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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

A hipnose de João Augusto

João Augusto colocou o livro em cima da mesa. Havia muito tempo que ele não o lia, e agora que releu sentiu-se revigorado e pronto para usar suas "novas habilidades".
O interesse pela hipnose surgiu faz uns cinco anos atrás, quando seu amigo Eugênio emprestou-lhe um guia sobre hipnose que ele encontrou na faculdade. Antes disso ele via demonstrações de hipnose na televisão mas isso não lhe chamava particular atenção. O surgimento daquele livro através das mãos de seu amigo mudou tudo. João Augusto leu o livro em dois dias e ficou fascinado, especialmente pelas histórias sobre como as pessoas justificam para si mesmas as ações provocadas pelos comandos do hipnólogo. Não demorou muito tempo para que ele comprasse um livro parecido em um sebo, e após a aquisição, lia-o compulsivamente, página após página, relendo partes que não compreendia direito. Ao acabar o livro, voltava à primeira página e repassava todos os pontos. Aquele assunto de hipnose foi como se tivesse aberto um novo mundo de possibilidades. De repente, as tão difíceis e complicadas relações sociais estavam resolvidas através de um atalho que me permitiria obter tudo o que quisesse com literalmente um "estalar de dedos".
Não há dúvidas de que João Augusto foi bastante aplicado àquela leitura, o problema residia no fato de que ele não conseguia assimilar as instruções ou mesmo copiar os procedimentos. Algo o impedia de seguir com a idéia da hipnose, talvez por uma certa insegurança de que não seguiu as técnicas à risca, e um motivo mais velado de puro medo por não conseguir hipnotizar e o pior:ser descoberto em sua tentativa de manipular a mente das pessoas. "Como se alguém tivesse motivo decente para se interessar por hipnose", pensava ele. Era um motivo bom e justo, só não era moral. E graças a essas reservas e outras preocupações preferenciais, a hipnose foi aos poucos sendo deixada de lado até finalmente ocupar uma posição insignificante em sua lista de interesses.
Mas, com o passar do tempo, as coisas não foram facilitando. Encontrar emprego para alguém sem experiência é muito difícil. Sem emprego, fica difícil também arranjar dinheiro para saídas noturnas, e em um determinado momento os amigos param de convidar, já não falava com Eugênio fazia uns nove meses. Sem emprego nem amigos, fica impossível conquistas amorosas. Por isso João Augusto passava os dias no computador acessando a internet, mandando currículos vazios para agências de emprego e estudando para concursos públicos em que nunca passava. As portas pareciam se fechar cada vez mais com o passar dos dias, mas isso até, em um dia de limpeza de rotina da casa, resolveu mexer em umas prateleiras e reencontrou aquele livro há muito esquecido. A lembrança daquele livro e seus prometidos poderes mentais que o levariam para além das capacidades humanas reacenderam a chama dos desejos internos de João Augusto.
Com tantas derrotas na vida, em seu desespero, João Augusto decidiu apostar sua pouca sorte com a hipnose, e enquanto relia o livro, todo o aprendizado voltava à sua memória, as frases tão devidamente decoradas, os comandos, e o tempo distante do livro revelou a ele uma nova série de significados que ele não havia compreendido na época, por não ter uma mente mais amadurecida. E isso impressionou João Augusto a ponto de finalmente dar uma guinada em direção a algo melhor para sua vida e tentar hipnotizar alguma pessoa na rua.
Ele resolveu tentar uma técnica que funcionaria muito bem para abordagem com pessoas na rua. Como João Augusto aprendeu com seu livro, a hipnose não é exatamente um sono, mas sim um estado alterado da consciência. Para ativar na pessoa o estado alterado, não é necessário que faça essa pessoa dormir. Em muitos casos, basta apenas incutir uma confusão mental na pessoa. Ao fazer várias perguntas diferentes de uma só vez, desviar a atenção do ouvinte para diferentes lugares e coisas, a pessoa acaba incapaz de acompanhar a linha de pensamento do emissor da mensagem e o cérebro acaba entrando nesse estado alterado, onde instruções podem ser passadas para a pessoa através de seu subconsciente, que de acordo com a teoria, aceita as instruções passivamente.
E João Augusto, após repassar o truque várias vezes no caminho para a rua do comércio, deixou para decidir ali o que faria após conseguir hipnotizar sua vítima. "Talvez eu mande ele dar um pulo no meio da rua quando um carro buzinar, ou então tente levar uma televisão de uma loja", João Augusto pensava enquanto ria por dentro com as infinitas possibilidades que aquilo proporcionaria.
Na rua, ao procurar a pessoa perfeita, evitou as mulheres, que poderiam lhe deixar mais nervoso e incapaz de fazer o que planejava com atenção e decidiu escolher um senhor de terno que caminhava decididamente pela calçada. "É só um teste, só preciso de um teste", era o que ele pensava constantemente ao se aproximar do sujeito. Enquanto isso, no seu íntimo, pensava no que faria com os novos poderes adquiridos. Pensou em utilizar a hipnose para conseguir um emprego. Pensou em ligar para o Eugênio, marcar uma saída para a balada. E na balada, imaginava quantas e quantas conquistas conseguiria...
- Bom dia, senhor, pode me ajudar um pouco? - diz alegremente João Augusto.
- Estou com pressa, não posso - diz o senhor na rua
- Eu só preciso de uma direção, não sou daqui, quero saber onde fica a praça central, não sei se fica para ali ou para lá - dizia João Augusto enquanto gesticulava apontando direções diferentes. O senhor de terno olhava fixamente para o rosto dele, visivelmente irritado.
Talvez pelo nervosismo, faltou a João Augusto a lembrança de que apenas pessoas em um determinado estado mental são suscetíveis a sugestões hipnóticas, e faltou também a percepção de que o sujeito que ele havia abordado não estava interagindo com ele amigavelmente, o foco do sujeito estava todo em se livrar daquele incômodo, por isso no momento em que João Augusto decidiu fazer o movimento final do truque, perguntando as horas e colocando suas mãos nos ombros alheios, esperando com isso que o senhor de terno caísse hipnotizado, o homem agiu instintivamente afastando os braços daquele hipnólogo promissor e com um soco certeiro, João Augusto tomba no chão. Sob o olhar de uma dezena de transeuntes perplexos, a corrida irritada do senhor de terno fugindo da cena, João Augusto está estirado no chão, a nuca dói, imediatamente ele leva a mão à face, o olho dói mais ainda, está roxo.
E caído, ele sorri.
Pela primeira vez João Augusto ganhou alguma coisa com a hipnose.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A redação da escola

Bianca terminou de escrever seu texto. Ela sentiu alívio e satisfação por ter feito um bom trabalho. "Este vai ganhar um dez!", pensou ela consigo mesma.
Não havia motivos para não pensar assim. Sempre foi uma ótima aluna de português, e gostava muito de redação, especialmente de escrever histórias como a desse dia. Tinha paixão por leitura, tinha a mania de sempre ler os livros didáticos em casa para passar o tempo. Consequentemente, não ia mal nas outras matérias também. Foi com essa certeza que entregou sua redação à professora, que lhe disse:
- Que bom que terminou logo, Bianca! Vou ler isso e amanhã te darei a nota!
Bianca não tinha grandes preocupações na vida além de se dedicar aos exames e de zelar pela saúde de suas bonecas. Por isso a noite foi cheia de expectativas. Ela demorou para pegar no sono, pensando em qual outra oportunidade ela teria para escrever novamente.
Na manhã do dia seguinte, Bianca foi com sua mãe e seu pai até a escola. Na entrada, sua mãe lhe falou:
- Bianca, você não vai entrar na aula ainda. A professora quer falar com a gente.
Bianca acabou de ganhar mais uma preocupação em sua vida tranquila. Os minutos passavam de forma firme e vagarosa, enquanto Bianca não se agüentava de ansiedade. Eis que surge, de repente, a vice-diretora, que os cumprimenta e pede:
- Bianca, vamos para a minha sala para eu conversar com você um pouquinho?
Bianca soltou a mão de sua mãe, agarrou a mão da vice-diretora e foi com ela até a sala.
Ao entrar, Bianca sentou-se em uma cadeira de frente para a mesa da vice-diretora.
- Oi Bianca, como é que você está?
- Bem.
- Como que estão as coisas na sua casa? Tá tudo tranquilo?
- Tá tudo tranquilo.
- Tá tranquilo mesmo, querida? Não tem alguma coisa que está incomodando? - Naquele momento, a única coisa que incomodava Bianca era entender por que estava conversando com a vice.
- Não tem alguma coisa que está incomodando - falou Bianca.
- Bianca, foi você que escreveu esta redação, não é? - e Bianca viu, nas mãos da vice, sua redação do dia anterior.
- Sim, fui eu - disse Bianca, rapidamente sorrindo ao assumir, com orgulho, a autoria do texto.
- Bianca, a sua professora leu a sua redação e ficou muito preocupada com você. Por que você fez esta história? - e a vice colocou a redação na frente de Bianca.
- É que eu não quis contar história alegre, e contei uma história triste - falou Bianca, com uma leve franqueza em sua voz.
- Meu bem, você conhece algum pai que bate na filhinha dele e se tranca no quarto com ela que nem o da história? - perguntou a vice-diretora, indo direto ao ponto.
- Não conheço - respondeu a menina.
- Pode contar, querida. É alguma amiguinha sua? Se você contar para mim, ela não vai apanhar mais - dizia a vice, curvando-se em direção à garota.
- Não conheço ninguém, tia. Eu inventei a história - disse Bianca, cerrando as mãos.
- Mas como foi que você inventou a história?
- Ah, inventando. Eu vou ser reprovada? - perguntou Bianca, já com medo.
- Bianca, eu falei com a sua professora, ela não vai reprovar você, mas ela quer que você faça outra redação, com final feliz.
- Mas eu não quero fazer outra redação! - respondeu Bianca. - Eu sempre faço com final feliz, agora eu quero fazer com final diferente!
- Você vai ter que mudar o final, querida, senão a professora não vai te dar nota boa - ao dizer isso a vice-diretora sai da sala e volta com a professora e a mãe de Bianca.
- Filha, faça outra redação - pediu a mãe de Bianca.
- Bianca, você escreve bem, você gosta de fazer redação, é só fazer outra, aí você faz uma bem bonita com final feliz - falou a professora.
- Mas eu quero a história triste - falou chorosamente Bianca.
A vice-diretora então pegou uma borracha, colocou-a na mão de Bianca, segurou a mão, e perguntou:
- Vamos apagar essa história feia? Nós ajudamos você.
Bianca chorava sem parar enquanto a vice-diretora, a professora e sua mãe a ajudavam a apagar aquela redação. Bianca teve uma vida tranquila com sua mãe, e com o tempo acabou esquecendo-se desse dia, tempo que alivia as dores, mas não some com as cicatrizes.
Bianca nunca mais foi boa aluna de redação.

sábado, 1 de dezembro de 2012

O carrão do Aderbal

Uma sexta-feira, noite de alegria no bairro. Metade animada com o final de semana, um quarto se preparando para a churrascada depois do trabalho de meio-período no sábado, e o outro quarto indiferente a tudo, pois finais de semana não alteram suas rotinas de ofício. O bar, movimentado como sempre, as crianças a brincar na rua, as mulheres a fazerem compras e compartilhar segredos das famílias alheias, um dia perfeitamente normal, não fosse a chegada, ao virar a esquina, de algo muito especial.
Nos trinta ou quarenta anos de existência daquele bairro, já haviam passado naquela rua vários carros, mas dentre todos os carros, não havia passado nenhum tão bonito e tão caro quanto o do Aderbal. Carro amarelo, linhas esportivas, design aerodinâmico, aquele veículo chamava muita atenção. Qualquer transeunte se permitia encarar o automóvel por segundos a fio, esquecendo-se do que estava fazendo. Não era todo dia que se via um superesportivo italiano andando pelas ruas daquele bairro. Aderbal, com o maior sorriso do mundo, estava cheio de si, sentindo-se como o príncipe de Mônaco enquanto percorria o caminho até sua casa, respirando fundo e curtindo cada segundo daquele desfile pelo tapete asfáltico.
Já os vizinhos entenderam que Aderbal estava louco. Como podia ter gastado tanto dinheiro com um carro? "Virou imã de bandido", era o comentário que mais se ouvia daquele pessoal. "Galera tá se mordendo de inveja", pensava Aderbal toda vez ao ver as pessoas da rua enquanto guardava seu carro. Ao mesmo tempo que as pessoas julgavam o comportamento de Aderbal, também tinham uma certa preocupação de que ele tivesse ido para a bandidagem, afinal o preço de um veículo desse tipo é centenas de vezes maior do que os ganhos de um mecânico como ele. Mecânico ganha bem, mas precisa trabalhar muito e Aderbal não teria tempo ou dinheiro para uma sandice dessas.
Mas a pior reação vinha de sua família. Sua esposa estava possessa: "Como pôde gastar todo o nosso dinheiro com essa porcaria? A gente combinou que iria comprar uma casa perto da de mamãe!". Além das finanças pessoais, havia outra coisa que preocupava Jéssica: ela e os vizinhos tinham ciência de certas propriedades magnéticas do possante, só que, enquanto os vizinhos pensavam em jovens bem armados, a mulher imaginava jovens bem ousadas. Enfim, na cabeça de todo mundo, aquele carro veloz levava mais rápido para o céu, mas pegava um atalho que passava pelo meio do inferno, e sabe-se lá se o carro não se perde no meio do caminho, ou se o piloto faz uma paradinha para se aliviar e aí...
Naquela noite, ninguém dormiu direito. A casa de Aderbal toda iluminada, e a briga rolava solta, uma briga como nunca houvera antes ali. Nas outras casas, luzes acesas, famílias nas varandas, odor de pipoca quente, aproveitando o show audiofônico vindo da agora famosa casa, o mais novo farol do bairro a clarear os egos ao redor. Entre a vizinhança, surgiam apostas das mais diversas: quanto tempo até a venda do automóvel; quantos dias até o carro ser roubado; até quando vai durar o casamento... e no avançar da madrugada, todos foram dormir, esperando ansiosamente pelo dia seguinte.
De tudo que foi dito e imaginado, ninguém poderia imaginar que o futuro daquele carro seria decidido por um simples nome: Jairo.
Jairo, o grande amigo de Aderbal. O cara que tantas vezes foi acompanhado por Aderbal até compromissos de família ou idas ao cartório, se levado em conta o que Jéssica ouviu durante todo esse tempo. Jairo, muito gente boa, chegou logo no dia seguinte decidido a cobrar de Aderbal alguma compensação por tantas ajudas oferecidas. Aderbal ficou bem desanimado, estava pensando em curtir o carro no final de semana, mas para não provocar um revisionismo histórico em sua esposa, aceitou emprestar o bólido, afinal, para que servem os amigos, não é mesmo? Enquanto Aderbal ficou em casa soletrando "chantagem", Jairo partiu.
Era muita felicidade para um rapaz só. "Mas que carro incrível", ele gritava, enquanto navegava por entre ônibus e outros carros. Nunca havia entrado em um veículo tão rápido e tão luxuoso. Jairo só pensava no que iria fazer durante o dia: primeiro iria passar no banco, tirar uma graninha que havia reservado para o natal, e fazer uma comemoração antecipada sozinho, "pero no mucho". Jairo sentiu-se no céu... até ignorar um sinal vermelho e chegar ao portal do paraíso na velocidade do pensamento.
Enquanto Jairo pegou o caminho mais rápido para o outro mundo, Aderbal perdeu-se no atalho do inferno: teve dificuldade durante alguns meses para conseguir retirar a grana do seguro, e logo que a retirou, depositou na conta judicial aberta pela família de seu falecido amigo, que o havia processado, e a história do Aderbal ficou muito conhecida no bairro, e em várias ocasiões é relembrada por quase todos, cada um dizendo um detalhe diferente do outro. A única versão que ninguém conhece é a do próprio Aderbal, e não tem nem como perguntar para ele, afinal ele acabou saindo do bairro. Foi morar com a esposa na casa da mãe da Jéssica.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Hunter M.

Uma hora se passou desde que Hunter M. falou ao telefone com Magda, sua esposa. Não se deve nunca confiar nesses momentos de impulsividade. A hora que se passou foi de grande agonia, mesmo para um sujeito forte como Hunter M., que nunca fraquejou ante as diversas adversidades que enfrentou ao longo de sua vida.
Eis que Hunter M., isolado em tarefa especial, agora precisava encarar mais esse desafio. O inimigo que até então era feroz e desconhecido agora tornara-se íntimo de sua família, ele descobriu. Em muitos momentos de confronto direto, nunca pensou que esse dia chegaria. Calafrios passavam por sua pele, perturbações aninhavam-se em seu cérebro, palpitações escavavam seu coração. Hunter M. precisava manter a calma sob todas as circunstâncias, afinal sempre agiu com grande frieza e encarou a todos os terrores com uma também terrível naturalidade, era como se ele fosse primo direto do senhor da escuridão. Massacres, tragédias, nada disso o impedia de percorrer milhas e milhas de terra para realizar suas missões. Sempre com a calma que tornou-se sua marca registrada, a "serenidade hunteriana", como seus parceiros de front a chamavam, Hunter M. desafiava a terrível roda retalhadora que vinha sem freios nem pudores para cima de todas as pessoas, estraçalhando e mutilando sem preconceito de raça ou credo.
Hunter M. sempre encarou a guerra como parte da natureza das coisas. Cada lado de uma guerra está em busca da superioridade, do direito de seus integrantes existirem. O fato de a superioridade ser propriedade de senhores de hierarquia mais alta que não guerreiam, de muitos entrarem nas guerras sem saber ou entender realmente quais os motivos e de o direito de existir ser conquistado através de sua própria morte não lhe importava. Ele via que, da mesma forma que em um jogo de football, é o resultado do embate em campo que determina o futuro não só dele e de seus parentes, como de seus companheiros e de suas respectivas famílias. Muitos sentimentos horríveis que no final das contas são expressões de um sentimento de amor que supera toda a pequenez sem sentido: amor à família, amor ao lar, amor ao seu estilo de vida, a preservação de suas vidas e a busca de condições melhores para que cada um possa ir atrás de seus desejos e ambições, de sua perpetualidade, de seus queridos pais, de suas queridas esposas, de seus queridos filhos e netos.
Mas uma guerra pode ser suja de muitas maneiras. Aquele telefonema de uma vez só revelou a Hunter M. várias camadas de uma vez só. Magda, sua ex-esposa, ligou para informar da situação em casa. Em situações de guerra, nossa casa é o local onde podemos nos alienar da horrível realidade circundante e nos prepararmos para dar continuidade ao serviço bélico de cada dia. É onde se busca motivação para continuar. O problema é que isso nem sempre coincide com o pensamento de quem está esperando. Thomas, o filho mais velho de Hunter M., era uma dessas pessoas. Jovem universitário, reagia apaixonadamente contra a guerra, via nela um antagonismo desnecessário entre duas entidades de massa que, em sua essência, eram similares. Thomas acreditava na coexistência pacífica entre as partes, um pensamento que, para Hunter M., era simplesmente maluco naquele momento em que a situação se encontrava, mas Thomas não era o único a pensar assim. Havia um grupo de oposição à guerra bem estabelecido dentro da sociedade chamado de Andróides Espirituais, buscando ora soluções diplomáticas, ora sabotando os esforços de guerra, e que Thomas acabou entrando de cabeça e participando de forma bastante ativa. Thomas exercia uma liderança encantadora entre seus pares, num claro reflexo de seu pai, em mais uma forma de se mostrar como lados antagônicos podem ser muito parecidos. A boa organização desse grupo acabou dando origem ao movimento dos Jovens Aspirantes, grupo de resistência que existia basicamente para combater as atividades dos Andróides Espirituais. Esse grupo enxergava a mesma loucura e insanidade que Hunter M. via em suas atividades, e as exerciam da mesma forma radical, porém não tão serena. Em uma situação do cotidiano, Thomas levava seus irmãos menores até a escola, quando, na entrada, foi reconhecido como andróide espiritual por um membro dos Jovens Aspirantes, que deixou a situação transcorrer normalmente e avisou aos outros. Mais tarde, enquanto Thomas voltava para casa com seus irmãos que havia acabado de buscar na escola, o carro foi cercado por outros carros. De dentro do enorme furgão sem placa da frente, um grupo de mascarados com revólveres cercaram o veículo e atiraram nas janelas. Thomas e seus irmãos faleceram naquela hora.
Eis que Hunter M. se via agora em uma situação completamente inédita:seus olhos esbugalhados não conseguiam disfarçar a dor e a tristeza que tomou conta de seu ser. A serenidade hunteriana se esvaneceu, a cortina desceu, o teatro acabou.
E então, Hunter M. chorou.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

História Roubada

Hoje acordei feliz: saí do hospital, depois de tanto tempo internado que até perdi a conta. Os raios de sol no rosto, ah, como é bom estar livre para ir e vir, e ter o dia todo pela frente, chegou a hora de correr atrás da minha felicidade! Vou rever meus amigos, faz tempo que não os vejo, e agora é hora de me reaproximar deles e comemorar a vida!
Fábio e Diogo são os meus dois grandes amigos! Fábio era meu amigo desde a escola, ele sempre comigo, a gente sempre junto por aí. Diogo fui conhecer depois, ele é da faculdade, aí um dia o Fábio foi comigo numa festa e a gente se conheceu e depois começou a andar por aí. A gente é um trio bem unido, aproveitava todas as festas, e é isso aí, a gente é jovem, tem que aproveitar a vida agora, que senão depois não aproveita mais, amizade é estar junto, é dar risada, é se apoiar nos bons e maus momentos.
Tenho muito orgulho dos meus amigos e também tenho muita sorte, pois além dos amigos, existe uma pessoa especial, que mora no meu coração: Mariana. Ela trabalha e quer ser professora. Tinha ido com meus amigos até o trabalho dela, e ela me atendeu muito bem, foi um momento tão especial... sempre que falava com ela, eu tremia por dentro, como se todo o amor do mundo quisesse sair para fora e inundar o recinto. Ela era tão meiga e pura, não era como as outras que conheci. Depois que saímos, conversamos sobre ela, e me fiz de desinteressado, mas no fundo, estava encantando com aquela mulher, tão linda, uma postura tão digna, um olhar tão inocente... o mundo ficou mais bonito apartir daquele momento. Hoje ela saberá do meu amor por ela. Conversamos tantas vezes desde então, mas nunca tive coragem de me declarar para ela. Sentia que de vez em quando, enquanto conversávamos, o olhar dela se perdia, ficava distante, era um olhar de desilusão. Era como se ela esperasse para que eu tomasse alguma atitude, mas tinha medo da reação dela, o que ela poderia pensar, se eu estava sendo muito apressado. Mas depois desse tempo no hospital, percebi o quanto a gente pode perder quando não se vai atrás do que se quer. A vida continua passando pelos nossos olhos, e quando a gente fica parado, percebe como tudo passa rapidamente, e que se você não agarrar a sua felicidade, talvez ela passe tão rápido que depois nunca irá alcançar.
Então, que surpresa, logo no começo do dia acabei encontrando o Diogo, ele estava junto com umas pessoas que eu não conhecia. Fui falar com ele, dizer "E aí, beleza?" e ele passou reto, como se nem me conhecesse. Chamei de novo, ele podia não ter ouvido, falei "? Diogo, há quanto tempo, cara!", ele me respondeu secamente, como querendo ir embora. Insisti pra falar com ele, falei "? Diogo, qual é? Faz mó tempo que a gente não se fala, você nem passou no hospital lá, queria te chamar, você e o Fábio, pra gente sair", o Diogo falou "Depois a gente conversa cara, tô ocupado". Insisti na conversa "Mas eu saí hoje do hospital, tu vai dar mancada comigo assim é?", aí ele se virou para mim e disse "Que se foda de onde você veio, vá para o meio do inferno!" Ele já tinha sido estúpido comigo antes,mas dessa vez foi diferente, foi com irritação. E ele continuou: "Pra mim chega, já cansei de agüentar você empatando a minha vida", e aí ele não parou mais: "Quer saber de uma coisa? Nunca fui com a tua cara, ninguém vai com a tua cara, moleque! Tu é ridículo, fica andando junto comigo, botando banca, mas por trás todo mundo ri da tua cara, que você não vale porra nenhuma! Tu é a maior piada das festas. Some daqui, palhaço, Não quero te ver nunca mais!". Na hora me deu muita raiva, e enquanto ele ia embora, para mim não tinha terminado, ia com tudo para cima dele, mas aí eu reparei que um dos amigos dele, que tava me encarando antes, tava com uma arma escondida por baixo da blusa. Meu problema não era com o amigo do Diogo, então resolvi ir embora.
Olha, eu não esperava ser tratado daquele jeito, ainda mais em público! O que mais dói nem é tudo o que ele disse, mas o modo como disse. Eu não tinha muito contato com ele, era mais nas festas mesmo, mas era sempre nós três: eu, ele e o Fábio, e ele nunca tinha ficado irritado assim antes. Será possível que todo esse tempo andando junto era só falsidade? Mas tem que ser muita falsidade! Como que pode ter gente assim no mundo?
Não podia me conformar, fui atrás do Fábio na mesma hora! Liguei pra ele, ele tava perto, e fui falar com ele, conversar um pouco. É engraçado, quando converso com ele, mesmo depois de muito tempo, é como se a gente tivesse se falado pela última vez ontem. Embora a gente já estivesse um pouco distante nos últimos tempos, é como se o tempo não tivesse passado. Sempre me senti à vontade para falar com ele sobre várias coisas, ele me aconselhava bastante sobre alguns problemas pessoais, algumas tretas com uns caras, é quase como um irmão mesmo pra mim, a gente tinha os mesmos gostos musicais, ia nos mesmos lugares, pensava parecido sobre várias coisas, ele sempre me mostrava uns livros que ele arrumava, era bem legal.
Mas hoje ele tava meio seco, falei sobre tudo que aconteceu com o Diogo, mas sei lá, acho que ele não tava prestando muita atenção no que eu dizia. Na verdade ele estava prestando atenção um pouco, tanto que quando mencionei que um dos caras que estavam com o Diogo tinha uma arma, ele ficou um tanto preocupado, perguntou da arma, mas falei que tava tudo bem, eu nem tinha falado com esse cara, só vi ela de relance, mas ele não parecia ser amigo do Diogo. Nesse momento fiquei mais tranqüilo, porque achei que ele se preocupou comigo. Quando mudei de assunto, falei sobre meus planos hoje, "Fábio hoje vou me declarar pra mina que eu tô afim, quero pedir uma ajuda pra tu", mas ele disse "Cara, vai pra casa, tu acabou de sair, que hoje eu preciso ver umas coisas", ali eu senti que ele não tava querendo me ajudar. Perguntei "Qual é, Fábio, me dá umas dicas, tô meio nervoso", e aí ele começou a me atacar, falou "você não entende nada, né? Fica pensando só em você, é você pra cá, você pra lá. Você já se preocupou com alguém além de você mesmo na vida?" Perguntei se ele estava querendo me ofender, mas ele pediu desculpas, estava meio nervoso, tava sem cabeça pra conversar na hora, a gente se despediu ali, ele foi para o outro lado e eu fui me preparar para o meu grande momento, me encontrar com Mariana!
Mariana... no primeiro momento em que vi seu rosto, sabia que a amava, e que ela seria a mulher com quem eu estaria e viveria junto pelo resto da minha vida! Aquele sorriso maravilhoso, sempre quando penso nele, sorrio junto, é incrível, é automático! Não importa o que aconteceu hoje, amigos vem a vão, nunca fui muito chegado no Diogo mesmo, sempre o achei estranho, vou seguir o plano e hoje é o dia de pedir para ela ficar comigo!
Fui pra casa, coloquei minha melhor roupa, comprei umas flores tão bonitas na floricultura, gastei um dinheirão, mas tudo bem, o meu amor por ela vale até muito mais, e que ramalhete enorme! Fui felizão até o trabalho dela, e no caminho pensei em muitas coisas: imaginei os lugares onde iríamos passear, passar o dia no parque, viajar nos finais de semana, os churrascos com a família reunida, minha e dela, os nossos amigos... pensei no casamento, que bonito, nossos filhos brincando por aí, um casalzinho, seriam os melhores irmãos um para o outro. No futuro, nós dois velhos, vendo os netos, a casa cheia, e a certeza de que fizemos o mundo ficar melhor com a nossa história... aí estava chegando lá perto, e percebi que ela estava do outro lado da rua. Fui atrás dela, ia chamar-lhe pelo nome, e foi quando vi...
Não pode ser verdade! Os dois juntos, ela olhando para ele, ele falando com ela, segurando suas mãos... e aí, se beijaram... fiquei parado no meio da rua, o ramalhete nos braços, todo mundo olhando... que vergonha, que vergonha! Ela abraçada com ele, o beijando, meu melhor amigo, e eu ali as flores na mão, flores tão bonitas, tão cheirosas, escolhi com tanto cuidado, tanta paixão... Por que roubar a minha felicidade, por quê? A gente tinha sido feito para ficar juntos nós dois, não pode ser isso, não pode! Era a minha história, era meu futuro, era a minha vida!
Será possível que a minha vida inteira vai ser assim, quando eu me esforço, quando busco aquilo que tenho certeza que é para sempre, quando corro atrás, me passam a rasteira, pisam em cima de mim, e riem da minha cara, todos, todos! Nunca se importaram comigo, eu fiquei naquele hospital sozinho, com medo de morrer, nunca me visitaram, e era por isso! E ela, deve ter sido enganada por ele, e como não percebi antes? Foi só eu ficar internado, trataram de me esquecer, eles nunca foram meus amigos. Sempre fui amigo deles, sempre estive com eles para qualquer coisa, era só me pedir! Eles estão numa boa, podem ser felizes, por que eu não posso ser feliz também? Eu sou um ser humano, eu amo, eu me importo com os meus amigos, eu quero ir bem na minha vida, por que eles me abandonaram, por que me maltrataram, por que me roubaram o que eu tinha de alegria? O dia de hoje foi muito longo, estou cansado...
Fui acordado por um policial, me assustei, ele me pediu pra ir com ele até a delegacia, precisava falar comigo. Fui até lá muito preocupado, me pediram para reconhecer uma pessoa, perguntaram sobre se eu o conhecia, e então me contaram...
Mariana morreu... Fábio morreu... eles acreditam que foi um crime passional... o assassino foi preso em flagrante, Diogo estava lá também... eu olhava para ele e só conseguia me perguntar "Por quê?"