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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Projeto "365" abortado

Escrevo para dizer, com certo atraso, que infelizmente a idéia de publicar um conto por dia neste blog foi inviabilizada.
O motivo para isso ter acontecido foi, basicamente, um chamado dos céus: caiu um raio que explodiu o modem e causou sérios danos ao computador, afetando todo o sistema de USB. Isso significa que, mesmo que eu continuasse escrevendo, não conseguiria retirar os contos do computador e jogá-los em outro para serem publicados.
Terminar um projeto desses tão abruptamente não é legal, mas em compensação, pelo menos ele não estava em estágio tão avançado, e por outro lado até que estou apreciando bem o período sem internet, sem acompanhar o tempo todo as mensagens disfarçadas de jornalismo dizendo que o PT dará um golpe de estado comunista no país se a Dilma se reeleger, e outras picuinhas internéticas. No final das contas, o importante é que estou bem.
E você que me lê: está tudo bem contigo?

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

3. As Anotações de Alex

Se tinha uma coisa que as crianças do prédio não suportavam mais era o Alex e sua mania de anotar.
Na rua, nos corredores do prédio, na fila do banco, não importa onde fosse Alex sempre estava anotando alguma coisa. Ele via algo, e anotava; ouvia alguma conversa indevida, lá estava ele transformando fonemas em letras; pensou em algo diferente, não pense que ele iria esquecer sem antes registrar tudo.
Talvez aceitassem mais se levassem em consideração o fato de Alex ser autista, porém, como a mãe dele deixou bem explicado que "ninguém tem nada com isso", as crianças tomaram isso como "carta branca" para que ele fosse julgado como todas as outras, e também em nada ajudava o fato de Alex sempre ignorar todas as tentativas de aproximação que faziam para ele.
Então, foi aí que elas tiveram um plano de roubar o bloquinho de anotações do Alex para ver o que havia escrito ali. O plano foi bem simples: A Laura e a Cristina foram cada uma de um lado dele e sopraram no ouvido. Quando ele se abanou, o Mateus pegou o bloquinho onde ele anotava tudo e saiu correndo e foi direto para o apartamento do Celso onde eles leriam.
Chegando todo mundo no lugar marcado, coube ao Celso, o dono da casa, ser o primeiro a abrir, Eles acharam muito esquisito que só estavam escritas palavras com acento, como "sabiá", "pêssego", "ônibus", E de repente todas elas pararam de ler quando ouviram um grito bem forte do lado de fora: Alex estava gritando, quase chorando. Quando elas viram o desespero, Mateus pegou o bloquinho e correu entregar de volta para ele. Alex calou-se, agarrou o bloquinho entre seus braços e foi andando até a portaria, onde ficou passando os olhos nas palavras.
As crianças ficaram muito tristes e chocadas com a reação que Alex teve, e pensaram em um jeito de fazer as pazes. Cristina teve a idéia: dali a pouco, cada uma das crianças foi até a portaria, onde Alex continuava folheando seu bloquinho, e cada uma delas deu um pedaço de papel com palavras com acento que não tinham no bloquinho: "você", "jóia" "irmão" e "perdão". Alex pegou os papéis fascinado e olhou para eles sorrindo. As crianças sorriram de volta e ficaram com Alex ali, vendo o bloquinho.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

2. O Tesouro

Ele tinha cinqüenta anos de idade. Escalar uma montanha não era mais a mesma coisa que vinte, trinta anos atrás. As pernas se cansam mais, as costas começam a doer, atrasando o passo. As únicas coisas que animam a subida são o clima agradável da montanha, o vento frio daquele dia limpo e ensolarado, e a certeza que de estava perto de alcançar seu objetivo.
Aquele objetivo era o de uma vida inteira, desde quando se interessou por arqueologia: centenas de séculos de história humana existem pelo mundo, escondidos, intocados, cheios de materiais e informações que poderão mudar o modo como vemos o passado, e talvez trazer coisas para o nosso futuro. Descobertas como a tumba de Tutancâmon, ou a Tumba de Felipe II da Macedônia, repletos de jóias e, mais importante, artefatos de época, que ajudam a entender como era a vida daquelas civilizações, encheram caçadores de relíquias durante anos e anos, esperando para encontrar algo parecido, e passaram a dominar os pensamentos dele desde quando, em uma expedição à rota da seda, encontrou indícios de uma arte nunca antes vista. Mais pesquisas e descobertas o levaram a encontrar aquela montanha onde poderia, talvez, achar quem sabe indícios concretos de uma civilização desconhecida até então. Se ele encontrar ali o que procura, terá conseguido muito mais do que seus colegas, professores e até mesmo seus mentores jamais alcançaram.
Enfim, ele chegou ao cume da montanha, em um plateau relativamente horizontal, sem grandes mudanças de nível, exceto pelo que parece ser uma rachadura no centro. Ele parou, soltou sua mochila e descansou um pouco para relaxar os braços e pernas, e principalmente as costas. Não havia muito pelo que correr: a desolação do cume o decepcionou um pouco. O segredo da operação, além da desolação das redondezas e a impossibilidade de fazer uma pesquisa prévia através das fotografias aéreas deixou-lhe praticamente às escuras, mas as pistas pareciam ser boas o bastante para empreender uma aventura como essa. Após as dores cessarem um pouco, ele pegou seus instrumentos e resolveu andar pelo lugar e observar melhor: ainda era muito cedo para chamar o helicóptero para ser resgatado dali. Ao ir até a rachadura, percebeu que havia um declive, um baixo-relevo em formato circular com profundidade de uns trinta centímetros, no formato que parecia o de uma escotilha, comcircunferência de pelo menos uns sessenta, setenta centímetros, mas o fato de ser do mesmo material que a montanha indicava que ali poderia ser alguma espécie de altar de sacrifícios de uma cultura antiga. Observando melhor, não haviam marcas no baixo-relevo que se assemelhassem com inscrições. Ele então resolveu se posicionar bem no círculo para procurar por referências geográficas e algum indício astronômico.
Ao fazer isso, o chão do círculo cedeu e ele caiu em uma vala de um metro e meio. Ele acabou caindo sentado no chão, felizmente sem ferimento algum, a única marca foi o susto da queda, a qual lhe exigiu um certo tempo sentado para se recompor. Ao ficar sentado, seus olhos se acostumaram um pouco com a escuridão da vala e ele percebeu ali um caminho que parecia levar para mais abaixoda montanha. Imediatamente ele atratou de se levantar, buscar mais equipamentos como luz, luvas e voltou rapidamente para o buraco. Aquilo foi tão inesperado que foi como se a juventude tivesse voltado em seu ser. Foi com cuidado, mas numa rapidez até mesmo imprudente, em direção ao apertadíssimo corredor, engatinhando-se.
Após uns dez minutos pelo caminho, ele percebeu que havia finalmente chegado a um salão mais amplo, tão amplo que ele finalmente poderia ficar em pé. A luz não revelava muita coisa, mas parecia ser uma caverna repleta de cilindros grandes, com pelo menos dois metros de comprimento, empilhados pelos cantos. Parecia ser uma biblioteca, como aquela encontrada nas cavernas de Qumran, no Mar Morto, mas não havia sinal algum de jarros, apenas os cilindros enrolados, expostos. Ele tirou rapidamente um par de luvas, vestiu-as e foi direto manusear o cilindro mais próximo Ao colocá-lo no chão e desenrolar cuidadosamente o cilindro, ele se lembrou da primeira vez em que viu um pedaço de tapete que não tinha absolutamente nada a ver com qualquer outra tapeçaria da região. Ela parecia ter símbolos coerentes e minúsculos gravados em sua trama, o que foi sua primeira dica. Não precisou avançar muito, no primeiro metro ele já reconheceu imediatamente os mesmos padrões, dessa vez na tapeçaria inteira. Aqueles tapetes eram documentos que contavam alguma coisa, e pela grossura, o tapete estendido chegaria facilmente aos dez metros. Ele nunca havia sentido tanta felicidade na vida. Aquela descoberta vai render pelo menos uma vida inteira de estudos,
E aí foi quando lhe deu uma grande angústia: Ao sair dali, além de pedir o helicóptero de resgate, fazer a segurança do lugar, pedir por verba extra da universidade, contratar outros arqueólogos, montar o sítio, ainda teria que decifrar os símbolos, reler tudo, traduzir, enfim, estudos para uma vida inteira, e é uma vida que ele não teria mais. A idade havia chegado, passou tanto tempo olhando por pistas, evidências, fazendo caminhos, tudo em busca de conteúdo que talvez ele jamais poderá conhecer em seu tempo de vida.
Ele respirou fundo, liberou o ar com todas as forças que podia e, para si mesmo, disse em voz alta:
- Bom, parece que é melhor não perder tempo! Melhor aprender o que eu puder antes de fazer outra coisa.
Colocou a mão direita na cintura, sentiu a câmera fotográfica, e tratou logo de desenrolar totalmente o primeiro tapete.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

1. Uma Sombra do Passado

De que adiantam anos e anos de terapia quando nenhuma terapia é capaz de te preparar para reviver seus traumas? Essa foi a descoberta que Luana fez quando viu em sua frente, depois de tanto tempo, o rosto de seu estuprador olhando para ela.
Não adiantou nada tantas regressões, tantos exercícios, tantas revisitas tentando encontrar cada ponto que lhe incomodava, e procurando entender tudo o que tinha acontecido para que aquilo não a afetasse nunca mais e ela pudesse ter uma vida normal, trabalhar sem medo, quem sabe até ter um relacionamento novamente, se casar, ter filhos. A visão daquele sujeito lhe fez voltar ao tempo até o dia do acontecimento: retornaram as cores, os cheiros, os calores, o medo, a insegurança e a dor daquele dia. Ecoava em sua cabeça os gritos de socorro que ninguém ouviu, os tapas que ela recebeu, os risos de deboche e auto-suficiência daquele covarde.
E enquanto isso acontecia na mente de Luana, era como se o mundo inteiro tivesse parado perante aquele momento tão intenso de reencontrar seu algoz ali, perto do caixa, com uma sacola plástica em uma mão, abraçado a um pacote de pão de forma na outra mão. A moça da caixa registradora sentada, olhando impaciente para que o senhor viesse passar suas compras, uma outra senhora no caixa ao lado irritada tirando o pacote de biscoito recheado das mãos de seu filho, que olhava para o embrulho como se não houvesse mais nada em volta, um outro senhor esperando na fila olhando para a criança com cara de desprezo, enquanto segurava seu embrulho de carne moída e uma pequena garrafa de cachaça com uma das mãos e um pacote de pão francês pendurado no mesmo braço, a ponto de cair no chão. Estavam todos ali preocupados com suas próprias vidas, seus próprios incômodos diários, sem imaginar a história daquela dupla de vítima e algoz, no mesmo mercado que eles, fingindo viver.
Nada seria melhor para Luana que esse momento nunca tivesse ocorrido. Exceto o estupro, claro, mas ela não sabe como ela seria, que vida ela teria se aquilo não existisse. Nem ela nem ninguém sabe, nem mesmo o estuprador sabe como seria se não tivesse feito isso. Fazer suposições nunca chegam a lugar algum, pois elas exigem todo tipo de pressupostos sobre os detalhes mais ínfimos, que não podem ser taxados como irrelevantes. E além disso, cada pessoa vive apenas uma vez. O passado nos assusta porque não há como saber como será o futuro. Para a pessoa traumatizada é muito pior, pois o passado volta dolorido como um golpe de faca. Qualquer coisa que traga uma simples memória do evento já machuca, por isso quem tem trauma vive em constante estado de paranóia.
Era isso que Luana não esperava quando esse encontro fatídico aconteceu. O passado havia se distanciado, a vida parecia estar entrando nos eixos, aquela menina ferida estava sorrindo novamente, brilhando para o mundo inteiro ver mais uma vez. Ao olhar nos olhos de seu violador novamente, seu coração se arrebentou, e sua alma se eclipsou.

0. Introdução

Em todo final de ano, as pessoas fazem suas resoluções para o ano seguinte: colocam em mente uma lista de pequenas atitudes, mudanças de comportamento, que podem gerar uma transformação para melhor em suas vidas. Transformam a mudança de ano em um começo de uma vida nova. Fazer exercícios, começar uma dieta, tomar banho todos os dias estão na lista da maioria das pessoas.
Mas é um tipo de lista que as pessoas raramente cumprem: os primeiros dias são cheios de animação e comprometimento. Falo de primeiros dias porque quase ninguém começa no primeiro dia do ano: normalmente deixam para o segundo ou terceiro, especialmente se a virada do ano é em final de semana. Querem começar depois de passado os efeitos da festança, mas o final é inevitável: Conforme os dias vão passando, a disposição para seguir aquele compromisso vai diminuindo, até que, a um toque de despertador, toda aquela história de comprometimento pareceu mais um sonho amalucado do que algo a se levar a sério.
E é por isso que, começando com palavras tão inspiradoras, lanço aqui a minha resolução de Ano Novo: a partir do dia 1º de janeiro até o dia 31 de dezembro do ano de 2014, publicarei neste site um conto por dia. Já começo um pouco atrasado, mas aí é só questão de alcançar o ritmo. Tratará de ser um exercício literário complexo, cansativo, e que já tentei outras vezes neste mesmo site e não fui bem-sucedido, mas pelo menos, se não for em frente, existirá a justificativa de que os contos são apenas um capricho de ano novo. Não digam que não avisei!
Mas, para tentar terminar sob uma luz positiva, devo dizer que talvez o compromisso não tenha dado certo das outras vezes por uma falta de planejamento, falta de foco, preguiça, ou uma combinação de todos esses fatores juntos. Para evitar que essas coisas aconteçam novamente, estabelecei novos procedimentos que, se falharem, terão efeitos graves sobre outros aspectos de minha vida. É quase um compromisso de sangue.
E agora, ao final deste texto, começo aqui, neste momento, o projeto "365". Será um conto publicado por dia, em um tamanho razoável, sem falta. Os contos começarão com o número correspondente do dia do ano. Eu até falaria mais, porém já começo atrasado, é hora de ganhar ritmo e iniciar imediatamente!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O acordo

Noite de terça-feira. Em um bar muito parecido com um pub inglês, o movimento era fraco. O local era um ponto de encontro de estudantes, mas o movimento só ficava forte a partir da quinta-feira. Cidade universitária tem dessas coisas, e os donos de bar já esperam por algo assim.
Sentado em uma mesa, sozinho, um homem corpulento, de meia idade, fumava seu charuto, e bebericava uísque cowboy, aquele sem gelo, entre as tragadas. Aparentemente não estava afim de muita conversa, mas também não estava chamando particular atenção das outras pessoas.
Logo entrou no bar uma mulher por volta de trinta anos, bem vestida. Ao entrar, correu os olhos pelas mesas, e ao observar o sujeito sentado sozinho, dirigiu-se até ele e o cumprimentou:
- Olá, há quanto tempo.
- Senta aí. - respondeu rispidamente o cavalheiro. Sem perder o sorriso suspeito do rosto, a figura feminina sentou-se.
- Como vai o senhor? Alguma novidade no serviço? - Perguntou a distinta senhora. Ela esperava por uma resposta, porém não a que ouviu:
- Vai mal. Acabei de voltar de um velório.
A mulher se assustou.
- Olha, eu não tenho nada a ver com isso, nós fizemos o que o senhor falou...
- Não foi isso não: foi um rapaz da contabilidade; Tentaram assaltá-lo no trânsito, ele tomou um tiro e morreu. - continuou o homem. - Você fez o que tinha que fazer.
A mulher ficou sem reação. O homem continuou:
- E então, estava a contento?
- Claro que sim, exatamente como o senhor falou. Não era muita coisa, mas...
- Era o suficiente. - interrompeu o homem. - E aí, estamos acertados?
- Acho que sim. Bem, foi bom fazer negócios com você, até a próxima vez então...
- Não haverá próxima vez. - O homem segurou a mão da mulher na mesa. A moça fez uma cara de assustada, olhou para o balcão.
Uma outra mão segurou no braço do homem:
- Deixa ela ir, acertar negócios é comigo. - falou o homem que acabou de chegar. O homem sentado imediatamente o reconheceu:
- Doutor Alfredo!
O homem largou o braço da mulher, que saiu andando rapidamente pela porta. Doutor Alfredo acomodou-se na mesma cadeira em que a mulher anteriormente estava e começou:
- Devo dizer que o que você fez me surpreendeu bastante. Já lidei com muitos bandidos, muitas pessoas sem escrúpulos, pessoas capazes de vender o próprio filho por ninharia, mas desse tipo de gente nós sabemos o que esperar. Nunca esperei que você fizesse isso que fez. Isso pode te dar problemas no futuro.
- Dos meus problemas cuido eu. - respondeu o homem, charuto na mão. Apesar da expressão calma, o charuto se consumia sozinho por entre seus dedos.
- Ora, que tratamento é esse? O que aconteceu contigo? E a nossa amizade de tantos anos?
- Nossa amizade está quitada, a última parcela já foi paga!
Doutor Alfredo sorriu, o mesmo sorriso que a mulher o havia presenteado, e falou:
- Ah, mas amizades são mais fortes que dinheiro. Amizade também tem a ver com cumplicidade, companheirismo, compromissos...
Nisso o homem se exaltou:
- Acabou! Eu sempre cumpri com a minha palavra durante todos esses anos, paguei tudo o que lhe devia! Mas agora eu não sou mais a mesma pessoa: se isso continuar, acredite: não vai sobrar bar, não vai sobrar cassino, não vai sobrar boca para te salvar. Eu sempre cumpri com minha palavra, e você sabe disso!
Doutor Alfredo olhou para o chão, fungou fortemente e falou, com desinteresse:
- Bom, é justo, você pode ficar tranquilo, ninguém vai te incomodar.
- O quanto eu posso acreditar nisso?
- Eu sempre cumpri a minha palavra, e o senhor sabe disso. - respondeu Doutor Alfredo.
O homem levantou-se da cadeira, arrumou o paletó e dirigiu-se à saída. Deu dois passos, voltou-se para o Doutor Alfredo, e perguntou:
- Você garante que não vai mais perseguir a minha filha?
Doutor Alfredo, sentado em sua cadeira, apoiou seus braços no encosto e, olhando para o homem, disse:
- Você tem a minha garantia, mas isso depende de você: da última vez, foi ela que veio me procurar, Ary.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Grandes decisões

Alberto entrou rapidamente no seu carro, afivelou o cinto de segurança, guardou o celular no porta-luvas, e partiu. O movimento na rua era grande, normal para aquele horário: muitos pais vão buscar os filhos nas escolas, e elas por serem em bairros sem muitas vias de acesso acabam prejudicando o movimento no entorno. Alberto não estava muito preocupado com isso. De fato, ele estava tão consumido por seus pensamentos que nem mesmo ligou o rádio para lhe ajudar a se distrair. Aquela foi uma semana diferente das outras para ele.
No final de semana ele foi com os amigos para uma festa de uma conhecida de um deles. Alberto não teria a companhia de sua namorada Susana, que havia ido passar o final de semana na casa de mãe que vivia em outra cidade. Apesar da preocupação com a saúde dela, que andava indisposta durante a semana, Alberto estava exultante por um pouco da vida de solteiro. Normalmente nessas festas Alberto costumava se destacar, por entreter as pessoas contando alguma das suas inacreditáveis histórias de trabalho. Naquela semana Alberto tinha uma história boa: o coitado do office-boy foi enganado por duas mulheres, que levaram o dinheiro do escritório. Como seus amigos não eram do trabalho, ele contava e as pessoas se distraíam bastante, até pelo modo como ele contava, cheio de gestos, detalhes, mesmo que não fossem todos verdadeiros. A bebida, a comida e a camaradagem ajudava a animar a situação, mas a grande surpresa de Alberto ainda estava por vir.
Enquanto Alberto foi pegar umas cervejas para os amigos num isopor, ele percebeu que estava chegando ali um rosto conhecido, inesperado e muito querido: Elisa, uma colega de trabalho. Alberto foi logo cumprimentá-la:
- Oi Elisa, o que tá fazendo aqui?
- Eu que te pergunto, Beto: A minha amiga é a dona da chácara.
- Eu vim com o Alencar, parece que ele tá saindo com a sua amiga.
Após isso, os dois engataram numa conversa só entre eles. Fazia um bom tempo que os dois já trocavam olhares no serviço, e um certo flerte rolava no ar. Agora ali, num momento onde poderiam conversar mais sem a presença auspiciosa de alguém do escritório, o papo fluiu de forma impressionante. Era mágico como a conversa deles combinava. Enquanto estavam ali, as horas passavam rapidamente. O clima entre eles era inegável.
O único problema de Alberto é que ele era comprometido. Susana era uma moça adorável, e desde o início do namoro todos diziam que eles formavam o casal perfeito. Porém a relação acabou se desgastando bastante com o passar dos anos. Apesar de morarem em apartamentos diferentes, praticamente viviam como casados. Mas Alberto já não tinha mais certeza se queria continuar com o relacionamento. O amor que ele sentia no início certamente não era mais o mesmo. Cada encontro com ela trazia um pouco de sofrimento e má-vontade da parte dele.
Enquanto dirigia pelas ruas, Alberto lembrou-se novamente do momento em que percebeu que o namoro não podia continuar mais: Próximo ao final da festa, Elisa não queria mais ficar, e a anfitriã não queria levá-la, ela havia pensado em Elisa passar a noite lá, porém o clima entre a dona da chácara e o Alencar estava esquentando, e Elisa certamente não queria segurar vela ali. Alberto logo se ofereceu para levá-la para casa.
Se foi erro, se foi acerto, vai da opinião de cada um. O fato é que durante a viagem até a casa de Elisa, eles foram conversando, e na despedida, houve um beijo no rosto, um abraço um pouco mais demorado, um outro beijo no rosto, mais abraço, um beijo na boca, e os dois acabaram fazendo amor.
No domingo seguinte, apesar dos momentos intensos da madrugada, a conversa entre os dois foi um pouco mais séria: Alberto traiu Agora com Elisa ele se sentia como se estivesse apaixonado pela primeira vez.
Alberto falou com Elisa:
- Oi.
- Oi.
- Escuta, a gente tem se visto bastante, e eu devo te confessar que sinto algo diferente.
- Eu também sinto algo diferente. Só que eu levo a vida a sério, quando entro em um relacionamento, é pra valer.
- Sinto que devo tomar uma decisão também, não posso continuar com uma mentira.
Assim, Alberto saiu da festa disposto a botar um ponto final em seu relacionamento, finalmente a situação chegou ao seu limite.
No dia seguinte, Alberto foi trabalhar como sempre, e planejando o que dizer para Susana. Certamente seria uma longa noite.
Mas o inesperado aconteceu: pela hora do almoço, Alberto foi surpreendido por um telefonema de Elisa.
- Alô Elisa.
Alô Beto, tem como a gente almoçar juntos? Você vem aqui no restaurante de frente à repartição, que eu tenho algo sério para te dizer.
-Está bem. Tchau.
O caminho até o restaurante foi tranquilo, o de sempre em cidade grande, mas os pensamentos de Alberto estavam congestionados. Mil idéias passavam por sua cabeça: será que ela quer terminar tudo? Se for isso, é mais tranquilo. Mas, e se ela tiver outra coisa para contar. Ai meu deus, e se ela tiver engravidado? Toda essa indecisão na minha vida, eu preciso tomar uma atitude importante agora, essa é uma decisão que pode mudar a minha vida para sempre.
Alberto parou no sinal vermelho. De repente, três pessoas aparecem na janela do motorista. Uma delas grita:
- É um assalto, sai do carro.
Alberto se assusta com a reação, olha para o assaltante que o interpelou, ele está com um revólver nas mãos. Alberto no desespero tenta sair do carro, porém não consegue soltar o cinto de segurança. Os bandidos começam a perder a paciência:
- Vamo logo, quer morrer?
- Já estou tirando! Vamos logo...
A pressa e a gritaria apenas aumentavam, e tudo piorava conforme o tempo passava e o sinal logo seria liberado. De repente, no meio de todo aquele barulho das ruas, o som de um tiro. Os assaltantes saíram correndo dali.
O carro permaneceu ali parado no cruzamento. Após a mudança de sinal, alguns sons de buzinas, veículos passando ao lado, e aos poucos uma multidão de pessoas passou a se concentrar na calçada, e seus olhares e comentários falando sobre o carro branco parado no meio da via pública. Alguns minutos depois chegou uma viatura da polícia que se posicionou logo atrás do carro parado. Policiais saíram do veículo e prontamente fizeram um cordão de isolamento. Em seguida, dirigiram-se até o carro branco onde olharam atentamente para o corpo sem vida de Alberto, olhar expressivo, mão na fivela do cinto, a cabeça pendente para um lado, uma trilha de sangue marcando seu rosto.
Enquanto um dos policiais se colocava atrás da viatura conduzindo o trânsito complicado no local, o outro foi pedir por um guincho e apooio do instituto de perícia para realizar os procedimentos necessários. O policial também aproveitou para buscar um cobertor para cobrir a feição cadavérica de Alberto, fria e tensa, parada no tempo. Enquanto isso, a vida corria, com exceção de uma via fechada da avenida, uma multidão de curiosos alternando a permanência enquanto faziam as mesmas perguntas a outros curiosos, e um som de telefone celular tocando insistentemente no porta-luvas.