Escrevo para dizer, com certo atraso, que infelizmente a idéia de publicar um conto por dia neste blog foi inviabilizada.
O motivo para isso ter acontecido foi, basicamente, um chamado dos céus: caiu um raio que explodiu o modem e causou sérios danos ao computador, afetando todo o sistema de USB. Isso significa que, mesmo que eu continuasse escrevendo, não conseguiria retirar os contos do computador e jogá-los em outro para serem publicados.
Terminar um projeto desses tão abruptamente não é legal, mas em compensação, pelo menos ele não estava em estágio tão avançado, e por outro lado até que estou apreciando bem o período sem internet, sem acompanhar o tempo todo as mensagens disfarçadas de jornalismo dizendo que o PT dará um golpe de estado comunista no país se a Dilma se reeleger, e outras picuinhas internéticas. No final das contas, o importante é que estou bem.
E você que me lê: está tudo bem contigo?
Max Jarek
Livros, contos e poemas do autor.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
3. As Anotações de Alex
Se tinha uma coisa que
as crianças do prédio não suportavam mais era o
Alex e sua mania de anotar.
Na rua, nos corredores
do prédio, na fila do banco, não importa onde fosse
Alex sempre estava anotando alguma coisa. Ele via algo, e anotava;
ouvia alguma conversa indevida, lá estava ele transformando
fonemas em letras; pensou em algo diferente, não pense que ele
iria esquecer sem antes registrar tudo.
Talvez aceitassem mais
se levassem em consideração o fato de Alex ser autista,
porém, como a mãe dele deixou bem explicado que
"ninguém tem nada com isso", as crianças
tomaram isso como "carta branca" para que ele fosse julgado
como todas as outras, e também em nada ajudava o fato de Alex
sempre ignorar todas as tentativas de aproximação que
faziam para ele.
Então, foi aí
que elas tiveram um plano de roubar o bloquinho de anotações
do Alex para ver o que havia escrito ali. O plano foi bem simples: A
Laura e a Cristina foram cada uma de um lado dele e sopraram no
ouvido. Quando ele se abanou, o Mateus pegou o bloquinho onde ele
anotava tudo e saiu correndo e foi direto para o apartamento do Celso
onde eles leriam.
Chegando todo mundo no
lugar marcado, coube ao Celso, o dono da casa, ser o primeiro a
abrir, Eles acharam muito esquisito que só estavam escritas
palavras com acento, como "sabiá", "pêssego",
"ônibus", E de repente todas elas pararam de ler
quando ouviram um grito bem forte do lado de fora: Alex estava
gritando, quase chorando. Quando elas viram o desespero, Mateus pegou
o bloquinho e correu entregar de volta para ele. Alex calou-se,
agarrou o bloquinho entre seus braços e foi andando até
a portaria, onde ficou passando os olhos nas palavras.
As crianças
ficaram muito tristes e chocadas com a reação que Alex
teve, e pensaram em um jeito de fazer as pazes. Cristina teve a
idéia: dali a pouco, cada uma das crianças foi até
a portaria, onde Alex continuava folheando seu bloquinho, e cada uma
delas deu um pedaço de papel com palavras com acento que não
tinham no bloquinho: "você", "jóia"
"irmão" e "perdão". Alex pegou os
papéis fascinado e olhou para eles sorrindo. As crianças
sorriram de volta e ficaram com Alex ali, vendo o bloquinho.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
2. O Tesouro
Ele tinha cinqüenta
anos de idade. Escalar uma montanha não era mais a mesma coisa
que vinte, trinta anos atrás. As pernas se cansam mais, as
costas começam a doer, atrasando o passo. As únicas
coisas que animam a subida são o clima agradável da
montanha, o vento frio daquele dia limpo e ensolarado, e a certeza
que de estava perto de alcançar seu objetivo.
Aquele objetivo era o
de uma vida inteira, desde quando se interessou por arqueologia:
centenas de séculos de história humana existem pelo
mundo, escondidos, intocados, cheios de materiais e informações
que poderão mudar o modo como vemos o passado, e talvez trazer
coisas para o nosso futuro. Descobertas como a tumba de Tutancâmon,
ou a Tumba de Felipe II da Macedônia, repletos de jóias
e, mais importante, artefatos de época, que ajudam a entender
como era a vida daquelas civilizações, encheram
caçadores de relíquias durante anos e anos, esperando
para encontrar algo parecido, e passaram a dominar os pensamentos
dele desde quando, em uma expedição à rota da
seda, encontrou indícios de uma arte nunca antes vista. Mais
pesquisas e descobertas o levaram a encontrar aquela montanha onde
poderia, talvez, achar quem sabe indícios concretos de uma
civilização desconhecida até então. Se
ele encontrar ali o que procura, terá conseguido muito mais do
que seus colegas, professores e até mesmo seus mentores jamais
alcançaram.
Enfim, ele chegou ao
cume da montanha, em um plateau relativamente horizontal, sem grandes
mudanças de nível, exceto pelo que parece ser uma
rachadura no centro. Ele parou, soltou sua mochila e descansou um
pouco para relaxar os braços e pernas, e principalmente as
costas. Não havia muito pelo que correr: a desolação
do cume o decepcionou um pouco. O segredo da operação,
além da desolação das redondezas e a
impossibilidade de fazer uma pesquisa prévia através
das fotografias aéreas deixou-lhe praticamente às
escuras, mas as pistas pareciam ser boas o bastante para empreender
uma aventura como essa. Após as dores cessarem um pouco, ele
pegou seus instrumentos e resolveu andar pelo lugar e observar
melhor: ainda era muito cedo para chamar o helicóptero para
ser resgatado dali. Ao ir até a rachadura, percebeu que havia
um declive, um baixo-relevo em formato circular com profundidade de
uns trinta centímetros, no formato que parecia o de uma
escotilha, comcircunferência de pelo menos uns sessenta,
setenta centímetros, mas o fato de ser do mesmo material que a
montanha indicava que ali poderia ser alguma espécie de altar
de sacrifícios de uma cultura antiga. Observando melhor, não
haviam marcas no baixo-relevo que se assemelhassem com inscrições.
Ele então resolveu se posicionar bem no círculo para
procurar por referências geográficas e algum indício
astronômico.
Ao fazer isso, o chão
do círculo cedeu e ele caiu em uma vala de um metro e meio.
Ele acabou caindo sentado no chão, felizmente sem ferimento
algum, a única marca foi o susto da queda, a qual lhe exigiu
um certo tempo sentado para se recompor. Ao ficar sentado, seus olhos
se acostumaram um pouco com a escuridão da vala e ele percebeu
ali um caminho que parecia levar para mais abaixoda montanha.
Imediatamente ele atratou de se levantar, buscar mais equipamentos
como luz, luvas e voltou rapidamente para o buraco. Aquilo foi tão
inesperado que foi como se a juventude tivesse voltado em seu ser.
Foi com cuidado, mas numa rapidez até mesmo imprudente, em
direção ao apertadíssimo corredor,
engatinhando-se.
Após uns dez
minutos pelo caminho, ele percebeu que havia finalmente chegado a um
salão mais amplo, tão amplo que ele finalmente poderia
ficar em pé. A luz não revelava muita coisa, mas
parecia ser uma caverna repleta de cilindros grandes, com pelo menos
dois metros de comprimento, empilhados pelos cantos. Parecia ser uma
biblioteca, como aquela encontrada nas cavernas de Qumran, no Mar
Morto, mas não havia sinal algum de jarros, apenas os
cilindros enrolados, expostos. Ele tirou rapidamente um par de luvas,
vestiu-as e foi direto manusear o cilindro mais próximo Ao
colocá-lo no chão e desenrolar cuidadosamente o
cilindro, ele se lembrou da primeira vez em que viu um pedaço
de tapete que não tinha absolutamente nada a ver com qualquer
outra tapeçaria da região. Ela parecia ter símbolos
coerentes e minúsculos gravados em sua trama, o que foi sua
primeira dica. Não precisou avançar muito, no primeiro
metro ele já reconheceu imediatamente os mesmos padrões,
dessa vez na tapeçaria inteira. Aqueles tapetes eram
documentos que contavam alguma coisa, e pela grossura, o tapete
estendido chegaria facilmente aos dez metros. Ele nunca havia sentido
tanta felicidade na vida. Aquela descoberta vai render pelo menos uma
vida inteira de estudos,
E aí foi quando
lhe deu uma grande angústia: Ao sair dali, além de
pedir o helicóptero de resgate, fazer a segurança do
lugar, pedir por verba extra da universidade, contratar outros
arqueólogos, montar o sítio, ainda teria que decifrar
os símbolos, reler tudo, traduzir, enfim, estudos para uma
vida inteira, e é uma vida que ele não teria mais. A
idade havia chegado, passou tanto tempo olhando por pistas,
evidências, fazendo caminhos, tudo em busca de conteúdo
que talvez ele jamais poderá conhecer em seu tempo de vida.
Ele respirou fundo,
liberou o ar com todas as forças que podia e, para si mesmo,
disse em voz alta:
- Bom, parece que é
melhor não perder tempo! Melhor aprender o que eu puder antes
de fazer outra coisa.
Colocou a mão
direita na cintura, sentiu a câmera fotográfica, e
tratou logo de desenrolar totalmente o primeiro tapete.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
1. Uma Sombra do Passado
De que adiantam anos e
anos de terapia quando nenhuma terapia é capaz de te preparar
para reviver seus traumas? Essa foi a descoberta que Luana fez quando
viu em sua frente, depois de tanto tempo, o rosto de seu estuprador
olhando para ela.
Não adiantou
nada tantas regressões, tantos exercícios, tantas
revisitas tentando encontrar cada ponto que lhe incomodava, e
procurando entender tudo o que tinha acontecido para que aquilo não
a afetasse nunca mais e ela pudesse ter uma vida normal, trabalhar
sem medo, quem sabe até ter um relacionamento novamente, se
casar, ter filhos. A visão daquele sujeito lhe fez voltar ao
tempo até o dia do acontecimento: retornaram as cores, os
cheiros, os calores, o medo, a insegurança e a dor daquele
dia. Ecoava em sua cabeça os gritos de socorro que ninguém
ouviu, os tapas que ela recebeu, os risos de deboche e
auto-suficiência daquele covarde.
E enquanto isso
acontecia na mente de Luana, era como se o mundo inteiro tivesse
parado perante aquele momento tão intenso de reencontrar seu
algoz ali, perto do caixa, com uma sacola plástica em uma mão,
abraçado a um pacote de pão de forma na outra mão.
A moça da caixa registradora sentada, olhando impaciente para
que o senhor viesse passar suas compras, uma outra senhora no caixa
ao lado irritada tirando o pacote de biscoito recheado das mãos
de seu filho, que olhava para o embrulho como se não houvesse
mais nada em volta, um outro senhor esperando na fila olhando para a
criança com cara de desprezo, enquanto segurava seu embrulho
de carne moída e uma pequena garrafa de cachaça com uma
das mãos e um pacote de pão francês pendurado no
mesmo braço, a ponto de cair no chão. Estavam todos ali
preocupados com suas próprias vidas, seus próprios
incômodos diários, sem imaginar a história
daquela dupla de vítima e algoz, no mesmo mercado que eles,
fingindo viver.
Nada seria melhor para
Luana que esse momento nunca tivesse ocorrido. Exceto o estupro,
claro, mas ela não sabe como ela seria, que vida ela teria se
aquilo não existisse. Nem ela nem ninguém sabe, nem
mesmo o estuprador sabe como seria se não tivesse feito isso.
Fazer suposições nunca chegam a lugar algum, pois elas
exigem todo tipo de pressupostos sobre os detalhes mais ínfimos,
que não podem ser taxados como irrelevantes. E além
disso, cada pessoa vive apenas uma vez. O passado nos assusta porque
não há como saber como será o futuro. Para a
pessoa traumatizada é muito pior, pois o passado volta
dolorido como um golpe de faca. Qualquer coisa que traga uma simples
memória do evento já machuca, por isso quem tem trauma
vive em constante estado de paranóia.
Era isso que Luana não
esperava quando esse encontro fatídico aconteceu. O passado
havia se distanciado, a vida parecia estar entrando nos eixos, aquela
menina ferida estava sorrindo novamente, brilhando para o mundo
inteiro ver mais uma vez. Ao olhar nos olhos de seu violador
novamente, seu coração se arrebentou, e sua alma se
eclipsou.
0. Introdução
Em todo final de ano,
as pessoas fazem suas resoluções para o ano seguinte:
colocam em mente uma lista de pequenas atitudes, mudanças de
comportamento, que podem gerar uma transformação para
melhor em suas vidas. Transformam a mudança de ano em um
começo de uma vida nova. Fazer exercícios, começar
uma dieta, tomar banho todos os dias estão na lista da maioria
das pessoas.
Mas é um tipo de
lista que as pessoas raramente cumprem: os primeiros dias são
cheios de animação e comprometimento. Falo de primeiros
dias porque quase ninguém começa no primeiro dia do
ano: normalmente deixam para o segundo ou terceiro, especialmente se
a virada do ano é em final de semana. Querem começar
depois de passado os efeitos da festança, mas o final é
inevitável: Conforme os dias vão passando, a disposição
para seguir aquele compromisso vai diminuindo, até que, a um
toque de despertador, toda aquela história de comprometimento
pareceu mais um sonho amalucado do que algo a se levar a sério.
E é por isso
que, começando com palavras tão inspiradoras, lanço
aqui a minha resolução de Ano Novo: a partir do dia 1º
de janeiro até o dia 31 de dezembro do ano de 2014, publicarei
neste site um conto por dia. Já começo um pouco
atrasado, mas aí é só questão de alcançar
o ritmo. Tratará de ser um exercício literário
complexo, cansativo, e que já tentei outras vezes neste mesmo
site e não fui bem-sucedido, mas pelo menos, se não for
em frente, existirá a justificativa de que os contos são
apenas um capricho de ano novo. Não digam que não
avisei!
Mas, para tentar
terminar sob uma luz positiva, devo dizer que talvez o compromisso
não tenha dado certo das outras vezes por uma falta de
planejamento, falta de foco, preguiça, ou uma combinação
de todos esses fatores juntos. Para evitar que essas coisas aconteçam
novamente, estabelecei novos procedimentos que, se falharem, terão
efeitos graves sobre outros aspectos de minha vida. É quase um
compromisso de sangue.
E agora, ao final deste
texto, começo aqui, neste momento, o projeto "365".
Será um conto publicado por dia, em um tamanho razoável,
sem falta. Os contos começarão com o número
correspondente do dia do ano. Eu até falaria mais, porém
já começo atrasado, é hora de ganhar ritmo e
iniciar imediatamente!
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
O acordo
Noite
de terça-feira. Em um bar muito parecido com um pub inglês,
o movimento era fraco. O local era um ponto de encontro de
estudantes, mas o movimento só ficava forte a partir da
quinta-feira. Cidade universitária tem dessas coisas, e os
donos de bar já esperam por algo assim.
Sentado
em uma mesa, sozinho, um homem corpulento, de meia idade, fumava seu
charuto, e bebericava uísque cowboy, aquele sem gelo, entre as
tragadas. Aparentemente não estava afim de muita conversa, mas
também não estava chamando particular atenção
das outras pessoas.
Logo
entrou no bar uma mulher por volta de trinta anos, bem vestida. Ao
entrar, correu os olhos pelas mesas, e ao observar o sujeito sentado
sozinho, dirigiu-se até ele e o cumprimentou:
-
Olá, há quanto tempo.
-
Senta aí. - respondeu rispidamente o cavalheiro. Sem perder o
sorriso suspeito do rosto, a figura feminina sentou-se.
-
Como vai o senhor? Alguma novidade no serviço? - Perguntou a
distinta senhora. Ela esperava por uma resposta, porém não
a que ouviu:
-
Vai mal. Acabei de voltar de um velório.
A
mulher se assustou.
-
Olha, eu não tenho nada a ver com isso, nós fizemos o
que o senhor falou...
-
Não foi isso não: foi um rapaz da contabilidade;
Tentaram assaltá-lo no trânsito, ele tomou um tiro e
morreu. - continuou o homem. - Você fez o que tinha que fazer.
A
mulher ficou sem reação. O homem continuou:
- E
então, estava a contento?
-
Claro que sim, exatamente como o senhor falou. Não era muita
coisa, mas...
-
Era o suficiente. - interrompeu o homem. - E aí, estamos
acertados?
-
Acho que sim. Bem, foi bom fazer negócios com você, até
a próxima vez então...
-
Não haverá próxima vez. - O homem segurou a mão
da mulher na mesa. A moça fez uma cara de assustada, olhou
para o balcão.
Uma
outra mão segurou no braço do homem:
-
Deixa ela ir, acertar negócios é comigo. - falou o
homem que acabou de chegar. O homem sentado imediatamente o
reconheceu:
-
Doutor Alfredo!
O
homem largou o braço da mulher, que saiu andando rapidamente
pela porta. Doutor Alfredo acomodou-se na mesma cadeira em que a
mulher anteriormente estava e começou:
-
Devo dizer que o que você fez me surpreendeu bastante. Já
lidei com muitos bandidos, muitas pessoas sem escrúpulos,
pessoas capazes de vender o próprio filho por ninharia, mas
desse tipo de gente nós sabemos o que esperar. Nunca esperei
que você fizesse isso que fez. Isso pode te dar problemas no
futuro.
-
Dos meus problemas cuido eu. - respondeu o homem, charuto na mão.
Apesar da expressão calma, o charuto se consumia sozinho por
entre seus dedos.
-
Ora, que tratamento é esse? O que aconteceu contigo? E a nossa
amizade de tantos anos?
-
Nossa amizade está quitada, a última parcela já
foi paga!
Doutor
Alfredo sorriu, o mesmo sorriso que a mulher o havia presenteado, e
falou:
-
Ah, mas amizades são mais fortes que dinheiro. Amizade também
tem a ver com cumplicidade, companheirismo, compromissos...
Nisso
o homem se exaltou:
-
Acabou! Eu sempre cumpri com a minha palavra durante todos esses
anos, paguei tudo o que lhe devia! Mas agora eu não sou mais a
mesma pessoa: se isso continuar, acredite: não vai sobrar bar,
não vai sobrar cassino, não vai sobrar boca para te
salvar. Eu sempre cumpri com minha palavra, e você sabe disso!
Doutor
Alfredo olhou para o chão, fungou fortemente e falou, com
desinteresse:
-
Bom, é justo, você pode ficar tranquilo, ninguém
vai te incomodar.
- O
quanto eu posso acreditar nisso?
- Eu
sempre cumpri a minha palavra, e o senhor sabe disso. - respondeu
Doutor Alfredo.
O
homem levantou-se da cadeira, arrumou o paletó e dirigiu-se à
saída. Deu dois passos, voltou-se para o Doutor Alfredo, e
perguntou:
-
Você garante que não vai mais perseguir a minha filha?
Doutor
Alfredo, sentado em sua cadeira, apoiou seus braços no encosto
e, olhando para o homem, disse:
-
Você tem a minha garantia, mas isso depende de você: da
última vez, foi ela que veio me procurar, Ary.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Grandes decisões
Alberto
entrou rapidamente no seu carro, afivelou o cinto de segurança,
guardou o celular no porta-luvas, e partiu. O movimento na rua era
grande, normal para aquele horário: muitos pais vão
buscar os filhos nas escolas, e elas por serem em bairros sem muitas
vias de acesso acabam prejudicando o movimento no entorno. Alberto
não estava muito preocupado com isso. De fato, ele estava tão
consumido por seus pensamentos que nem mesmo ligou o rádio
para lhe ajudar a se distrair. Aquela foi uma semana diferente das
outras para ele.
No
final de semana ele foi com os amigos para uma festa de uma conhecida
de um deles. Alberto não teria a companhia de sua namorada
Susana, que havia ido passar o final de semana na casa de mãe
que vivia em outra cidade. Apesar da preocupação com a
saúde dela, que andava indisposta durante a semana, Alberto
estava exultante por um pouco da vida de solteiro. Normalmente nessas
festas Alberto costumava se destacar, por entreter as pessoas
contando alguma das suas inacreditáveis histórias de
trabalho. Naquela semana Alberto tinha uma história boa: o
coitado do office-boy foi enganado por duas mulheres, que levaram o
dinheiro do escritório. Como seus amigos não eram do
trabalho, ele contava e as pessoas se distraíam bastante, até
pelo modo como ele contava, cheio de gestos, detalhes, mesmo que não
fossem todos verdadeiros. A bebida, a comida e a camaradagem ajudava
a animar a situação, mas a grande surpresa de Alberto
ainda estava por vir.
Enquanto
Alberto foi pegar umas cervejas para os amigos num isopor, ele
percebeu que estava chegando ali um rosto conhecido, inesperado e
muito querido: Elisa, uma colega de trabalho. Alberto foi logo
cumprimentá-la:
- Oi
Elisa, o que tá fazendo aqui?
- Eu
que te pergunto, Beto: A minha amiga é a dona da chácara.
- Eu
vim com o Alencar, parece que ele tá saindo com a sua amiga.
Após
isso, os dois engataram numa conversa só entre eles. Fazia um
bom tempo que os dois já trocavam olhares no serviço, e
um certo flerte rolava no ar. Agora ali, num momento onde poderiam
conversar mais sem a presença auspiciosa de alguém do
escritório, o papo fluiu de forma impressionante. Era mágico
como a conversa deles combinava. Enquanto estavam ali, as horas
passavam rapidamente. O clima entre eles era inegável.
O
único problema de Alberto é que ele era comprometido.
Susana era uma moça adorável, e desde o início
do namoro todos diziam que eles formavam o casal perfeito. Porém
a relação acabou se desgastando bastante com o passar
dos anos. Apesar de morarem em apartamentos diferentes, praticamente
viviam como casados. Mas Alberto já não tinha mais
certeza se queria continuar com o relacionamento. O amor que ele
sentia no início certamente não era mais o mesmo. Cada
encontro com ela trazia um pouco de sofrimento e má-vontade da
parte dele.
Enquanto
dirigia pelas ruas, Alberto lembrou-se novamente do momento em que
percebeu que o namoro não podia continuar mais: Próximo
ao final da festa, Elisa não queria mais ficar, e a anfitriã
não queria levá-la, ela havia pensado em Elisa passar a
noite lá, porém o clima entre a dona da chácara
e o Alencar estava esquentando, e Elisa certamente não queria
segurar vela ali. Alberto logo se ofereceu para levá-la para
casa.
Se
foi erro, se foi acerto, vai da opinião de cada um. O fato é
que durante a viagem até a casa de Elisa, eles foram
conversando, e na despedida, houve um beijo no rosto, um abraço
um pouco mais demorado, um outro beijo no rosto, mais abraço,
um beijo na boca, e os dois acabaram fazendo amor.
No
domingo seguinte, apesar dos momentos intensos da madrugada, a
conversa entre os dois foi um pouco mais séria: Alberto traiu
Agora com Elisa ele se sentia como se estivesse apaixonado pela
primeira vez.
Alberto
falou com Elisa:
-
Oi.
-
Oi.
-
Escuta, a gente tem se visto bastante, e eu devo te confessar que
sinto algo diferente.
- Eu
também sinto algo diferente. Só que eu levo a vida a
sério, quando entro em um relacionamento, é pra valer.
-
Sinto que devo tomar uma decisão também, não
posso continuar com uma mentira.
Assim,
Alberto saiu da festa disposto a botar um ponto final em seu
relacionamento, finalmente a situação chegou ao seu
limite.
No
dia seguinte, Alberto foi trabalhar como sempre, e planejando o que
dizer para Susana. Certamente seria uma longa noite.
Mas
o inesperado aconteceu: pela hora do almoço, Alberto foi
surpreendido por um telefonema de Elisa.
-
Alô Elisa.
Alô
Beto, tem como a gente almoçar juntos? Você vem aqui no
restaurante de frente à repartição, que eu tenho
algo sério para te dizer.
-Está
bem. Tchau.
O
caminho até o restaurante foi tranquilo, o de sempre em cidade
grande, mas os pensamentos de Alberto estavam congestionados. Mil
idéias passavam por sua cabeça: será que ela
quer terminar tudo? Se for isso, é mais tranquilo. Mas, e se
ela tiver outra coisa para contar. Ai meu deus, e se ela tiver
engravidado? Toda essa indecisão na minha vida, eu preciso
tomar uma atitude importante agora, essa é uma decisão
que pode mudar a minha vida para sempre.
Alberto
parou no sinal vermelho. De repente, três pessoas aparecem na
janela do motorista. Uma delas grita:
- É
um assalto, sai do carro.
Alberto
se assusta com a reação, olha para o assaltante que o
interpelou, ele está com um revólver nas mãos.
Alberto no desespero tenta sair do carro, porém não
consegue soltar o cinto de segurança. Os bandidos começam
a perder a paciência:
-
Vamo logo, quer morrer?
- Já
estou tirando! Vamos logo...
A
pressa e a gritaria apenas aumentavam, e tudo piorava conforme o
tempo passava e o sinal logo seria liberado. De repente, no meio de
todo aquele barulho das ruas, o som de um tiro. Os assaltantes saíram
correndo dali.
O
carro permaneceu ali parado no cruzamento. Após a mudança
de sinal, alguns sons de buzinas, veículos passando ao lado, e
aos poucos uma multidão de pessoas passou a se concentrar na
calçada, e seus olhares e comentários falando sobre o
carro branco parado no meio da via pública. Alguns minutos
depois chegou uma viatura da polícia que se posicionou logo
atrás do carro parado. Policiais saíram do veículo
e prontamente fizeram um cordão de isolamento. Em seguida,
dirigiram-se até o carro branco onde olharam atentamente para
o corpo sem vida de Alberto, olhar expressivo, mão na fivela
do cinto, a cabeça pendente para um lado, uma trilha de sangue
marcando seu rosto.
Enquanto
um dos policiais se colocava atrás da viatura conduzindo o
trânsito complicado no local, o outro foi pedir por um guincho
e apooio do instituto de perícia para realizar os
procedimentos necessários. O policial também aproveitou
para buscar um cobertor para cobrir a feição cadavérica
de Alberto, fria e tensa, parada no tempo. Enquanto isso, a vida
corria, com exceção de uma via fechada da avenida, uma
multidão de curiosos alternando a permanência enquanto
faziam as mesmas perguntas a outros curiosos, e um som de telefone
celular tocando insistentemente no porta-luvas.
Assinar:
Postagens (Atom)