João Augusto
seguiu direto para o Pronto Socorro. Estava preocupado com o olho
roxo que tinha recebido após levar um soco de um transeunte o
qual tentou hipnotizar usando truques baratos de um livro. Em sua
preocupação, não lhe passou pela cabeça
que não havia nada a ser feito com relação ao
possível hematoma e inchaço: o estrago já estava
feito e o pobre clínico-geral não teria o que receitar
ao rapaz.
Assim mesmo, João
Augusto registrou seu problema na recepção e sentou-se
numa cadeira no hall de entrada enquanto esperava pela consulta junto
de outros pacientes. Passar o tempo em um ambiente hospitalar ou
similar não costuma ser das experiências mais
agradáveis: enquanto esperava, João Augusto observou
alguns de seus colegas de espera: um casal de meia idade, o marido de
camiseta regata e bermudas, provavelmente tomou algum susto em casa;
um casal jovem com feições tensas, juntos com seu filho
de colo, chorando de leve e tendo dificuldades para respirar. "É
muito sofrimento por aqui, eu nunca trabalharia num lugar desses",
pensou João Augusto, braços cruzados, com uma mão
tapando o olho ferido, e o cotovelo apoiado no outro braço. No
televisor pendurado, um programa feminino era exibido, mas ninguém
prestava atenção.
Após alguns
minutos, uma enfermeira os chamou para entrar em um corredor até
a sala do clínico-geral, onde cada um esperou por ordem de
chegada para serem atendidos. João Augusto sentou-se um pouco
afastado dos outros pacientes. O desânimo era evidente em todos
ali, de funcionários a pacientes. Tudo se resumiria a um
simples momento deprimente.
Até que, virando
um corredor, apareceu uma faxineira, lavando o chão. João
Augusto olhou para ela durante um longo tempo. Era uma jovem de
estatura média, por volta de vinte anos, mas o porte físico
sugeria menos. Ela tinha um rosto muito bonito, embora exprimisse a
mesma alegria de viver de todas as outras pessoas do Pronto Socorro.
Tinha cabelos castanhos, armados em coque no topo da cabeça,
usava luvas e botas amarelas, que faziam conjunto com o balde de
rodinhas e o esfregão, e usava uma camiseta azul-marinho e
calça jeans, que mesmo com sua silhueta muito magra,
evidenciavam algumas curvas. João Augusto foi vendo seu
interesse por aquela jovem aumentar até o ponto em que havia
esquecido disso e passado a considerar que "um interesse
fulminante" surgiu dele para com ela.
Enquanto ele a olhava
silenciosamente, eis que a mulher o olhou de volta. João
Augusto, assustado, rapidamente desviou o olhar para algum ponto da
parede. Voltou a olhar para ela e percebeu que ela de vez em quando
dava pequenas olhadas para ele enquanto continuava limpando o chão.
João Augusto ficou maravilhado? Será possível
que ela estaria interessada nele? Em um dia como outro qualquer, um
infeliz soco no olho gerou uma série de eventos em seqüência
que chegou até ao encontro de uma possível paquera,
justamente ali no Pronto Socorro?
E eis que, naquele dia,
finalmente uma pessoa sorriu naquele local. João Augusto
sorria pensando por que justamente ele. Seria por causa do olho roxo?
A faxineira, com tanto tempo convivendo com médicos e
enfermeiras, desenvolveu um sentimento de empatia e compaixão
e viu nele alguém ferido que ela desejava cuidar e tratar?
Não, não podia ser. Ou estaria ele sem querer exercendo
algum tipo de poder hipnótico? Afinal, seu olho roxo fazia com
que as pessoas, especialmente as moças, olhassem diretamente
para seu olho, criando uma conexão instantânea, afinal
isso estava no livro. De repente, João Augusto lembrou-se
daquele livro de hipnose, justamente o livro que o colocou em
problemas em primeiro lugar e lhe rendeu o olho roxo. Poderia ele
ajudar-lhe naquele momento, incentivando na garota, através de
seu subconsciente, uma paixão irresistível por ele?
João Augusto pensou que isso talvez não fosse muito
ético, mas concluiu rápido que não havia
problema algum, afinal ela demonstrou interesse por ele: ele viu como
ela olhava para ele. João Augusto decidiu então puxar
papo com a moça e conseguir a chance de um futuro encontro,
sair dali com um número de telefone, ou mesmo acompanhá-la
para uma conversa depois de seu turno.
Aí o
clínico-geral chamou por João Augusto, que se dirigiu
até a salinha. Realmente ele não podia fazer muita
coisa, apenas fez um teste para verificar se a visão tinha
sido prejudicada, receitou uma pomada e o dispensou. João
Augusto ficou aliviado, pois assim seria mais rápido puxar
conversa com a bela funcionária que havia lhe chamado atenção.
Saiu da salinha, mas não a viu, ela provavelmente deve ter ido
limpar outro lugar. Enquanto a procurava, pensava em como abordá-la
e qual estratégia usar para produzir algum efeito hipnótico.
Passando por outro corredor, próximo à sala de
tratamento, João Augusto viu o casal com o filho pequeno
sentado esperando para ser atendido ali e, do outro lado, reconheceu
a bela moça. Juntou toda a coragem que havia sobrado e foi até
ela, achou melhor conversar um pouco com ela antes para ver seu
comportamento, uma idéia muito boa para evitar o que aconteceu
antes, chegou próximo e abordou-a:
- Com licença,
queria lhe fazer uma pergunta...
Ao virar-se, a moça
rapidamente devolveu-lhe outra pergunta:
- Por um acaso você
não é o filho da Dona Iraci?
João Augusto
assustou-se: como ela sabia o nome de sua mãe?
- Sim.
- Ah, então é
daí que eu te conheço: Você veio falar comela em
casa uma vez, quando ela era babá da minha filha. Faz tanto
tempo que não a vejo, mande um abraço para ela, viu?
Qualquer dia desses eu ligo para ela.
- Ah, tá... tá
bom...
João Augusto
saiu de lá desolado. Nem o soco no olho havia doído
tanto quanto aquele acontecimento. Infelizmente não há
o que culpar João Augusto: as luvas amarelas do ofício
impediram que João Augusto visse em seu dedo o anel de
compromisso que usava, mas João Augusto realmente não
se lembrou daquela jovem a qual havia encontrado apenas uma vez, há
dois anos atrás, quando tinha ido até a casa dela e de
seu marido para pedir à sua mãe dinheiro para sair com
os amigos.
E João Augusto,
ao lembrar-se de sua mãe, decidiu voltar para casa. O dia
havia sido movimentado demais.