Marinho Correa nasceu
para ser político. O melhor de todos.
Nunca teve muita
expressão na vida: sempre se dedicou aos trabalhos mais
simples. Nunca se preocupou com coisas como carreira, dinheiro,
futuro. Para ele, tudo o que importava estava ali ao alcance dele:
sua esposa, seus filhos, seus amigos, seu jogo de futebol, seu
churrasco de fim de semana. Não era fácil o dia-a-dia
do trabalho na fundição mas ele tinha tudo o que queria
e precisava.
Todos ali gostavam
muito dele. Um dos que mais gostava era o chefe o sindicato, o
Pereira, que viu nele o sujeito ideal para alavancar sua campanha
política para deputado federal. Pereira era bem conhecido, mas
não era uma unanimidade entre os metalúrgicos. Pereira
imaginou que a candidatura de Marinho teria potencial para atrair boa
parte desses votos para aumentar a participação da
legenda e colocá-lo diretamente no caminho do Planalto
Central.
No início
Marinho não gostou muito da idéia: ele, que nunca
falou em público, imaginou que acabaria sendo visto como uma
piada no meio de tudo isso. Ao comentar com os amigos durante um
final de semana, ouviu tantas mensagens de apoio e tantos elogios que
o fizeram acabar aceitando. Pelo menos ajudaria a classe e, quem
sabe, poderia até ganhar.
Filiou-se ao partido,
pagou a inscrição, e vestiu seu único terno para
a gravação do programa de televisão. Enfrentou
fila com os outros candidatos, e a cada minuto, a cada hora que
passava, mais nervoso Marinho ficava. Quando chegou a hora para
gravar sua aparição na TV. sentou-se na vadeira, o
diretor disse "Gravando", e Marinho ficou paralisado,
lembrou-se que nunca tinha feito nada parecido, deu-lhe um medo
enorme, olhava para as pessoas em volta, todas sérias,
quietas, esperando para ouvir ele falar, e nessa expectativa, ele
ficou com medo de pedir para refazer. As pessoas ficaram cada vez
mais apreensivas, Marinho, gelado, petrificado, começou a se
esforçar para lembrar-se de qualquer coisa, pelo menos para
arrumar uma desculpa para dizer ali. De repente, juntou toda a
coragem que tinha guardado não se sabe onde, olhou para a
câmera, e falou a frase que seu pai sempre lhe disse:
- Melhor ficar calado
do que falar bobagem.
O diretor disse
"Corta", a ajudante tirou Marinho da cadeira, e logo outro
candidato foi chamado para ocupar seu lugar. Marinho ficou arrasado,
tremia de nervoso, logo lhe trouxeram uma água para se
acalmar, mas não foi o bastante, tiveram que levá-lo
para o hospital com medo de que lhe acontecesse alguma coisa. Por
sorte não houve nada, mas Marinho ficou triste por não
ter ajudado seus amigos, principalmente o Pereira, que tanto
precisaria de votos para aquela campanha. Graças a isso, a
equipe de produção não teve novas imagens para
fazer de Marinho e acabou colocando o que foi gravado mesmo, com a
longa pausa antes para caber no tempo exigido para todos os
candidatos.
Com o início da
campanha na televisão, o impensável aconteceu: sua
propaganda acabou tendo um enorme sucesso entre a população.
Naquele ano, tão dominado por candidatos "engraçadinhos",
que não tinham nada para dizer, seu silêncio e sua frase
final acabaram representando para as pessoas a esperança de um
político melhor, alguém que faça mais e fale
menos. Entrevistas foram pedidas com Marinho, que sempre recusava,
não saía mais de casa para fazer campanha, e seu
silêncio acabou se tornando sua marca registrada. Na falta da
opinião dele, os repórteres acabaram indo atrás
de seus amigos e familiares, que eram só elogios para ele, um
verdadeiro homem do povo, trabalhador, não falava mal de
ninguém. Ao final da eleição, Marinho Correa foi
eleito com a maior quantidade de votos de seu partido, com uma das
maiores votações inclusive de todo o país.
Pereira, com seus votos, acabou ajudando o partido a garantir a quota
de votos para colocar Marinho no Congresso Nacional. A família
fez festa, todos os amigos celebraram muito, exceto Pereira, que
sentindo-se traído, não quis mais nada com ele. Marinho
estava mais feliz do que nunca, mas uma preocupação lhe
afligia toda noite: ele não fez absolutamente nada e acabou
ganhando para um cargo em que se precisa fazer muito. Marinho tinha
certeza de que acabaria decepcionando a todo mundo que botou fé
nele.
E foi o que acabou
acontecendo: depois de tomar posse, Marinho Correa mudou-se para
Brasília e ficou afastado dos amigos. Teve que trancar o
emprego na metalúrgica, e nas poucas vezes que foi para sua
terra, o ambiente ficava tumultuado demais e não conseguia ter
a privacidade e a normalidade de antes. Além disso, na Câmara,
nunca discursava, não apresentava projeto de lei. Também
não conhecia os outros colegas deputados, que quase nunca
paravam na cidade, estavam sempre indo fazer atividades políticas
em outros lugares.
Isso foi acontecendo
durante meses. A impessoalidade das relações, as
sessões demoradas repletas de discursos belos porém
longos e redundante e os poucos dias de real trabalho o fizeram se
decepcionar com a política, e não ajudava em nada a
má-fama dos políticos. Ouviu uma vez no Plenário,
vindo de um militante revoltado, que aquilo ali só servia para
ganhar dinheiro, que não adiantava nada criar leis para o povo
se nem eles as cumpriam, e que aquilo não era nada além
de férias prolongadas e muito bem remuneradas.
Com isso, Marinho
Correa sentiu-se tão sozinho, ignorado e odiado. Nunca foi o
que ele quis em primeiro lugar. Antes ele tinha tudo o que queria e
precisava: tinha seus amigos, tinha a alegria de todas as pessoas com
ele, e agora era um político sem amigos, sendo chamado de
ladrão enquanto nunca roubou na vida, sendo um inútil
para ele e para o país. Talvez ele só não tenha
ruído de vez porque tinha sua família com ele, mas os
filhos estavam distantes, sempre ocupados com algum brinquedo novo
que podiam comprar, sua esposa sentia falta dele e acabava
compensando isso nas lojas das galerias comerciais. Parecia que sua
felicidade tinha chegado ao fim.
Foi quando Marinho
Correa recebeu um telefonema. Com muita má-vontade ele foi
atender, provavelmente era o assessor lhe informando de alguma coisa
urgente para o dia seguinte. Quando atendeu, Marinho assustou-se ao
reconhecer do outro lado a voz de Pereira, seu antigo aliado. Marinho
queria se desculpar com ele, mas Pereira pediu para que Marinho não
dissesse nada, apenas ouvisse o que ele tinha a dizer: Pereira passou
muito tempo chateado com a derrota que recebeu e ficou pensando muito
no que tinha feito de errado, mas ele não tinha feito nada.
Começou a perceber que as pessoas que lhe visitavam no
sindicato estavam muito felizes com a eleição do
Marinho, que eles torciam muito pelo sucesso dele e queriam que ele
fizesse algo de bom pelo país porque elas o conheciam e sabiam
que ele não as desapontaria, afinal, ele sempre foi um deles e
eles conheciam muito bem. Marinho conquistou na vida a confiança
daquele monte de gente, com suas atitudes, sua humildade, e Pereira
viu que Marinho era muito melhor do que ele. Mas nas últimas
semanas a opinião estava mudando. A desesperança no
rosto dos antigos colegas estava ficando mais evidente, as pessoas
viam que Marinho se afastou delas, nem para dar alguma satisfação
de algo, e o pior: estavam começando a pensar que Marinho
tinha se corrompido e passar a não acreditar mais na política.
Aí então,
sem agüentar mais ouvir, Marinho desabafou: contou de toda sua
decepção, falou da falta que sentia de todo mundo, que
queria muito voltar a ter a vida de antes e que iria renunciar para
que Pereira assumisse, como suplente, o lugar dele. Aí então
Pereira interrompeu-o e disse NÃO! As pessoas confiaram seu
voto em Marinho Correa, que ele não estava ali por causa dele
mesmo, ele estava ali para fazer algo por todo mundo a quem ele
sempre foi generoso e sempre lhe quiseram bem, política é
um sacerdócio e que ele não aceitaria receber o cargo
de alguém que não fez a diferença. Antes que
Marinho pudesse dizer alguma coisa, Pereira desligou.
Marinho não
saberia dizer se a ligação com Pereira terminou boa ou
ruim, se estava bêbado quando ligou ou realmente pensou em
dizer tudo aquilo, o fato é que aquela ligação
lhe trouxe o passado que ele tanto queria sentir, lhe mostrou o tempo
presente do qual tentava fugir e apontou o futuro que ele iria
seguir. No dia seguinte, Marinho Correa acordou mudado. Abraçou
a família como há muito não fazia e chegou ao
Congresso pronto para fazer algo que, como ele disse àquela
vez, iria mudar o Brasil.
Passou semanas lendo
sobre Projetos de Lei. Fez vários rascunhos de idéias,
mas a maioria das idéias que ele tinha já existiam, só
não eram praticadas. Ao pesquisar certos livros, soube que
muitos dos artigos da constituição acabam não
entrando em vigor por uma série de desculpas, a principal
delas é que não existe lei que as regule. Ao saber
disso, Marinho teve uma idéia instantânea, e que veio
tão pronta em sua cabeça que pegou ele mesmo o
computador e passou a redigir o projeto de imediato. Ao terminar,
pediu para que o assessor a corrigisse, e quando ele passou a ler o
projeto, seus olhos foram se abrindo, ele olhou para o deputado com
cara de assustado, voltou a corrigir o mais rapidamente que pôde,
formatou o texto do projeto e lhe entregou em mãos as cópias
impressas, que Marinho sem interromper seu caminho entregou para
protocolar e incluir na pauta. Ao entregar, não demorou muito,
Marinho foi informado que a presidência queria ouvir
explicações sobre seu projeto já na semana
seguinte. Marinho nunca havia discursado antes nem em jantar do
sindicato, quanto mais no plenário mais importante do país,
mas isso não lhe abateu. Marinho foi para casa, teve um jantar
normal em família e foi dormir como se fosse um dia como outro
qualquer.
Na sessão
seguinte, já preparado, Marinho saiu de sua cadeira de
deputado e seguiu até o plenário da Câmara dos
Deputados, onde o presidente lhe deu permissão para falar.
Ali, sem gaguejar, sem tremer, sem se calar, Marinho Correa explicou
para todos os presentes a essência de seu projeto de lei:
- Vossa Excelência,
ilustres deputados e deputadas, pessoas que nos assistem, copeiros e
demais funcionários, estou aqui para explicar o porquê
de ter feito esse projeto que apresentei. Na minha terra natal, eu
não tinha uma vida muito fácil, precisava trabalhar dez
horas por dia, mas era o bastante para mim. Ganhava uma boa quantia
para pagar as contas de casa, sustentar minha mulher, meus dois
filhos, o cachorro, e sobrava para comprar algum presentinho, poder
sair com os amigos, ver um jogo de futebol, eu tinha uma vida feliz.
Mas tinha muitos amigos, conhecidos, familiares, que não têm
a vida que eu tinha: gente que precisa de dois empregos, que tem
filho ou algum parente doente, gente cheia de dívidas, sempre
precisando de algo mais, aí não tem como ter carro,
precisa pegar ônibus que tá caro e não é
bom, precisa pegar táxi que é muito caro, vai atrás
de saúde e não tem como pagar, o convênio da
firma não aceita aquele médico que pode resolver o
problema, aí precisa ir no SUS, que é mal equipado, tem
fila grande, e é muito sofrimento, os remédios também
são muito caros, acaba não sobrando grana para coisa de
emergência: cai uma chuva, alaga a casa toda e não tem
como comprar móvies novos, isso quando não é
assaltado por aí, a violência está muito grande.
Quem é rico pode se cuidar melhor, mas as outras pessoas não,
elas dependem de que o Brasil pode fazer por elas. Não no
sentido de dar dinheiro, mas de fazer com que as coisas funcionem. No
Brasil muita coisa não funciona, os serviços são
mal-ajeitados, há muita roubalheira, corrupção.
Quando fui eleito, quem votou em mim queria acreditar que eu faria
algo pelas pessoas, aí quando me disseram isso, fui atrás
de criar alguma lei para melhorar alguma coisa, tive várias
idéias. Mas aí, quando eu as apresentava, meu assessor
dizia que essas leis já existiam, estavam todas publicadas,
todas aí prontas para serem cumpridas, e de alguma forma não
eram. Também descobri que existiam duas, três leis
iguaizinhas, para fazer com que a lei seja cumprida. Isso acaba
fazendo o Brasil perder muito tempo e dinheiro e funciona pouco.
Então foi por isso que pensei nesse projeto de lei que
determinará que todas as leis no Brasil devam ser cumpridas.
Silêncio geral.
Os deputados entreolhavam-se, alguns perguntando para alguns outros
se haviam escutado direito o que Marinho disse. Marinho continuou:
- O país terá
grandes vantagens com isso: determinando-se que todas as pessoas e
empresas do país, incluindo o governo, passem a cumprir as
leis que já existem para beneficiar a todos nós, e que
as punições a quem não cumpre sejam efetivadas,
teremos uma melhor qualidade de vida, gastaremos muito menos dinheiro
com reclamações, que prejudicam o bom funcionamento das
instituições, os juízes terão muito menos
casos para serem julgados, podendo dar atenção a casos
realmente importantes, e o mais importante de tudo isso: teremos
cidadãos melhores, porque todos, ricos, classe média,
pobres, dividiremos a responsabilidade das coisas entre nós,
veremos que somos parte de um país igual onde todos são
tratados com igualdade, e por termos uma vida muito melhor, seremos
mais unidos, seremos mais brasileiros. Muito obrigado a todos.
Marinho saiu do
plenário satisfeito. Enquanto a platéia que assistia à
sessão aplaudia, um burburinho se espalhava por entre os
parlamentares. O presidente da Câmara pediu silêncio aos
presentes e rapidamente a sessão se encheu de inscrições.
Infelizmente para
Marinho o seu projeto foi muito criticado pelos deputados. O líder
do governo criticou Marinho pela ofensa, ao sugerir que o governo não
está fazendo o que deveria. O líder da oposição
chamou o projeto de um "disparate", e o acusou de estar
fazendo de bobo todos os políticos do país. O líder
das minorias declarou que não tinha conhecimento desse
projeto, mas que se lhe fosse apresentado, não o apoiaria,
além de sugerir que o mandato do deputado fosse cassado por
quebra de decoro parlamentar.
Chegaram até a
apresentar o pedido de cassação ao Congresso, porém
ele logo foi arquivado devido ao imenso apoio popular ao projeto.
Telejornais exibiram o discurso de Marinho em seus telejornais,
ocorreram passeatas em todo o país pedindo pela aprovação
do projeto: as pessoas viram nessa lei o esforço real de um
homem do povo em quer vero país finalmente dar certo, e a
pressão popular fez com que o projeto fosse aprovado em todas
as comissões e finalmente votado favoravelmente por Câmara
e Senado, com poucos votos contra. No momento em que o presidente do
Brasil assinou a lei, Marinho Correa estava lá com sua
família, com Pereira, e seus amigos, feliz como sempre fora
antes, e realizado como nunca sonhou que seria.