotundo, uma carteira caiu de seu bolso. Armando não conseguiu deixar de notar a carteira. Pegou-a, abriu para achar algum documento, e acabou vendo uma quantidade enorme de notas de alto valor, ele provavelmente deve ter sacado uma grande quantia do banco.
O olhar de Armando brilhou ao mesmo tempo em que seu coração se congelou. Muitos pensamentos passaram por sua cabeça ao mesmo tempo, nenhum deles fazendo qualquer sentido. Não eram pensamentos: eram emoções. Saiu correndo dali, no maior pique que havia dado em sua vida. Armando virou duas esquinas e acabou entrando em uma galeria comercial. Ali acalmou-se, e percebeu que a carteira do gordo de terno estava em suas mãos. Dali seguiu rapidamente para o banheiro público, ansioso que estava para ver o quanto de dinheiro ele havia conseguido.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Devaneios dialógicos, ou: crônica da falta de idéias.

Em uma hora qualquer, decidi começar a escrever. E ao digitar a primeira palavra, surgiu um personagem, e lhe pergunto:

- Quem é você?
- Sou o vazio.
- Vazio? Então é você que aparece quando quero criar alguma coisa?
- Às vezes sim. Aproveito para vir quando a procrastinação não está por aqui.
- Achei que vocês conspirassem juntos...
- Achou errado. A gente não se dá muito bem.
- Pra mim tava na cara que vocês tinham sido feitos um para o outro.
- Deixa para lá, é uma longa história...
- Por que você veio justamente agora, que eu estou precisando tanto criar alguma coisa?
- Na verdade eu vim para ver se reencontrava as idéias por aqui.
- Mas não tem nenhuma idéia aqui.
- Tenho vindo aqui direto para me encontrar com elas. Será que elas estão indo embora quando eu apareço?
- E só agora você percebeu, vazio?
- Nunca me passou pela idéia. Talvez seja até por isso. Mil perdões!
- Ah, tudo bem, a culpa é sua, mas normalmente eu não me incomodo com sua presença. Só me incomoda quando eu realmente estou precisando de uma idéia.
- Isso é típico de vocês. Os monges budistas nunca reclamam da minha presença. As pessoas que trabalham nas grandes indústrias me olham de cara feia, mas não falam nada. Já quem trabalha em área criativa vive gritando comigo e me culpando por tudo.
- E a culpa não é sua?
- Eu apenas estou andando por aqui e por ali. Estou por aqui agora, mas daqui a pouco posso estar em outro lugar.
- Mas e agora? Como faço para arrumar uma idéia com você aqui?
- Você está perguntando para mim como você faz para arrumar uma idéia? Eu procuro por elas em todo lugar e não as encontro, você as vê muito mais do que eu.
- Tem razão. Estou perdido... peraí...
- O que você pensou aí?
- Você nunca encontra as idéias, certo? Mesmo que você vá em todo lugar do mundo atrás delas, elas não estão.
- Sim.
- É que nem quando a escuridão foge da luz, certo?
- É, acho que sim...
- Isso está errado então! Você é a escuridão, enquanto as idéias são a luz. Você é que está fugindo delas!
- Como pode ser isso, se eu acabei de dizer que estou indo atrás delas?
- Você está escondendo alguma coisa de mim. Você é muito mais do que diz que é, você está me enganando!
- Quem é você para me julgar? Eu existo desde antes do mundo ser mundo! Eu não tenho culpa de nada.

Nisso chega um outro personagem em nosso diálogo. Eu pergunto:

- Quem é você?
- Oi. Cheguei um pouco atrasado, mas acho que dá para te ajudar ainda.
- Oi, mas... o que você quer dizer com isso?
- Vejo que você está conversando com o vazio, e acho que você cometeu alguns mal-entendidos... eu conheço o vazio há muito tempo e posso te garantir que é mudo, incapaz de falar. Você está colocando palavras na boca dele.
- E como que eu posso colocar palavras na boca dele?
- Pode ver que, enquanto estamos conversando, o vazio está ali no canto, quieto, sem reagir. O vazio não está a procura da idéia e nem tem nada a ver com a procrastinação. Quem gosta da procrastinação... é você.
- Como eu posso gostar, se eu vivo reclamando dela?
- Você reclama, mas aproveita toda a oportunidade de estar junto com ela. Quando algo dá errado, você joga a culpa nela e diz que não foi você. Me diga, uma coisa: você foi mimado quando criança?
- Não te interessa!
- Bom, mas voltando a falar do vazio, ele não se dá com ninguém. Quando as idéias aparecem, ele fica ali do lado e acaba indo embora, porque as idéias adoram andar juntas. Quando uma idéia aparece em um lugar, ela chama outras para ficar com ela, como em um piquenique. O vazio não gosta de lugares cheios.
- Tem razão. Cometi um grande erro realmente. Me desculpe por colocar palavras na sua boca, vazio... ué, cadê ele?
- Ele foi embora. Enquanto estávamos conversando, apareceram mais dois personagens por aqui. Aquela ali que tá chamando outras é uma idéia...
- Desculpa falar, mas aquela idéia ali é feia demais... e as outras são até pegáveis, mas...
- Foram as que apareceram. Aquele outro ali você até conhece, ele é primo da procrastinação. O nome dele é preguiça.
- Preguiça? Mas o que ele está fazendo aqui?
- Ele veio junto com a idéia, ela falou que se ele não viesse, ela não ficaria aqui.
- Agora que eu estou reparando... aqui tá ficando bem cheio.
- É o que costuma acontecer. Bom, já vou indo, mas antes eu queria te apresentar um amigo meu que você vai gostar, ele se chama conteúdo. Não ligue se ele parecer chato, ele é um grande amigo que sempre está pronto para ajudar.
- Mas você já vai? Fica aí...
- Eu não sou de ficar muito tempo, mas é só chamar que eu venho, não tem problema. Agora deixe-me ir que acho que a preguiça está querendo bater em mim...
- Mas você nem disse seu nome...
- Tem razão. Foi um prazer falar com você, meu nome é coerência.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Deus está vendo

Padre Albuquerque e Padre Azevedo chegaram ao hospital. Fazia uma tarde de céu azul e calor ameno da primavera. Ainda dentro do carro, acertaram uma última coisa:
- Padre Azevedo, te chamei aqui porque eu preciso de outra pessoa para fazer isso.
- Puxa padre, se soubesse que era para isso, eu já teria recusado...
- Por isso mesmo que eu não avisei. Não tem ninguém na minha igreja que possa fazer isso, e eu já estou acima do meu limite...
- Então, eu também não posso ajudar...
- Por favor, eu já estou em trezentos e cinquenta de média da semana...
- ... e eu estou com quatrocentos e vinte, Padre Albuquerque.
- O quê? Mas como você pode estar com uma média tão alta?
- É que tiveram jogos interescolares na minha sede, e eu fui o juiz da natação...
- Ué, mas era para você estar em retiro agora. O que aconteceu?
- Estou esperando a minha vez. Um outro padre teve que resgatar um rapaz que passou mal no vestiário...
- Tá, não precisa contar o resto, essas coisas acontecem... Vou lá fazer a função e você fica com os familiares então...
- Está bem. Quem são os familiares?
- São poucas pessoas: é a mulher e duas filhas.
- Ah... eu faço esse sacrifício. Procure fazer rápido e boa sorte, Padre Albuquerque.
- Para você também, Padre Azevedo

***

Os dois padres chegam até a sala de espera. Três mulheres vão até a dupla. A mais velha, por volta de quarenta anos, entra em diálogo com o Padre Albuquerque.
- Que bom que você veio, padre.
- Como ele está, filha?
- Ele está em coma. Pelo menos não está sofrendo muito...
- Não se preocupe. O câncer pode ser terrível, mas a fé é maior. Isso vai levar algum tempo, mas nós vamos conseguir salvá-lo.
- Graças a Deus, padre!
- Trouxe comigo o padre Azevedo para lhes fazer companhia enquanto administro. O monitor ficará desligado durante esse tempo.
Uma das moças pergunta:
- Mas padre, por que desligar o monitor? A gente quer vê-lo...
- Tudo a seu tempo, prometo que vocês ainda o verão. Fique com elas, Padre Azevedo.
Padre Azevedo acenou com a cabeça, olhar fixo no Padre Albuquerque. Enquanto isso, o Padre Albuquerque é acompanhado por um enfermeiro até a sala onde está o paciente.
- Ele já está desenganado, padre. Só está aqui para esperar a morte - disse o enfermeiro.
- Obrigado por me acompanhar, Israel. Poderia desligar o monitor para mim?
- Sim senhor - respondeu-lhe o enfermeiro. Com um toque de botão, o monitor que mantinha a imagem constante de Israel no sistema de video deixou de funcionar. Padre Albuquerque entrou na sala e fechou a porta.
Dentro da sala, deitado em uma cama, coberto por um lençol branco, estava o paciente, deitado com as mãos cerradas e uma certa rigidez nas feições, aparentemente por conta de tanto tempo sentindo dor. Padre Albuquerque então retira do bolso um tablet enrolado, um clipe parecido com prendedor de cabelos, levanta a cabeça do paciente, coloca o pequeno clipe na parte de trás de seu pescoço, e após sentar-se em uma cadeira ao lado da cama, aperta um botão no seu tablet.
O paciente desperta.
- Ahnn... onde estou?
- Bom dia, Jonas Stuart. - diz o padre - Lembra-se de mim? Sou o Padre Albuquerque, da sua paróquia. Faz tempo que não nos vemos.
- Oi... - Jonas cumprimentou, com uma certa dificuldade.
- Sua mulher me pediu para vir até aqui. Eu estou aqui por um motivo muito sério, Jonas.
- Qua... qual é? - Jonas tentava responder, mas falar estava difícil.
- Jonas, fique calmo, não se esforce muito, deixe que eu te explico a situação. Você não está mais na UTI, agora você está deitado numa cama individual em coma. Seu câncer está em um estado muito avançado e seu corpo está num processo irreversível.
- Mas... mas... não sinto dor alguma... e estou me sentindo bem... que estranho...
- O motivo de você estar se sentindo bem Jonas, é que eu coloquei atrás do seu pescoço um aparelho que estimula sua atividade cerebral ao mesmo tempo em que corta a comunicação com o resto do corpo e te dá uma descarga de serotonina, para manter sua mente lúcida e sem dores.
- Meu braço... não mexe...
- Seu corpo não se mexe porque o aparelho apenas estimula sua cabeça. A única coisa que podemos fazer é nos comunicar um com o outro.
- Eu... eu... vou morrer?
- Sim, você vai morrer, não há o que ser feito. Por isso eu estou aqui, Jonas. Eu não estou aqui para salvar o seu corpo. Estou aqui para salvar... a sua alma.
- Minha alma... alma não existe... saia daqui... - Jonas movia o maxilar de um lado para outro.
- Fique calmo, meu filho. Deixe a serotonina fazer seu efeito, vamos conversar calma e lucidamente. Você não pode fazer nada, seu pescoço não irá se mover. A única coisa que você pode fazer é conversar comigo.
- Covarde... o que é isso?
- Jonas, você ia sempre para a igreja, e sabe que existem sete sacramentos: batismo, crisma, confissão, eucaristia, matrimônio e unção dos enfermos. Todos os sacramentos são bem conhecidos pelos fiéis da igreja católica, mas a unção dos enfermos é o último e o menos conhecido dos sacramentos, pois é administrado para quem está prestes a falecer.
- Eu... me recuso... a receber... sou ateu...
- Eu sei, Jonas, e sua mulher está muito preocupada com isso. Mas existe uma parte em que todos os fiéis não sabem sobre a unção dos enfermos. Veja bem: a unção dos enfermos até muito tempo atrás era chamada de extrema-unção, pois apenas as pessoas à beira da morte a recebiam. Esse sacramento foi mudado porque isso dificulta muito a realização dele. Porém, O último Concílio feito pela igreja há oitenta anos atrás analisou a situação, e graças à tecnologia podemos administrá-la de uma forma muito melhor do que jamais poderíamos ter feito em outra época.
- Como... como assim?
- Antigamente a única coisa que poderia ser feita era preparar a alma para o outro mundo, sem nenhum tipo de ajuda real. Hoje em dia, temos drones de segurança em todos os cantos, cartões de segurança, sensores de calor, telemetria de ondas mentais, e já podemos ter acesso a tudo o que uma pessoa fez em toda sua vida, incluindo seus pensamentos. A maior conquista do último Concílio foi que pudemos desenvolver um sistema, chamado de Onisciente, que capta os sinais dos vários sistemas e drones de segurança para fazer um arquivo vitalício de tudo o que as pessoas fizeram, pensaram e sonharam durante a vida.
- Isso é... nojento... é para... você vai... me julgar?
- Quem julga é Deus. O que nós vamos fazer aqui Jonas, é um levantamento de todos os pecados que você cometeu em sua vida, para assim você poder se arrepender, aceitar Deus como o único salvador e poder enfrentar o julgamento de Deus ciente de tudo que você fez.
- Covarde...
Padre Albuquerque começa a passar o dedo indicador em seu tablet:
- Estou aqui fazendo o levantamento de sua vida agora... ô meu filho, você pecou muito... desde a infância... o seu caso é complicado...
- Todo... mundo... peca... em pensamento...
- E Deus está vendo tudo. Não foram só seus pensamentos, Jonas: você pecou muito nas atitudes também. Aos seis anos você batia em um vizinho que era menor que você...
- Eu era... criança...
- ... e esse vizinho, o Peter, viveu com medo de todo mundo. Depois de conviver com você, ele foi para o serviço militar, pegou gosto por armas e acabou matando a esposa e seus três filhos e se suicidou aos vinte e sete anos.
- Isso é... antigo... eu não... posso... ter causado... isso...
- Você fez isso intencionalmente, Jonas. Você sabia que isso era errado, e fez mesmo assim.
- Como... pode... saber?
- Os sistemas podem ver e interpretar tudo.
- Isso... não prova... Deus...
- Jonas,se eu tenho a sua vida inteira e a de todas as pessoas que você conheceu na minha mão, imagine se Deus não teria.
- Deus... não... existe...
- Você diz isso porque seu pai foi morto quando você era pequeno e sua mãe sofreu para te criar? Ou foi porque a babá que você tinha aos nove anos abusou de você?
Jonas começou a chorar.
- A vida não é fácil para ninguém, Jonas, ela errou, mas nem todo mundo fez as mesmas escolhas que você. Você se casou e teve filhos. Você sente desejo pelas sua filha mais nova, mas nunca abusou dela que nem fez com a mais velha. Você é tão capaz de se arrepender agora quanto se arrependeu no deslize daquela única vez.
- Deus... nunca... me per...doaria...
- Deus conhece a natureza humana e suas falhas, Jonas. Deus se fez homem através de seu único filho para carregar os erros do ser humano e permitir que todos possam ser perdoados e encontrarem a salvação. Seus pensamentos e suas atitudes podem ser perdoados, mas você precisa se perdoar, meu filho.
Jonas falou algo imcompreensível.
- O caminho do pecado é inevitável para todos nós, a única coisa que podemos fazer é reconhecer isso e buscar. Na sua vida, você cometeu muitos pecados, alguns terríveis, outros que você nem se lembra mais, e o seu pensamento sempre esteve tomado pelas idéias mais sórdidas e hereges, mas você também fez o bem. Você ajudou o seu amigo Murilo no momento em que ele mais precisava, e nunca contou isso para ninguém. Você apresentou a Cássia para o João, e eles tiveram uma história feliz juntos. Se não fosse a sua indicação, o Régis não seria contratado pelo laboratório e não teria salvado tantas vidas no mundo com suas descobertas médicas.
- Eu... não... mereço...
- Deus vai decidir. Deixe isso nas mãos dele, e enquanto isso, aproveite seus últimos momentos para tirar esse peso das suas costas e se perdoe, Jonas.

***

Após terem visto o video com a mensagem de Jonas para sua família e de uma oração em grupo, os dois padres se despediram e voltaram para o carro. A luz amarelada do pôr-do-sol adentrava o veículo. Os dois permaneciam calados desde então, até que o Padre Azevedo resolveu romper o silêncio:
- Padre, você não me contou, e eu não perguntei também, mas... por que sua média está tão alta?
- Padre Azevedo, normalmente essas unções costumam aumentar a média, mas é que lá na minha sede eu também convivo e cuido do Padre Massinha.
- Ah sim, ele está com uns cento e seis anos agora, não?
- Cento e cinco. Ele é muito velho, e fica falando dos tempos antigos: sempre reclama que sente saudade do tempo em que os pássaros viviam na cidade, que sente falta do canto dos pássaros, das cigarras no verão, que agora só tem cercas sônicas e zumbido de drones para todo o lado...
- Tá, mas o que que tem?
- É que ele vive falando que é bobagem isso de calcular a média de pecados que a gente comete, de fazer retiro e ficar rezando um rosário inteiro para diminuir a média...
- Você sabe que ele só pode estar provocando.
- É, mas ele me faz pensar numas coisas...
- Não liga para ele, ele deve falar porque ele não vai receber essa unção, por ser de antes da época do Onisciente.
- Tem isso, mas todo pecado é absoluto. Um pecado é um pecado, e pecar menos ou manter média baixa não nos torna melhores do que as outras pessoas.
- É por isso que nós não trabalhamos, Padre Albuquerque: o que nós temos é uma missão. O Padre Massinha não deve estar mais tranqüilo do que a gente por não pensar assim. Ele deve estar mais preocupado do que nós, por não imaginar o que lhe espera no julgamento.
- Mas nem nós sabemos. Por mais que a Igreja tenha chegado tão longe para salvar a todos, eu estou achando que no final das contas é tudo um engodo. Eu não me sinto feliz por salvar uma alma como hoje, isso apenas me deixa incomodado em saber que não posso fazer nada além disso. E se estivermos errados?
- Por favor, não tente me convencer. Se eu ficar com mais pecados... no final das contas, se você estiver certo que podemos fazer?
Padre Albuquerque respirou e disse:
- Só podemos esperar ser capazes de nos arrepender de coração quando nosso dia chegar.
Os dois olham para o horizonte, o céu azul, ouvindo um leve zumbido, mas não há drone visível.