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domingo, 11 de agosto de 2013

O homem que salvou o Brasil

Marinho Correa nasceu para ser político. O melhor de todos.
Nunca teve muita expressão na vida: sempre se dedicou aos trabalhos mais simples. Nunca se preocupou com coisas como carreira, dinheiro, futuro. Para ele, tudo o que importava estava ali ao alcance dele: sua esposa, seus filhos, seus amigos, seu jogo de futebol, seu churrasco de fim de semana. Não era fácil o dia-a-dia do trabalho na fundição mas ele tinha tudo o que queria e precisava.
Todos ali gostavam muito dele. Um dos que mais gostava era o chefe o sindicato, o Pereira, que viu nele o sujeito ideal para alavancar sua campanha política para deputado federal. Pereira era bem conhecido, mas não era uma unanimidade entre os metalúrgicos. Pereira imaginou que a candidatura de Marinho teria potencial para atrair boa parte desses votos para aumentar a participação da legenda e colocá-lo diretamente no caminho do Planalto Central.
No início Marinho não gostou muito da idéia: ele, que nunca falou em público, imaginou que acabaria sendo visto como uma piada no meio de tudo isso. Ao comentar com os amigos durante um final de semana, ouviu tantas mensagens de apoio e tantos elogios que o fizeram acabar aceitando. Pelo menos ajudaria a classe e, quem sabe, poderia até ganhar.
Filiou-se ao partido, pagou a inscrição, e vestiu seu único terno para a gravação do programa de televisão. Enfrentou fila com os outros candidatos, e a cada minuto, a cada hora que passava, mais nervoso Marinho ficava. Quando chegou a hora para gravar sua aparição na TV. sentou-se na vadeira, o diretor disse "Gravando", e Marinho ficou paralisado, lembrou-se que nunca tinha feito nada parecido, deu-lhe um medo enorme, olhava para as pessoas em volta, todas sérias, quietas, esperando para ouvir ele falar, e nessa expectativa, ele ficou com medo de pedir para refazer. As pessoas ficaram cada vez mais apreensivas, Marinho, gelado, petrificado, começou a se esforçar para lembrar-se de qualquer coisa, pelo menos para arrumar uma desculpa para dizer ali. De repente, juntou toda a coragem que tinha guardado não se sabe onde, olhou para a câmera, e falou a frase que seu pai sempre lhe disse:
- Melhor ficar calado do que falar bobagem.
O diretor disse "Corta", a ajudante tirou Marinho da cadeira, e logo outro candidato foi chamado para ocupar seu lugar. Marinho ficou arrasado, tremia de nervoso, logo lhe trouxeram uma água para se acalmar, mas não foi o bastante, tiveram que levá-lo para o hospital com medo de que lhe acontecesse alguma coisa. Por sorte não houve nada, mas Marinho ficou triste por não ter ajudado seus amigos, principalmente o Pereira, que tanto precisaria de votos para aquela campanha. Graças a isso, a equipe de produção não teve novas imagens para fazer de Marinho e acabou colocando o que foi gravado mesmo, com a longa pausa antes para caber no tempo exigido para todos os candidatos.
Com o início da campanha na televisão, o impensável aconteceu: sua propaganda acabou tendo um enorme sucesso entre a população. Naquele ano, tão dominado por candidatos "engraçadinhos", que não tinham nada para dizer, seu silêncio e sua frase final acabaram representando para as pessoas a esperança de um político melhor, alguém que faça mais e fale menos. Entrevistas foram pedidas com Marinho, que sempre recusava, não saía mais de casa para fazer campanha, e seu silêncio acabou se tornando sua marca registrada. Na falta da opinião dele, os repórteres acabaram indo atrás de seus amigos e familiares, que eram só elogios para ele, um verdadeiro homem do povo, trabalhador, não falava mal de ninguém. Ao final da eleição, Marinho Correa foi eleito com a maior quantidade de votos de seu partido, com uma das maiores votações inclusive de todo o país. Pereira, com seus votos, acabou ajudando o partido a garantir a quota de votos para colocar Marinho no Congresso Nacional. A família fez festa, todos os amigos celebraram muito, exceto Pereira, que sentindo-se traído, não quis mais nada com ele. Marinho estava mais feliz do que nunca, mas uma preocupação lhe afligia toda noite: ele não fez absolutamente nada e acabou ganhando para um cargo em que se precisa fazer muito. Marinho tinha certeza de que acabaria decepcionando a todo mundo que botou fé nele.
E foi o que acabou acontecendo: depois de tomar posse, Marinho Correa mudou-se para Brasília e ficou afastado dos amigos. Teve que trancar o emprego na metalúrgica, e nas poucas vezes que foi para sua terra, o ambiente ficava tumultuado demais e não conseguia ter a privacidade e a normalidade de antes. Além disso, na Câmara, nunca discursava, não apresentava projeto de lei. Também não conhecia os outros colegas deputados, que quase nunca paravam na cidade, estavam sempre indo fazer atividades políticas em outros lugares.
Isso foi acontecendo durante meses. A impessoalidade das relações, as sessões demoradas repletas de discursos belos porém longos e redundante e os poucos dias de real trabalho o fizeram se decepcionar com a política, e não ajudava em nada a má-fama dos políticos. Ouviu uma vez no Plenário, vindo de um militante revoltado, que aquilo ali só servia para ganhar dinheiro, que não adiantava nada criar leis para o povo se nem eles as cumpriam, e que aquilo não era nada além de férias prolongadas e muito bem remuneradas.
Com isso, Marinho Correa sentiu-se tão sozinho, ignorado e odiado. Nunca foi o que ele quis em primeiro lugar. Antes ele tinha tudo o que queria e precisava: tinha seus amigos, tinha a alegria de todas as pessoas com ele, e agora era um político sem amigos, sendo chamado de ladrão enquanto nunca roubou na vida, sendo um inútil para ele e para o país. Talvez ele só não tenha ruído de vez porque tinha sua família com ele, mas os filhos estavam distantes, sempre ocupados com algum brinquedo novo que podiam comprar, sua esposa sentia falta dele e acabava compensando isso nas lojas das galerias comerciais. Parecia que sua felicidade tinha chegado ao fim.
Foi quando Marinho Correa recebeu um telefonema. Com muita má-vontade ele foi atender, provavelmente era o assessor lhe informando de alguma coisa urgente para o dia seguinte. Quando atendeu, Marinho assustou-se ao reconhecer do outro lado a voz de Pereira, seu antigo aliado. Marinho queria se desculpar com ele, mas Pereira pediu para que Marinho não dissesse nada, apenas ouvisse o que ele tinha a dizer: Pereira passou muito tempo chateado com a derrota que recebeu e ficou pensando muito no que tinha feito de errado, mas ele não tinha feito nada. Começou a perceber que as pessoas que lhe visitavam no sindicato estavam muito felizes com a eleição do Marinho, que eles torciam muito pelo sucesso dele e queriam que ele fizesse algo de bom pelo país porque elas o conheciam e sabiam que ele não as desapontaria, afinal, ele sempre foi um deles e eles conheciam muito bem. Marinho conquistou na vida a confiança daquele monte de gente, com suas atitudes, sua humildade, e Pereira viu que Marinho era muito melhor do que ele. Mas nas últimas semanas a opinião estava mudando. A desesperança no rosto dos antigos colegas estava ficando mais evidente, as pessoas viam que Marinho se afastou delas, nem para dar alguma satisfação de algo, e o pior: estavam começando a pensar que Marinho tinha se corrompido e passar a não acreditar mais na política.
Aí então, sem agüentar mais ouvir, Marinho desabafou: contou de toda sua decepção, falou da falta que sentia de todo mundo, que queria muito voltar a ter a vida de antes e que iria renunciar para que Pereira assumisse, como suplente, o lugar dele. Aí então Pereira interrompeu-o e disse NÃO! As pessoas confiaram seu voto em Marinho Correa, que ele não estava ali por causa dele mesmo, ele estava ali para fazer algo por todo mundo a quem ele sempre foi generoso e sempre lhe quiseram bem, política é um sacerdócio e que ele não aceitaria receber o cargo de alguém que não fez a diferença. Antes que Marinho pudesse dizer alguma coisa, Pereira desligou.
Marinho não saberia dizer se a ligação com Pereira terminou boa ou ruim, se estava bêbado quando ligou ou realmente pensou em dizer tudo aquilo, o fato é que aquela ligação lhe trouxe o passado que ele tanto queria sentir, lhe mostrou o tempo presente do qual tentava fugir e apontou o futuro que ele iria seguir. No dia seguinte, Marinho Correa acordou mudado. Abraçou a família como há muito não fazia e chegou ao Congresso pronto para fazer algo que, como ele disse àquela vez, iria mudar o Brasil.
Passou semanas lendo sobre Projetos de Lei. Fez vários rascunhos de idéias, mas a maioria das idéias que ele tinha já existiam, só não eram praticadas. Ao pesquisar certos livros, soube que muitos dos artigos da constituição acabam não entrando em vigor por uma série de desculpas, a principal delas é que não existe lei que as regule. Ao saber disso, Marinho teve uma idéia instantânea, e que veio tão pronta em sua cabeça que pegou ele mesmo o computador e passou a redigir o projeto de imediato. Ao terminar, pediu para que o assessor a corrigisse, e quando ele passou a ler o projeto, seus olhos foram se abrindo, ele olhou para o deputado com cara de assustado, voltou a corrigir o mais rapidamente que pôde, formatou o texto do projeto e lhe entregou em mãos as cópias impressas, que Marinho sem interromper seu caminho entregou para protocolar e incluir na pauta. Ao entregar, não demorou muito, Marinho foi informado que a presidência queria ouvir explicações sobre seu projeto já na semana seguinte. Marinho nunca havia discursado antes nem em jantar do sindicato, quanto mais no plenário mais importante do país, mas isso não lhe abateu. Marinho foi para casa, teve um jantar normal em família e foi dormir como se fosse um dia como outro qualquer.
Na sessão seguinte, já preparado, Marinho saiu de sua cadeira de deputado e seguiu até o plenário da Câmara dos Deputados, onde o presidente lhe deu permissão para falar. Ali, sem gaguejar, sem tremer, sem se calar, Marinho Correa explicou para todos os presentes a essência de seu projeto de lei:
- Vossa Excelência, ilustres deputados e deputadas, pessoas que nos assistem, copeiros e demais funcionários, estou aqui para explicar o porquê de ter feito esse projeto que apresentei. Na minha terra natal, eu não tinha uma vida muito fácil, precisava trabalhar dez horas por dia, mas era o bastante para mim. Ganhava uma boa quantia para pagar as contas de casa, sustentar minha mulher, meus dois filhos, o cachorro, e sobrava para comprar algum presentinho, poder sair com os amigos, ver um jogo de futebol, eu tinha uma vida feliz. Mas tinha muitos amigos, conhecidos, familiares, que não têm a vida que eu tinha: gente que precisa de dois empregos, que tem filho ou algum parente doente, gente cheia de dívidas, sempre precisando de algo mais, aí não tem como ter carro, precisa pegar ônibus que tá caro e não é bom, precisa pegar táxi que é muito caro, vai atrás de saúde e não tem como pagar, o convênio da firma não aceita aquele médico que pode resolver o problema, aí precisa ir no SUS, que é mal equipado, tem fila grande, e é muito sofrimento, os remédios também são muito caros, acaba não sobrando grana para coisa de emergência: cai uma chuva, alaga a casa toda e não tem como comprar móvies novos, isso quando não é assaltado por aí, a violência está muito grande. Quem é rico pode se cuidar melhor, mas as outras pessoas não, elas dependem de que o Brasil pode fazer por elas. Não no sentido de dar dinheiro, mas de fazer com que as coisas funcionem. No Brasil muita coisa não funciona, os serviços são mal-ajeitados, há muita roubalheira, corrupção. Quando fui eleito, quem votou em mim queria acreditar que eu faria algo pelas pessoas, aí quando me disseram isso, fui atrás de criar alguma lei para melhorar alguma coisa, tive várias idéias. Mas aí, quando eu as apresentava, meu assessor dizia que essas leis já existiam, estavam todas publicadas, todas aí prontas para serem cumpridas, e de alguma forma não eram. Também descobri que existiam duas, três leis iguaizinhas, para fazer com que a lei seja cumprida. Isso acaba fazendo o Brasil perder muito tempo e dinheiro e funciona pouco. Então foi por isso que pensei nesse projeto de lei que determinará que todas as leis no Brasil devam ser cumpridas.
Silêncio geral. Os deputados entreolhavam-se, alguns perguntando para alguns outros se haviam escutado direito o que Marinho disse. Marinho continuou:
- O país terá grandes vantagens com isso: determinando-se que todas as pessoas e empresas do país, incluindo o governo, passem a cumprir as leis que já existem para beneficiar a todos nós, e que as punições a quem não cumpre sejam efetivadas, teremos uma melhor qualidade de vida, gastaremos muito menos dinheiro com reclamações, que prejudicam o bom funcionamento das instituições, os juízes terão muito menos casos para serem julgados, podendo dar atenção a casos realmente importantes, e o mais importante de tudo isso: teremos cidadãos melhores, porque todos, ricos, classe média, pobres, dividiremos a responsabilidade das coisas entre nós, veremos que somos parte de um país igual onde todos são tratados com igualdade, e por termos uma vida muito melhor, seremos mais unidos, seremos mais brasileiros. Muito obrigado a todos.
Marinho saiu do plenário satisfeito. Enquanto a platéia que assistia à sessão aplaudia, um burburinho se espalhava por entre os parlamentares. O presidente da Câmara pediu silêncio aos presentes e rapidamente a sessão se encheu de inscrições.
Infelizmente para Marinho o seu projeto foi muito criticado pelos deputados. O líder do governo criticou Marinho pela ofensa, ao sugerir que o governo não está fazendo o que deveria. O líder da oposição chamou o projeto de um "disparate", e o acusou de estar fazendo de bobo todos os políticos do país. O líder das minorias declarou que não tinha conhecimento desse projeto, mas que se lhe fosse apresentado, não o apoiaria, além de sugerir que o mandato do deputado fosse cassado por quebra de decoro parlamentar.
Chegaram até a apresentar o pedido de cassação ao Congresso, porém ele logo foi arquivado devido ao imenso apoio popular ao projeto. Telejornais exibiram o discurso de Marinho em seus telejornais, ocorreram passeatas em todo o país pedindo pela aprovação do projeto: as pessoas viram nessa lei o esforço real de um homem do povo em quer vero país finalmente dar certo, e a pressão popular fez com que o projeto fosse aprovado em todas as comissões e finalmente votado favoravelmente por Câmara e Senado, com poucos votos contra. No momento em que o presidente do Brasil assinou a lei, Marinho Correa estava lá com sua família, com Pereira, e seus amigos, feliz como sempre fora antes, e realizado como nunca sonhou que seria.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Pastor Heleno

Terminado o culto, enquanto os fiéis saíam pela porta, alguns poucos colocando os assuntos em dia na porta do templo apesar do frio, os obreiros tratavam de fazer o trabalho duro na sacristia de abrir todas as cartas com pedidos e intenções para recolher as contribuições voluntárias e os desafios de fé individuais das pessoas, As cartas iam para um lado enquanto o dinheiro era separado do outro. Pastor Heleno dava especial atenção para as notas, separando-as por cor, formando pequenos maços de dez notas, cuidadosamente dobradas e presas com clipes. A contagem naquele domingo foi um pouco mais demorada do que de costume, foi uma celebração de muita fé.
Ao final do processo, Pastor Heleno começou a guardar as notas em um saco plástico para levar para casa. Ninguém estranhou muito, era uma atitude de praxe em dias de grande arrecadação: o pastor contava o dinheiro das ofertas, separava uma parte e declarava a outra. Se houvesse um pico no valor arrecadado, provavelmente a matriz aumentaria muito a meta daquele templo, e o pastor não poderia se dar ao luxo de correr esse risco.
- Joaquim, vou contar o dinheiro em casa e de lá amanhã eu já levo para o banco depositar.
- Tudo bem, pastor.
Desde quando chegou para assumir o templo daquele bairro sete meses atrás, o pastor Heleno está atraindo cada vez mais adeptos. O bairro sempre foi considerado difícil, por ser em um lugar de baixo poder aquisitivo e ter uma população arredia a novas igrejas, porém seu discurso veemente sobre a vitória do homem em nome de Deus, seu carisma, em parte devido à sua bela face, outra parte graças a paixão que demonstra nas pregações, não teve mais um mês com prejuízo, e a figura do pastor está sendo vista com bons olhos pela cúpula da igreja.
- Pastor, o senhor vai levar essas cartas também? - perguntou Almir, o obreiro novato. Heleno, de bom humor, respondeu sem se exaltar:
- Almirzinho, essas cartas não são para ler, elas são uma conversa pessoal entre essas pessoas e Deus. Ler as cartas é interferir na aliança pessoal entre elas e nosso Senhor. Empilhe essas cartas perto do banheiro que amanhã vamos queimá-las.
Enquanto Almir fazia o que foi mandado, o pastor Heleno entregou-lhe a chave do templo e se despediu. Ao se dirigir a seu carro, encontrou Joaquim encostado à porta do mesmo:
- Pastor, eu queria lhe pedir uma coisa...
- Pois não, diga.
- Pastor, eu precisava de algum dinheiro emprestado para pegar o ônibus. A situação em casa está difícil, o remédio da minha filha aumentou e estou vindo a pé para economizar, mas hoje por causa do movimento ficou muito tarde...
Pastor Heleno não se fez de rogado: colocou a mão no bolso do paletó e entregou a Joaquim algumas palavras inspiradoras:
- Joaquim, este é o Salmo 23 que eu sempre carrego comigo. Leia-o no caminho se sentir alguma coisa. Você sabe que a situação da Igreja está difícil, e você é um bom homem, está me ajudando bastante com a obra aqui. Só peço para que tenha um pouco mais de paciência. Leia o Salmo, leve essas palavras contigo. Você quer ser pastor um dia, e o dia está chegando. Vou mandar também uma bênção especial para você e para sua família, que eu sei que vocês estão precisando.
Não era exatamente a resposta que Joaquim esperava, mas nunca antes o pastor havia lhe dado algo pessoal. Heleno colocou a mão direita na testa de Joaquim, improvisou uma bênção de um minuto, Joaquim agradeceu ao pastor e seguiu em frente, não podia perder mais tempo ali, e enquanto isso o pastor entrou em seu veículo e dirigiu-se para sua casa, do outro lado da cidade.
No caminho, enquanto dirigia pelas ruas escuras, atravessando bairro após bairro, Heleno pensava no quanto um bom planejamento financeiro poderia lhe garantir um templo em um bairro melhor até o final do ano. Normalmente os pastores que mais lucravam recebiam certos privilégios, como templos melhores, salários melhores e até mesmo casamento, mas essa era a coisa que menos lhe interessava no momento, afinal, era tão jovem e tão bem-sucedido, o melhor para ele seria preparar um conforto financeiro próprio antes de decidir estabelecer família. Mas isso não o impedia de ter aqui e ali alguns encontros com jovens pretendentes ao posto de esposa. Dois meses antes, surgiram rumores no bairro de que o pastor Heleno estava envolvido mais intimamente com uma fiel casada. Heleno tratou de desmentir isso rapidamente, mas por via das dúvidas, os dois decidiram por bem se afastarem por uns tempos.
Ao passar por uma praça, Heleno não deixou de reparar na figura de um rapaz magro, provavelmente um adolescente, encolhido em um banco para proteger os braços do frio. Estava sem agasalho ou coberta. Vendo aquilo, Heleno parou o carro, foi até o jovem e o convidou a entrar no automóvel, pois ele poderia lhe ajudar. O rapaz ficou parado como se não houvesse entendido o que aquele homem lhe dizia, mas ao ser perguntado uma segunda vez, acabou aceitando, sentando-se no banco ao lado do motorista. Heleno assim continuou seu caminho, com aquele rapaz da rua ao seu lado.
- Tá se sentindo melhor? Hoje fez bastante frio, não? Você mora por aqui? - perguntou Heleno, O jovem não respondeu. Heleno ficou impressionado ao ver um garoto tão desamparado na rua.
- Vou te levar lá em casa, aí você aproveita para tomar um banho, comer alguma coisa... você deve estar com fome, hein?
- Tô... - foi a primeira palavra dita pelo rapaz, de forma tímida. O pastor Heleno se animou com a resposta, ele sabia que o caminho para se conquistar a confiança era sempre aos poucos.
Ao chegar em casa, Heleno abriu a porta da garagem e estacionou o carro, então abriu a porta e convidou o jovem a entrar. Nisso o jovem entra todo desengonçado, arrumando as calças. Heleno riu-se daquilo e comentou:
- Rapaz, nem calças do seu número você tem...
Heleno levou o rapaz até a cozinha e ferveu uma água. O rapaz, sentado à cadeira, continuava quieto, olhando atentamente para o pastor. Ao ferver o suficiente, Heleno tira de uma gaveta da cozinha um envelope de sopa pronta e mistura na água, mexendo-a por um tempo, e serve essa sopa dentro de uma pequena tigela de plástico e uma colher para o garoto.
- Tome essa sopa, pelo menos irá lhe matar a fome. Enquanto você come, vou lhe arrumar umas roupas novas para você vestir depois de um banho quente. - disse Heleno, enquanto ia para a dispensa.
Na dispensa, Heleno pensava consigo o quanto existem de coisas erradas na sociedade, enquanto procurava um paletó no meio das doações dos fiéis para a última campanha do agasalho, e Heleno percebeu que todo o trabalho religioso que ele pudesse fazer não seria o suficiente para impedir que mais e mais crianças como aquela acabassem na rua, morrendo de frio.
O que Heleno não percebeu é que o rapaz o havia seguido até a dispensa, e que enquanto o pastor procurava por uma roupa adequada, o jovem tirava da parte de trás da bermuda um revólver.
- Morra, otário!
Foram quatro tiros que atingiram o religioso pelas costas. Um dos tiros acertou-lhe a nuca, matando-o instantaneamente. Entre pilhas de roupas esquecidas, pastor Heleno ali jazia, enquanto o rapaz, antes de pilhar a casa inteira, bradava raivosamente:
- Agora morda o chão, seu viadão!

domingo, 4 de agosto de 2013

História de um grande amor eventual

É Daiana, eu vi sua mensagem com a foto do seu namorado, dizendo que romântico ele é. Aproveite a felicidade, sua vagabunda! Sorria aí com seus dentes brancos, eu sei o quanto você sorria amarelo comigo. Me ignorava, e esperava por um outro otário que pudesse te dar mais do que você podia conseguir.
Você Daiana, no alto de sua auto-suficiência, lançava seu sorriso falso para quem quer que fosse, desde o pobre cachorro de rua até o arrogante esportista da nossa série. A certeza de que era intocável, unida com o mistério de suas intenções: quais intenções se escondiam por detrás de feição tão agradável, tão solícita, tão pronta para fazer o bem a quem fosse?
Desde nossa convivência na escola primária, a primeira vez em que te vi foi um assombro: estava conformado com a mesmice que seria aquele ano e todos os outros seguintes. Estava quieto na minha, era uma aula horrível de música, apenas uma desculpa para o proselitismo de nosso corpo docente, e logo surgiu um burburinho de desaprovação. Me mantive alheio a tudo isso, talvez tolo demais para entender, ou chateado demais para ter esperanças, é o que prefiro pensar, e de repente, você, que estava na minha frente, se vira para se expressar!
Caramba, não consegui mais te esquecer! Desgraçada, agora o teu sorriso me assombra! Feliz, tentador, expressivo, eu queria que tudo isso fosse comigo! Maldosa, agora penso nele, tão longe, tão desconhecido, provocando o meu orgulho ferido! Por que, enquanto estava perto, era qualquer coisa, e agora que está longe eu quero tão próxima? Por que você nunca me deixou ter tal jóia rara? Se eu fosse mais ousado, perderia, jamais seria tão obsessivo. Se fosse mais prudente, jamais teria nem a chance de admirar. Talvez esse tenha sido meu grande erro: ao tentar chegar perto, vi o quão linda é sua essência, mas ao me aproximar, você viu a podridão de minha presença, e teve nojo de mim. Tenho tanta vergonha de existir, mas tanta alegria de contemplar sua maravilha, eu nunca soube o que era ser feliz até te conhecer.
Por favor, acabe com isso, ou pelo menos me destrua, assim eu posso ter minha vida de volta e tentar fazer algo por ela. Estou preso a você pelo amor que me amarra, me sufoca, e não me deixa raciocinar! Minha única fuga é me entorpecer, mas isso me aproxima de você e me faz chorar, chorar e chorar! Ela me compele a fazer o que nunca sonhei tentar. Pede para eu sair do meu lugar, mas não me orienta em nada, e não sei como me portar. Não sei o que penso, o que julgo, só sei que amo, e amar é o que me impele a viver, mais do que tudo. Teus olhos, tua boca, tua pele lisa, teu cabelo tão lindo, tua alegria tão pura...
Mas saber que o que você é não é para mim, que por mais que me esforce, por mais que tente sair do que sou para me fazer notar por ti, não chegará perto de te fazer me notar, sinto que a melhor maneira talvez seja te destruir. Te aterrorizar, atormentar, ofuscar, quem sabe assim você note que eu existo, e de alguma forma possa me respeitar! Você é tudo para mim e não recebo nada de você, quem sabe com minha obsessão, meu ódio, meu desejo, você me reconheça, afinal pelo menos isso fiz por merecer! Ficar à sua margem, Daiana, como qualquer lacaio, não é para mim, eu quero ser o titular que se casa contigo no terceiro ato!
Por mais que eu deseje, por mais que eu queira, estar com você, embora almeje, nunca a terei inteira. Pois se na ocasião de te possuir, sua mente irá divergir e você me recusará de qualquer maneira. Menina, mulher, senhorita, por favor me permita encontrar um modo de buscar um fim a tudo isso. A felicidade seria um objetivo, mas não sei que mal eu fiz, só sei que não posso ser feliz!
Mas já que não terei o meu desejo, não importa o que eu fizer daqui por diante, deixo para ti o meu último beijo.