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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Chegando de viagem

Eva chegou ontem em casa. Ao não encontrar ninguém acordado, deixou suas malas no chão e recostou-se no sofá. A viagem havia sido longa, e Eva não estava disposta nem mesmo a fazer uma simples pergunta para ver se alguém estava ali. Eva só tinha dois pensamentos na cabeça naquele momento: "preciso dormir urgentemente" e "nunca mais viajo de ônibus".
A tentação motivada pelo cansaço fez com que Eva, de recostada, ajeitasse-se ali mesmo no sofá para dormir. Deitou-se de bruços, tirou as sandálias do pé de qualquer jeito e procurou puxar a mala até si. Então, abriu-a, tirando dela uma pequena almofada e um cobertor. Tirou seus brincos, seu colar e os colocou dentro da bolsa que levava a tiracolo, guardando-a dentro da mala.
Ao fechar os olhos, Eva lembrou-se de que teria que apagar a luz da sala, mas era esforço demais, tinha acabado de se deitar, mas não conseguiria dormir com a luz acesa. Pensou em cobrir a cabeça com o cobertor, porém lembrou-se que a família poderia se incomodar e acabar acordando. E lá foi Eva levantar-se para apertar aquele interruptor. "Se pelo menos ele funcionasse igual o do corredor do prédio, que desliga sozinho depois de um tempo...", pensou Eva. "Mas que idéia idiota! Se fosse assim dentro de casa, teria que acender a luz o tempo todo durante a noite...". Eva apagou a luz e foi dormir.
Já com os olhos fechados, continuou a pensar naquela idéia anterior. "Poderia ter um interruptor com duas etapas: uma que mantivesse a luz por apenas um tempo limitado, e outra para deixar a luz acesa direto... mas quem iria querer um interruptor assim? Quando cheguei, eu acendi a luz para que ela ficasse acesa por mais do que alguns segundos, além disso, teria o problema de, se apertar um pouco mais forte, o interruptor travar na função de luz acesa permanente..."
E assim,. Eva caiu no sono, levando seus pensamentos em uma viagem sensorial sem ligação com a realidade das coisas, que serão um segredo até para ela mesma quando acordar. Poucos conhecem ou já foram capazes de perceber o caminho que a imaginação faz desde os pensamentos coerentes até o sonho em si, onde você já não tem mais o controle do que está pensando. O sonho, assim como a longa viagem que Eva fez para chegar em casa, passa por caminhos que muitas vezes não estamos interessados em observar.
Enquanto isso, Eva dorme no sofá da casa, devidamente coberta, sandálias jogadas ao chão, bagagem deitada ao lado, luzes apagadas. Ela, indiferente aos outros da casa, eles, alheios à presença dela. Viagens, além de serem um grande desperdício de tempo, promovem essa impessoalização, onde você chega no pior horário, e depois de passar tanto tempo distante, é incapaz fisicamente de celebrar o reencontro com os seus. Mas, cada um possui seus compromissos, suas razões para viajar, e algumas viagens podem ser boas. Além disso, sempre tem o dia seguinte, um dia inteiro para celebrar a união, não é?
Exceto quando não é. Eva rompeu um aneurisma enquanto dormia. Suas ações, seus pensamentos, suas atitudes, serão um mistério para todos que conviveram com ela. Hoje o dia é para os familiares sofrerem o choque e a tristeza de sua perda. Mais tarde, acontecerá o terrível velório, onde parentes distantes, amigos e conhecidos especularão se sua morte foi devida ao cansaço ou ao uso de drogas.
As pessoas às vezes pensam demais e sentem de menos.