Páginas

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Hunter M.

Uma hora se passou desde que Hunter M. falou ao telefone com Magda, sua esposa. Não se deve nunca confiar nesses momentos de impulsividade. A hora que se passou foi de grande agonia, mesmo para um sujeito forte como Hunter M., que nunca fraquejou ante as diversas adversidades que enfrentou ao longo de sua vida.
Eis que Hunter M., isolado em tarefa especial, agora precisava encarar mais esse desafio. O inimigo que até então era feroz e desconhecido agora tornara-se íntimo de sua família, ele descobriu. Em muitos momentos de confronto direto, nunca pensou que esse dia chegaria. Calafrios passavam por sua pele, perturbações aninhavam-se em seu cérebro, palpitações escavavam seu coração. Hunter M. precisava manter a calma sob todas as circunstâncias, afinal sempre agiu com grande frieza e encarou a todos os terrores com uma também terrível naturalidade, era como se ele fosse primo direto do senhor da escuridão. Massacres, tragédias, nada disso o impedia de percorrer milhas e milhas de terra para realizar suas missões. Sempre com a calma que tornou-se sua marca registrada, a "serenidade hunteriana", como seus parceiros de front a chamavam, Hunter M. desafiava a terrível roda retalhadora que vinha sem freios nem pudores para cima de todas as pessoas, estraçalhando e mutilando sem preconceito de raça ou credo.
Hunter M. sempre encarou a guerra como parte da natureza das coisas. Cada lado de uma guerra está em busca da superioridade, do direito de seus integrantes existirem. O fato de a superioridade ser propriedade de senhores de hierarquia mais alta que não guerreiam, de muitos entrarem nas guerras sem saber ou entender realmente quais os motivos e de o direito de existir ser conquistado através de sua própria morte não lhe importava. Ele via que, da mesma forma que em um jogo de football, é o resultado do embate em campo que determina o futuro não só dele e de seus parentes, como de seus companheiros e de suas respectivas famílias. Muitos sentimentos horríveis que no final das contas são expressões de um sentimento de amor que supera toda a pequenez sem sentido: amor à família, amor ao lar, amor ao seu estilo de vida, a preservação de suas vidas e a busca de condições melhores para que cada um possa ir atrás de seus desejos e ambições, de sua perpetualidade, de seus queridos pais, de suas queridas esposas, de seus queridos filhos e netos.
Mas uma guerra pode ser suja de muitas maneiras. Aquele telefonema de uma vez só revelou a Hunter M. várias camadas de uma vez só. Magda, sua ex-esposa, ligou para informar da situação em casa. Em situações de guerra, nossa casa é o local onde podemos nos alienar da horrível realidade circundante e nos prepararmos para dar continuidade ao serviço bélico de cada dia. É onde se busca motivação para continuar. O problema é que isso nem sempre coincide com o pensamento de quem está esperando. Thomas, o filho mais velho de Hunter M., era uma dessas pessoas. Jovem universitário, reagia apaixonadamente contra a guerra, via nela um antagonismo desnecessário entre duas entidades de massa que, em sua essência, eram similares. Thomas acreditava na coexistência pacífica entre as partes, um pensamento que, para Hunter M., era simplesmente maluco naquele momento em que a situação se encontrava, mas Thomas não era o único a pensar assim. Havia um grupo de oposição à guerra bem estabelecido dentro da sociedade chamado de Andróides Espirituais, buscando ora soluções diplomáticas, ora sabotando os esforços de guerra, e que Thomas acabou entrando de cabeça e participando de forma bastante ativa. Thomas exercia uma liderança encantadora entre seus pares, num claro reflexo de seu pai, em mais uma forma de se mostrar como lados antagônicos podem ser muito parecidos. A boa organização desse grupo acabou dando origem ao movimento dos Jovens Aspirantes, grupo de resistência que existia basicamente para combater as atividades dos Andróides Espirituais. Esse grupo enxergava a mesma loucura e insanidade que Hunter M. via em suas atividades, e as exerciam da mesma forma radical, porém não tão serena. Em uma situação do cotidiano, Thomas levava seus irmãos menores até a escola, quando, na entrada, foi reconhecido como andróide espiritual por um membro dos Jovens Aspirantes, que deixou a situação transcorrer normalmente e avisou aos outros. Mais tarde, enquanto Thomas voltava para casa com seus irmãos que havia acabado de buscar na escola, o carro foi cercado por outros carros. De dentro do enorme furgão sem placa da frente, um grupo de mascarados com revólveres cercaram o veículo e atiraram nas janelas. Thomas e seus irmãos faleceram naquela hora.
Eis que Hunter M. se via agora em uma situação completamente inédita:seus olhos esbugalhados não conseguiam disfarçar a dor e a tristeza que tomou conta de seu ser. A serenidade hunteriana se esvaneceu, a cortina desceu, o teatro acabou.
E então, Hunter M. chorou.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

História Roubada

Hoje acordei feliz: saí do hospital, depois de tanto tempo internado que até perdi a conta. Os raios de sol no rosto, ah, como é bom estar livre para ir e vir, e ter o dia todo pela frente, chegou a hora de correr atrás da minha felicidade! Vou rever meus amigos, faz tempo que não os vejo, e agora é hora de me reaproximar deles e comemorar a vida!
Fábio e Diogo são os meus dois grandes amigos! Fábio era meu amigo desde a escola, ele sempre comigo, a gente sempre junto por aí. Diogo fui conhecer depois, ele é da faculdade, aí um dia o Fábio foi comigo numa festa e a gente se conheceu e depois começou a andar por aí. A gente é um trio bem unido, aproveitava todas as festas, e é isso aí, a gente é jovem, tem que aproveitar a vida agora, que senão depois não aproveita mais, amizade é estar junto, é dar risada, é se apoiar nos bons e maus momentos.
Tenho muito orgulho dos meus amigos e também tenho muita sorte, pois além dos amigos, existe uma pessoa especial, que mora no meu coração: Mariana. Ela trabalha e quer ser professora. Tinha ido com meus amigos até o trabalho dela, e ela me atendeu muito bem, foi um momento tão especial... sempre que falava com ela, eu tremia por dentro, como se todo o amor do mundo quisesse sair para fora e inundar o recinto. Ela era tão meiga e pura, não era como as outras que conheci. Depois que saímos, conversamos sobre ela, e me fiz de desinteressado, mas no fundo, estava encantando com aquela mulher, tão linda, uma postura tão digna, um olhar tão inocente... o mundo ficou mais bonito apartir daquele momento. Hoje ela saberá do meu amor por ela. Conversamos tantas vezes desde então, mas nunca tive coragem de me declarar para ela. Sentia que de vez em quando, enquanto conversávamos, o olhar dela se perdia, ficava distante, era um olhar de desilusão. Era como se ela esperasse para que eu tomasse alguma atitude, mas tinha medo da reação dela, o que ela poderia pensar, se eu estava sendo muito apressado. Mas depois desse tempo no hospital, percebi o quanto a gente pode perder quando não se vai atrás do que se quer. A vida continua passando pelos nossos olhos, e quando a gente fica parado, percebe como tudo passa rapidamente, e que se você não agarrar a sua felicidade, talvez ela passe tão rápido que depois nunca irá alcançar.
Então, que surpresa, logo no começo do dia acabei encontrando o Diogo, ele estava junto com umas pessoas que eu não conhecia. Fui falar com ele, dizer "E aí, beleza?" e ele passou reto, como se nem me conhecesse. Chamei de novo, ele podia não ter ouvido, falei "? Diogo, há quanto tempo, cara!", ele me respondeu secamente, como querendo ir embora. Insisti pra falar com ele, falei "? Diogo, qual é? Faz mó tempo que a gente não se fala, você nem passou no hospital lá, queria te chamar, você e o Fábio, pra gente sair", o Diogo falou "Depois a gente conversa cara, tô ocupado". Insisti na conversa "Mas eu saí hoje do hospital, tu vai dar mancada comigo assim é?", aí ele se virou para mim e disse "Que se foda de onde você veio, vá para o meio do inferno!" Ele já tinha sido estúpido comigo antes,mas dessa vez foi diferente, foi com irritação. E ele continuou: "Pra mim chega, já cansei de agüentar você empatando a minha vida", e aí ele não parou mais: "Quer saber de uma coisa? Nunca fui com a tua cara, ninguém vai com a tua cara, moleque! Tu é ridículo, fica andando junto comigo, botando banca, mas por trás todo mundo ri da tua cara, que você não vale porra nenhuma! Tu é a maior piada das festas. Some daqui, palhaço, Não quero te ver nunca mais!". Na hora me deu muita raiva, e enquanto ele ia embora, para mim não tinha terminado, ia com tudo para cima dele, mas aí eu reparei que um dos amigos dele, que tava me encarando antes, tava com uma arma escondida por baixo da blusa. Meu problema não era com o amigo do Diogo, então resolvi ir embora.
Olha, eu não esperava ser tratado daquele jeito, ainda mais em público! O que mais dói nem é tudo o que ele disse, mas o modo como disse. Eu não tinha muito contato com ele, era mais nas festas mesmo, mas era sempre nós três: eu, ele e o Fábio, e ele nunca tinha ficado irritado assim antes. Será possível que todo esse tempo andando junto era só falsidade? Mas tem que ser muita falsidade! Como que pode ter gente assim no mundo?
Não podia me conformar, fui atrás do Fábio na mesma hora! Liguei pra ele, ele tava perto, e fui falar com ele, conversar um pouco. É engraçado, quando converso com ele, mesmo depois de muito tempo, é como se a gente tivesse se falado pela última vez ontem. Embora a gente já estivesse um pouco distante nos últimos tempos, é como se o tempo não tivesse passado. Sempre me senti à vontade para falar com ele sobre várias coisas, ele me aconselhava bastante sobre alguns problemas pessoais, algumas tretas com uns caras, é quase como um irmão mesmo pra mim, a gente tinha os mesmos gostos musicais, ia nos mesmos lugares, pensava parecido sobre várias coisas, ele sempre me mostrava uns livros que ele arrumava, era bem legal.
Mas hoje ele tava meio seco, falei sobre tudo que aconteceu com o Diogo, mas sei lá, acho que ele não tava prestando muita atenção no que eu dizia. Na verdade ele estava prestando atenção um pouco, tanto que quando mencionei que um dos caras que estavam com o Diogo tinha uma arma, ele ficou um tanto preocupado, perguntou da arma, mas falei que tava tudo bem, eu nem tinha falado com esse cara, só vi ela de relance, mas ele não parecia ser amigo do Diogo. Nesse momento fiquei mais tranqüilo, porque achei que ele se preocupou comigo. Quando mudei de assunto, falei sobre meus planos hoje, "Fábio hoje vou me declarar pra mina que eu tô afim, quero pedir uma ajuda pra tu", mas ele disse "Cara, vai pra casa, tu acabou de sair, que hoje eu preciso ver umas coisas", ali eu senti que ele não tava querendo me ajudar. Perguntei "Qual é, Fábio, me dá umas dicas, tô meio nervoso", e aí ele começou a me atacar, falou "você não entende nada, né? Fica pensando só em você, é você pra cá, você pra lá. Você já se preocupou com alguém além de você mesmo na vida?" Perguntei se ele estava querendo me ofender, mas ele pediu desculpas, estava meio nervoso, tava sem cabeça pra conversar na hora, a gente se despediu ali, ele foi para o outro lado e eu fui me preparar para o meu grande momento, me encontrar com Mariana!
Mariana... no primeiro momento em que vi seu rosto, sabia que a amava, e que ela seria a mulher com quem eu estaria e viveria junto pelo resto da minha vida! Aquele sorriso maravilhoso, sempre quando penso nele, sorrio junto, é incrível, é automático! Não importa o que aconteceu hoje, amigos vem a vão, nunca fui muito chegado no Diogo mesmo, sempre o achei estranho, vou seguir o plano e hoje é o dia de pedir para ela ficar comigo!
Fui pra casa, coloquei minha melhor roupa, comprei umas flores tão bonitas na floricultura, gastei um dinheirão, mas tudo bem, o meu amor por ela vale até muito mais, e que ramalhete enorme! Fui felizão até o trabalho dela, e no caminho pensei em muitas coisas: imaginei os lugares onde iríamos passear, passar o dia no parque, viajar nos finais de semana, os churrascos com a família reunida, minha e dela, os nossos amigos... pensei no casamento, que bonito, nossos filhos brincando por aí, um casalzinho, seriam os melhores irmãos um para o outro. No futuro, nós dois velhos, vendo os netos, a casa cheia, e a certeza de que fizemos o mundo ficar melhor com a nossa história... aí estava chegando lá perto, e percebi que ela estava do outro lado da rua. Fui atrás dela, ia chamar-lhe pelo nome, e foi quando vi...
Não pode ser verdade! Os dois juntos, ela olhando para ele, ele falando com ela, segurando suas mãos... e aí, se beijaram... fiquei parado no meio da rua, o ramalhete nos braços, todo mundo olhando... que vergonha, que vergonha! Ela abraçada com ele, o beijando, meu melhor amigo, e eu ali as flores na mão, flores tão bonitas, tão cheirosas, escolhi com tanto cuidado, tanta paixão... Por que roubar a minha felicidade, por quê? A gente tinha sido feito para ficar juntos nós dois, não pode ser isso, não pode! Era a minha história, era meu futuro, era a minha vida!
Será possível que a minha vida inteira vai ser assim, quando eu me esforço, quando busco aquilo que tenho certeza que é para sempre, quando corro atrás, me passam a rasteira, pisam em cima de mim, e riem da minha cara, todos, todos! Nunca se importaram comigo, eu fiquei naquele hospital sozinho, com medo de morrer, nunca me visitaram, e era por isso! E ela, deve ter sido enganada por ele, e como não percebi antes? Foi só eu ficar internado, trataram de me esquecer, eles nunca foram meus amigos. Sempre fui amigo deles, sempre estive com eles para qualquer coisa, era só me pedir! Eles estão numa boa, podem ser felizes, por que eu não posso ser feliz também? Eu sou um ser humano, eu amo, eu me importo com os meus amigos, eu quero ir bem na minha vida, por que eles me abandonaram, por que me maltrataram, por que me roubaram o que eu tinha de alegria? O dia de hoje foi muito longo, estou cansado...
Fui acordado por um policial, me assustei, ele me pediu pra ir com ele até a delegacia, precisava falar comigo. Fui até lá muito preocupado, me pediram para reconhecer uma pessoa, perguntaram sobre se eu o conhecia, e então me contaram...
Mariana morreu... Fábio morreu... eles acreditam que foi um crime passional... o assassino foi preso em flagrante, Diogo estava lá também... eu olhava para ele e só conseguia me perguntar "Por quê?"