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domingo, 11 de agosto de 2013

O homem que salvou o Brasil

Marinho Correa nasceu para ser político. O melhor de todos.
Nunca teve muita expressão na vida: sempre se dedicou aos trabalhos mais simples. Nunca se preocupou com coisas como carreira, dinheiro, futuro. Para ele, tudo o que importava estava ali ao alcance dele: sua esposa, seus filhos, seus amigos, seu jogo de futebol, seu churrasco de fim de semana. Não era fácil o dia-a-dia do trabalho na fundição mas ele tinha tudo o que queria e precisava.
Todos ali gostavam muito dele. Um dos que mais gostava era o chefe o sindicato, o Pereira, que viu nele o sujeito ideal para alavancar sua campanha política para deputado federal. Pereira era bem conhecido, mas não era uma unanimidade entre os metalúrgicos. Pereira imaginou que a candidatura de Marinho teria potencial para atrair boa parte desses votos para aumentar a participação da legenda e colocá-lo diretamente no caminho do Planalto Central.
No início Marinho não gostou muito da idéia: ele, que nunca falou em público, imaginou que acabaria sendo visto como uma piada no meio de tudo isso. Ao comentar com os amigos durante um final de semana, ouviu tantas mensagens de apoio e tantos elogios que o fizeram acabar aceitando. Pelo menos ajudaria a classe e, quem sabe, poderia até ganhar.
Filiou-se ao partido, pagou a inscrição, e vestiu seu único terno para a gravação do programa de televisão. Enfrentou fila com os outros candidatos, e a cada minuto, a cada hora que passava, mais nervoso Marinho ficava. Quando chegou a hora para gravar sua aparição na TV. sentou-se na vadeira, o diretor disse "Gravando", e Marinho ficou paralisado, lembrou-se que nunca tinha feito nada parecido, deu-lhe um medo enorme, olhava para as pessoas em volta, todas sérias, quietas, esperando para ouvir ele falar, e nessa expectativa, ele ficou com medo de pedir para refazer. As pessoas ficaram cada vez mais apreensivas, Marinho, gelado, petrificado, começou a se esforçar para lembrar-se de qualquer coisa, pelo menos para arrumar uma desculpa para dizer ali. De repente, juntou toda a coragem que tinha guardado não se sabe onde, olhou para a câmera, e falou a frase que seu pai sempre lhe disse:
- Melhor ficar calado do que falar bobagem.
O diretor disse "Corta", a ajudante tirou Marinho da cadeira, e logo outro candidato foi chamado para ocupar seu lugar. Marinho ficou arrasado, tremia de nervoso, logo lhe trouxeram uma água para se acalmar, mas não foi o bastante, tiveram que levá-lo para o hospital com medo de que lhe acontecesse alguma coisa. Por sorte não houve nada, mas Marinho ficou triste por não ter ajudado seus amigos, principalmente o Pereira, que tanto precisaria de votos para aquela campanha. Graças a isso, a equipe de produção não teve novas imagens para fazer de Marinho e acabou colocando o que foi gravado mesmo, com a longa pausa antes para caber no tempo exigido para todos os candidatos.
Com o início da campanha na televisão, o impensável aconteceu: sua propaganda acabou tendo um enorme sucesso entre a população. Naquele ano, tão dominado por candidatos "engraçadinhos", que não tinham nada para dizer, seu silêncio e sua frase final acabaram representando para as pessoas a esperança de um político melhor, alguém que faça mais e fale menos. Entrevistas foram pedidas com Marinho, que sempre recusava, não saía mais de casa para fazer campanha, e seu silêncio acabou se tornando sua marca registrada. Na falta da opinião dele, os repórteres acabaram indo atrás de seus amigos e familiares, que eram só elogios para ele, um verdadeiro homem do povo, trabalhador, não falava mal de ninguém. Ao final da eleição, Marinho Correa foi eleito com a maior quantidade de votos de seu partido, com uma das maiores votações inclusive de todo o país. Pereira, com seus votos, acabou ajudando o partido a garantir a quota de votos para colocar Marinho no Congresso Nacional. A família fez festa, todos os amigos celebraram muito, exceto Pereira, que sentindo-se traído, não quis mais nada com ele. Marinho estava mais feliz do que nunca, mas uma preocupação lhe afligia toda noite: ele não fez absolutamente nada e acabou ganhando para um cargo em que se precisa fazer muito. Marinho tinha certeza de que acabaria decepcionando a todo mundo que botou fé nele.
E foi o que acabou acontecendo: depois de tomar posse, Marinho Correa mudou-se para Brasília e ficou afastado dos amigos. Teve que trancar o emprego na metalúrgica, e nas poucas vezes que foi para sua terra, o ambiente ficava tumultuado demais e não conseguia ter a privacidade e a normalidade de antes. Além disso, na Câmara, nunca discursava, não apresentava projeto de lei. Também não conhecia os outros colegas deputados, que quase nunca paravam na cidade, estavam sempre indo fazer atividades políticas em outros lugares.
Isso foi acontecendo durante meses. A impessoalidade das relações, as sessões demoradas repletas de discursos belos porém longos e redundante e os poucos dias de real trabalho o fizeram se decepcionar com a política, e não ajudava em nada a má-fama dos políticos. Ouviu uma vez no Plenário, vindo de um militante revoltado, que aquilo ali só servia para ganhar dinheiro, que não adiantava nada criar leis para o povo se nem eles as cumpriam, e que aquilo não era nada além de férias prolongadas e muito bem remuneradas.
Com isso, Marinho Correa sentiu-se tão sozinho, ignorado e odiado. Nunca foi o que ele quis em primeiro lugar. Antes ele tinha tudo o que queria e precisava: tinha seus amigos, tinha a alegria de todas as pessoas com ele, e agora era um político sem amigos, sendo chamado de ladrão enquanto nunca roubou na vida, sendo um inútil para ele e para o país. Talvez ele só não tenha ruído de vez porque tinha sua família com ele, mas os filhos estavam distantes, sempre ocupados com algum brinquedo novo que podiam comprar, sua esposa sentia falta dele e acabava compensando isso nas lojas das galerias comerciais. Parecia que sua felicidade tinha chegado ao fim.
Foi quando Marinho Correa recebeu um telefonema. Com muita má-vontade ele foi atender, provavelmente era o assessor lhe informando de alguma coisa urgente para o dia seguinte. Quando atendeu, Marinho assustou-se ao reconhecer do outro lado a voz de Pereira, seu antigo aliado. Marinho queria se desculpar com ele, mas Pereira pediu para que Marinho não dissesse nada, apenas ouvisse o que ele tinha a dizer: Pereira passou muito tempo chateado com a derrota que recebeu e ficou pensando muito no que tinha feito de errado, mas ele não tinha feito nada. Começou a perceber que as pessoas que lhe visitavam no sindicato estavam muito felizes com a eleição do Marinho, que eles torciam muito pelo sucesso dele e queriam que ele fizesse algo de bom pelo país porque elas o conheciam e sabiam que ele não as desapontaria, afinal, ele sempre foi um deles e eles conheciam muito bem. Marinho conquistou na vida a confiança daquele monte de gente, com suas atitudes, sua humildade, e Pereira viu que Marinho era muito melhor do que ele. Mas nas últimas semanas a opinião estava mudando. A desesperança no rosto dos antigos colegas estava ficando mais evidente, as pessoas viam que Marinho se afastou delas, nem para dar alguma satisfação de algo, e o pior: estavam começando a pensar que Marinho tinha se corrompido e passar a não acreditar mais na política.
Aí então, sem agüentar mais ouvir, Marinho desabafou: contou de toda sua decepção, falou da falta que sentia de todo mundo, que queria muito voltar a ter a vida de antes e que iria renunciar para que Pereira assumisse, como suplente, o lugar dele. Aí então Pereira interrompeu-o e disse NÃO! As pessoas confiaram seu voto em Marinho Correa, que ele não estava ali por causa dele mesmo, ele estava ali para fazer algo por todo mundo a quem ele sempre foi generoso e sempre lhe quiseram bem, política é um sacerdócio e que ele não aceitaria receber o cargo de alguém que não fez a diferença. Antes que Marinho pudesse dizer alguma coisa, Pereira desligou.
Marinho não saberia dizer se a ligação com Pereira terminou boa ou ruim, se estava bêbado quando ligou ou realmente pensou em dizer tudo aquilo, o fato é que aquela ligação lhe trouxe o passado que ele tanto queria sentir, lhe mostrou o tempo presente do qual tentava fugir e apontou o futuro que ele iria seguir. No dia seguinte, Marinho Correa acordou mudado. Abraçou a família como há muito não fazia e chegou ao Congresso pronto para fazer algo que, como ele disse àquela vez, iria mudar o Brasil.
Passou semanas lendo sobre Projetos de Lei. Fez vários rascunhos de idéias, mas a maioria das idéias que ele tinha já existiam, só não eram praticadas. Ao pesquisar certos livros, soube que muitos dos artigos da constituição acabam não entrando em vigor por uma série de desculpas, a principal delas é que não existe lei que as regule. Ao saber disso, Marinho teve uma idéia instantânea, e que veio tão pronta em sua cabeça que pegou ele mesmo o computador e passou a redigir o projeto de imediato. Ao terminar, pediu para que o assessor a corrigisse, e quando ele passou a ler o projeto, seus olhos foram se abrindo, ele olhou para o deputado com cara de assustado, voltou a corrigir o mais rapidamente que pôde, formatou o texto do projeto e lhe entregou em mãos as cópias impressas, que Marinho sem interromper seu caminho entregou para protocolar e incluir na pauta. Ao entregar, não demorou muito, Marinho foi informado que a presidência queria ouvir explicações sobre seu projeto já na semana seguinte. Marinho nunca havia discursado antes nem em jantar do sindicato, quanto mais no plenário mais importante do país, mas isso não lhe abateu. Marinho foi para casa, teve um jantar normal em família e foi dormir como se fosse um dia como outro qualquer.
Na sessão seguinte, já preparado, Marinho saiu de sua cadeira de deputado e seguiu até o plenário da Câmara dos Deputados, onde o presidente lhe deu permissão para falar. Ali, sem gaguejar, sem tremer, sem se calar, Marinho Correa explicou para todos os presentes a essência de seu projeto de lei:
- Vossa Excelência, ilustres deputados e deputadas, pessoas que nos assistem, copeiros e demais funcionários, estou aqui para explicar o porquê de ter feito esse projeto que apresentei. Na minha terra natal, eu não tinha uma vida muito fácil, precisava trabalhar dez horas por dia, mas era o bastante para mim. Ganhava uma boa quantia para pagar as contas de casa, sustentar minha mulher, meus dois filhos, o cachorro, e sobrava para comprar algum presentinho, poder sair com os amigos, ver um jogo de futebol, eu tinha uma vida feliz. Mas tinha muitos amigos, conhecidos, familiares, que não têm a vida que eu tinha: gente que precisa de dois empregos, que tem filho ou algum parente doente, gente cheia de dívidas, sempre precisando de algo mais, aí não tem como ter carro, precisa pegar ônibus que tá caro e não é bom, precisa pegar táxi que é muito caro, vai atrás de saúde e não tem como pagar, o convênio da firma não aceita aquele médico que pode resolver o problema, aí precisa ir no SUS, que é mal equipado, tem fila grande, e é muito sofrimento, os remédios também são muito caros, acaba não sobrando grana para coisa de emergência: cai uma chuva, alaga a casa toda e não tem como comprar móvies novos, isso quando não é assaltado por aí, a violência está muito grande. Quem é rico pode se cuidar melhor, mas as outras pessoas não, elas dependem de que o Brasil pode fazer por elas. Não no sentido de dar dinheiro, mas de fazer com que as coisas funcionem. No Brasil muita coisa não funciona, os serviços são mal-ajeitados, há muita roubalheira, corrupção. Quando fui eleito, quem votou em mim queria acreditar que eu faria algo pelas pessoas, aí quando me disseram isso, fui atrás de criar alguma lei para melhorar alguma coisa, tive várias idéias. Mas aí, quando eu as apresentava, meu assessor dizia que essas leis já existiam, estavam todas publicadas, todas aí prontas para serem cumpridas, e de alguma forma não eram. Também descobri que existiam duas, três leis iguaizinhas, para fazer com que a lei seja cumprida. Isso acaba fazendo o Brasil perder muito tempo e dinheiro e funciona pouco. Então foi por isso que pensei nesse projeto de lei que determinará que todas as leis no Brasil devam ser cumpridas.
Silêncio geral. Os deputados entreolhavam-se, alguns perguntando para alguns outros se haviam escutado direito o que Marinho disse. Marinho continuou:
- O país terá grandes vantagens com isso: determinando-se que todas as pessoas e empresas do país, incluindo o governo, passem a cumprir as leis que já existem para beneficiar a todos nós, e que as punições a quem não cumpre sejam efetivadas, teremos uma melhor qualidade de vida, gastaremos muito menos dinheiro com reclamações, que prejudicam o bom funcionamento das instituições, os juízes terão muito menos casos para serem julgados, podendo dar atenção a casos realmente importantes, e o mais importante de tudo isso: teremos cidadãos melhores, porque todos, ricos, classe média, pobres, dividiremos a responsabilidade das coisas entre nós, veremos que somos parte de um país igual onde todos são tratados com igualdade, e por termos uma vida muito melhor, seremos mais unidos, seremos mais brasileiros. Muito obrigado a todos.
Marinho saiu do plenário satisfeito. Enquanto a platéia que assistia à sessão aplaudia, um burburinho se espalhava por entre os parlamentares. O presidente da Câmara pediu silêncio aos presentes e rapidamente a sessão se encheu de inscrições.
Infelizmente para Marinho o seu projeto foi muito criticado pelos deputados. O líder do governo criticou Marinho pela ofensa, ao sugerir que o governo não está fazendo o que deveria. O líder da oposição chamou o projeto de um "disparate", e o acusou de estar fazendo de bobo todos os políticos do país. O líder das minorias declarou que não tinha conhecimento desse projeto, mas que se lhe fosse apresentado, não o apoiaria, além de sugerir que o mandato do deputado fosse cassado por quebra de decoro parlamentar.
Chegaram até a apresentar o pedido de cassação ao Congresso, porém ele logo foi arquivado devido ao imenso apoio popular ao projeto. Telejornais exibiram o discurso de Marinho em seus telejornais, ocorreram passeatas em todo o país pedindo pela aprovação do projeto: as pessoas viram nessa lei o esforço real de um homem do povo em quer vero país finalmente dar certo, e a pressão popular fez com que o projeto fosse aprovado em todas as comissões e finalmente votado favoravelmente por Câmara e Senado, com poucos votos contra. No momento em que o presidente do Brasil assinou a lei, Marinho Correa estava lá com sua família, com Pereira, e seus amigos, feliz como sempre fora antes, e realizado como nunca sonhou que seria.