Eva chegou ontem em
casa. Ao não encontrar ninguém acordado, deixou suas
malas no chão e recostou-se no sofá. A viagem havia
sido longa, e Eva não estava disposta nem mesmo a fazer uma
simples pergunta para ver se alguém estava ali. Eva só
tinha dois pensamentos na cabeça naquele momento: "preciso
dormir urgentemente" e "nunca mais viajo de ônibus".
A tentação
motivada pelo cansaço fez com que Eva, de recostada,
ajeitasse-se ali mesmo no sofá para dormir. Deitou-se de
bruços, tirou as sandálias do pé de qualquer
jeito e procurou puxar a mala até si. Então, abriu-a,
tirando dela uma pequena almofada e um cobertor. Tirou seus brincos,
seu colar e os colocou dentro da bolsa que levava a tiracolo,
guardando-a dentro da mala.
Ao fechar os olhos, Eva
lembrou-se de que teria que apagar a luz da sala, mas era esforço
demais, tinha acabado de se deitar, mas não conseguiria dormir
com a luz acesa. Pensou em cobrir a cabeça com o cobertor,
porém lembrou-se que a família poderia se incomodar e
acabar acordando. E lá foi Eva levantar-se para apertar aquele
interruptor. "Se pelo menos ele funcionasse igual o do corredor
do prédio, que desliga sozinho depois de um tempo...",
pensou Eva. "Mas que idéia idiota! Se fosse assim dentro
de casa, teria que acender a luz o tempo todo durante a noite...".
Eva apagou a luz e foi dormir.
Já com os olhos
fechados, continuou a pensar naquela idéia anterior. "Poderia
ter um interruptor com duas etapas: uma que mantivesse a luz por
apenas um tempo limitado, e outra para deixar a luz acesa direto...
mas quem iria querer um interruptor assim? Quando cheguei, eu acendi
a luz para que ela ficasse acesa por mais do que alguns segundos,
além disso, teria o problema de, se apertar um pouco mais
forte, o interruptor travar na função de luz acesa
permanente..."
E assim,. Eva caiu no
sono, levando seus pensamentos em uma viagem sensorial sem ligação
com a realidade das coisas, que serão um segredo até
para ela mesma quando acordar. Poucos conhecem ou já foram
capazes de perceber o caminho que a imaginação faz
desde os pensamentos coerentes até o sonho em si, onde você
já não tem mais o controle do que está pensando.
O sonho, assim como a longa viagem que Eva fez para chegar em casa,
passa por caminhos que muitas vezes não estamos interessados
em observar.
Enquanto isso, Eva
dorme no sofá da casa, devidamente coberta, sandálias
jogadas ao chão, bagagem deitada ao lado, luzes apagadas. Ela,
indiferente aos outros da casa, eles, alheios à presença
dela. Viagens, além de serem um grande desperdício de
tempo, promovem essa impessoalização, onde você
chega no pior horário, e depois de passar tanto tempo
distante, é incapaz fisicamente de celebrar o reencontro com
os seus. Mas, cada um possui seus compromissos, suas razões
para viajar, e algumas viagens podem ser boas. Além disso,
sempre tem o dia seguinte, um dia inteiro para celebrar a união,
não é?
Exceto quando não
é. Eva rompeu um aneurisma enquanto dormia. Suas ações,
seus pensamentos, suas atitudes, serão um mistério para
todos que conviveram com ela. Hoje o dia é para os familiares
sofrerem o choque e a tristeza de sua perda. Mais tarde, acontecerá
o terrível velório, onde parentes distantes, amigos e
conhecidos especularão se sua morte foi devida ao cansaço
ou ao uso de drogas.
As pessoas às
vezes pensam demais e sentem de menos.