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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A lápide

A morte é uma parte da vida
onde a vida deixa de haver.
Tanto faz para aquele
que vive a vida sem viver.

Andando pelas alamedas de um grande cemitério, ele caminha em uma direção exata. Tem na memória todo o itinerário fúnebre, que todo ano, sempre naquela data, se repete. Em outras ocasiões, não costuma reparar nos túmulos à sua volta, porém naquele dia, ele decidiu reparar naquela multidão de casas, algumas de mármore, outras de granito, muitas de alvenaria. Todas em uma infinidade de formas retangulares e chapadas, organizando-se em volta das pequenas ruas como casas de uma grande cidade. O porte ia de túmulos simples a algumas mini-capelas, outros exuberantes memoriais e mesmo algumas construções gigantescas, verdadeiras mansões, últimas demonstrações de poder de pessoas que dentro delas usufruem do sono eterno.
Ele sempre considerou tudo aquilo uma grande tolice. De que importa toda aquela ostentação se dentro daqueles monumentos exuberantes, placas de bronze cuidadosamente forjadas, flores coloridas perfumando o ambiente, escondiam-se, enfurnados em caixas tenebrosas de madeira, corpos decrépitos, que serviam somente à apreciação dos organismos minúsculos que os devoravam, repetindo o ciclo da vida indefinidamente até que ali nada mais houvesse e esses outrora agentes do destino, transformadores do panorama, acabassem em ossos limpos e desarranjados, entocados em plúmbeos sacos de lixo por entediados coveiros que, da morte, ganham a vida. Ele via todas aquelas urnas funéreas e aquela multidão de pessoas falecidas, gritando por atenção sem garganta, não lhe significavam absolutamente nada. Ele nem da cidade era, havia saído de lá na infância, foi seguir sua vida em outro lugar. Não se sentia pertencente àquele lugar, exceto por um único laço que o prendia ali.
O lugar nunca lhe saiu da cabeça. Enquanto virava uma esquina, lembrava-se de por que estava ali, de por quem estava ali. Lembrava-se de seu irmão mais novo, aquele que por algumas noites carregou nos braços, ele, seis anos mais velho, velando seu sono, observando-o sorrir, chorar tantas vezes, engatinhar no chão de terra batida. Seu irmão havia morrido de sarampo quando tinha um ano de idade. Seus pais após isso o enterraram e foram para outra cidade. Desde então, todo ano, pai, mãe e ele iam até lá visitar o pequeno falecido, rezar, contar as novidades, pequenos gestos de conforto para eles mesmos.
Com o passar dos anos, seus pais faleceram, e ele passou a ir sozinho. Algumas vezes levou a esposa, mas ela não gostava de acompanhá-lo naquelas idas chatas e demoradas. Vinte anos depois, ela faleceu de moléstia prolongada, um período muito sofrido. Eles não tiveram filhos, e ele nunca mais se casou, velho que estava. Com o tempo, os amigos também pereceram, mas nenhum deles jamais rivalizou a atenção que ele depositava para seu querido parente. Todos os anos, no dia do aniversário de sua morte, ele ia até lá religiosamente, com uma preocupação constante de sempre lembrar-se dele pelo menos por aquele dia.
E agora, ali então ele chegava na quadra onde jazia os restos mortais de seu irmãozinho morto com um ano, ele ali vivo aos noventa anos, respirando com dificuldade, para o que ele sentia ser sua última visita ao irmão. Enquanto atravessava os vários túmulos que cobriam a vista do jazigo, refletia sobre o futuro: não sobrara ninguém de sua família. Tios, primos, amigos, estavam todos em outras cidades, em seus próprios túmulos, cuidando de suas mortes. Parou de frente ao túmulo, fez o sinal da cruz, olhou, e notou o que talvez os outros anos tivessem escondido dele: ali havia apenas uma simples tampa de cimento ao chão, e uma lápide extremamente simples, contendo unicamente o nome, data de nascimento e data de morte. Agora ele estava perto do fim da vida, não sobraram parentes vivos que conhecessem sua existência. Ninguém o veria, coberto que estava por túmulos maiores à sua volta. Seu irmão ficaria ali, para sempre esquecido, no túmulo mais simples do cemitério. Ele então, ao invés de dizer "Bom dia", como sempre fez durante todos aqueles anos, ele disse:
- Talvez fosse melhor ter feito um túmulo maior...