A morte é uma
parte da vida
onde a vida deixa de
haver.
Tanto faz para
aquele
que vive a vida sem
viver.
Andando pelas alamedas
de um grande cemitério, ele caminha em uma direção
exata. Tem na memória todo o itinerário fúnebre,
que todo ano, sempre naquela data, se repete. Em outras ocasiões,
não costuma reparar nos túmulos à sua volta,
porém naquele dia, ele decidiu reparar naquela multidão
de casas, algumas de mármore, outras de granito, muitas de
alvenaria. Todas em uma infinidade de formas retangulares e chapadas,
organizando-se em volta das pequenas ruas como casas de uma grande
cidade. O porte ia de túmulos simples a algumas mini-capelas,
outros exuberantes memoriais e mesmo algumas construções
gigantescas, verdadeiras mansões, últimas demonstrações
de poder de pessoas que dentro delas usufruem do sono eterno.
Ele sempre considerou
tudo aquilo uma grande tolice. De que importa toda aquela ostentação
se dentro daqueles monumentos exuberantes, placas de bronze
cuidadosamente forjadas, flores coloridas perfumando o ambiente,
escondiam-se, enfurnados em caixas tenebrosas de madeira, corpos
decrépitos, que serviam somente à apreciação
dos organismos minúsculos que os devoravam, repetindo o ciclo
da vida indefinidamente até que ali nada mais houvesse e esses
outrora agentes do destino, transformadores do panorama, acabassem em
ossos limpos e desarranjados, entocados em plúmbeos sacos de
lixo por entediados coveiros que, da morte, ganham a vida. Ele via
todas aquelas urnas funéreas e aquela multidão de
pessoas falecidas, gritando por atenção sem garganta,
não lhe significavam absolutamente nada. Ele nem da cidade
era, havia saído de lá na infância, foi seguir
sua vida em outro lugar. Não se sentia pertencente àquele
lugar, exceto por um único laço que o prendia ali.
O lugar nunca lhe saiu
da cabeça. Enquanto virava uma esquina, lembrava-se de por que
estava ali, de por quem estava ali. Lembrava-se de seu irmão
mais novo, aquele que por algumas noites carregou nos braços,
ele, seis anos mais velho, velando seu sono, observando-o sorrir,
chorar tantas vezes, engatinhar no chão de terra batida. Seu
irmão havia morrido de sarampo quando tinha um ano de idade.
Seus pais após isso o enterraram e foram para outra cidade.
Desde então, todo ano, pai, mãe e ele iam até lá
visitar o pequeno falecido, rezar, contar as novidades, pequenos
gestos de conforto para eles mesmos.
Com o passar dos anos,
seus pais faleceram, e ele passou a ir sozinho. Algumas vezes levou a
esposa, mas ela não gostava de acompanhá-lo naquelas
idas chatas e demoradas. Vinte anos depois, ela faleceu de moléstia
prolongada, um período muito sofrido. Eles não tiveram
filhos, e ele nunca mais se casou, velho que estava. Com o tempo, os
amigos também pereceram, mas nenhum deles jamais rivalizou a
atenção que ele depositava para seu querido parente.
Todos os anos, no dia do aniversário de sua morte, ele ia até
lá religiosamente, com uma preocupação constante
de sempre lembrar-se dele pelo menos por aquele dia.
E agora, ali então
ele chegava na quadra onde jazia os restos mortais de seu irmãozinho
morto com um ano, ele ali vivo aos noventa anos, respirando com
dificuldade, para o que ele sentia ser sua última visita ao
irmão. Enquanto atravessava os vários túmulos
que cobriam a vista do jazigo, refletia sobre o futuro: não
sobrara ninguém de sua família. Tios, primos, amigos,
estavam todos em outras cidades, em seus próprios túmulos,
cuidando de suas mortes. Parou de frente ao túmulo, fez o
sinal da cruz, olhou, e notou o que talvez os outros anos tivessem
escondido dele: ali havia apenas uma simples tampa de cimento ao
chão, e uma lápide extremamente simples, contendo
unicamente o nome, data de nascimento e data de morte. Agora ele
estava perto do fim da vida, não sobraram parentes vivos que
conhecessem sua existência. Ninguém o veria, coberto que
estava por túmulos maiores à sua volta. Seu irmão
ficaria ali, para sempre esquecido, no túmulo mais simples do
cemitério. Ele então, ao invés de dizer "Bom
dia", como sempre fez durante todos aqueles anos, ele disse:
- Talvez fosse melhor
ter feito um túmulo maior...