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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A hipnose de João Augusto 2

João Augusto seguiu direto para o Pronto Socorro. Estava preocupado com o olho roxo que tinha recebido após levar um soco de um transeunte o qual tentou hipnotizar usando truques baratos de um livro. Em sua preocupação, não lhe passou pela cabeça que não havia nada a ser feito com relação ao possível hematoma e inchaço: o estrago já estava feito e o pobre clínico-geral não teria o que receitar ao rapaz.
Assim mesmo, João Augusto registrou seu problema na recepção e sentou-se numa cadeira no hall de entrada enquanto esperava pela consulta junto de outros pacientes. Passar o tempo em um ambiente hospitalar ou similar não costuma ser das experiências mais agradáveis: enquanto esperava, João Augusto observou alguns de seus colegas de espera: um casal de meia idade, o marido de camiseta regata e bermudas, provavelmente tomou algum susto em casa; um casal jovem com feições tensas, juntos com seu filho de colo, chorando de leve e tendo dificuldades para respirar. "É muito sofrimento por aqui, eu nunca trabalharia num lugar desses", pensou João Augusto, braços cruzados, com uma mão tapando o olho ferido, e o cotovelo apoiado no outro braço. No televisor pendurado, um programa feminino era exibido, mas ninguém prestava atenção.
Após alguns minutos, uma enfermeira os chamou para entrar em um corredor até a sala do clínico-geral, onde cada um esperou por ordem de chegada para serem atendidos. João Augusto sentou-se um pouco afastado dos outros pacientes. O desânimo era evidente em todos ali, de funcionários a pacientes. Tudo se resumiria a um simples momento deprimente.
Até que, virando um corredor, apareceu uma faxineira, lavando o chão. João Augusto olhou para ela durante um longo tempo. Era uma jovem de estatura média, por volta de vinte anos, mas o porte físico sugeria menos. Ela tinha um rosto muito bonito, embora exprimisse a mesma alegria de viver de todas as outras pessoas do Pronto Socorro. Tinha cabelos castanhos, armados em coque no topo da cabeça, usava luvas e botas amarelas, que faziam conjunto com o balde de rodinhas e o esfregão, e usava uma camiseta azul-marinho e calça jeans, que mesmo com sua silhueta muito magra, evidenciavam algumas curvas. João Augusto foi vendo seu interesse por aquela jovem aumentar até o ponto em que havia esquecido disso e passado a considerar que "um interesse fulminante" surgiu dele para com ela.
Enquanto ele a olhava silenciosamente, eis que a mulher o olhou de volta. João Augusto, assustado, rapidamente desviou o olhar para algum ponto da parede. Voltou a olhar para ela e percebeu que ela de vez em quando dava pequenas olhadas para ele enquanto continuava limpando o chão. João Augusto ficou maravilhado? Será possível que ela estaria interessada nele? Em um dia como outro qualquer, um infeliz soco no olho gerou uma série de eventos em seqüência que chegou até ao encontro de uma possível paquera, justamente ali no Pronto Socorro?
E eis que, naquele dia, finalmente uma pessoa sorriu naquele local. João Augusto sorria pensando por que justamente ele. Seria por causa do olho roxo? A faxineira, com tanto tempo convivendo com médicos e enfermeiras, desenvolveu um sentimento de empatia e compaixão e viu nele alguém ferido que ela desejava cuidar e tratar? Não, não podia ser. Ou estaria ele sem querer exercendo algum tipo de poder hipnótico? Afinal, seu olho roxo fazia com que as pessoas, especialmente as moças, olhassem diretamente para seu olho, criando uma conexão instantânea, afinal isso estava no livro. De repente, João Augusto lembrou-se daquele livro de hipnose, justamente o livro que o colocou em problemas em primeiro lugar e lhe rendeu o olho roxo. Poderia ele ajudar-lhe naquele momento, incentivando na garota, através de seu subconsciente, uma paixão irresistível por ele? João Augusto pensou que isso talvez não fosse muito ético, mas concluiu rápido que não havia problema algum, afinal ela demonstrou interesse por ele: ele viu como ela olhava para ele. João Augusto decidiu então puxar papo com a moça e conseguir a chance de um futuro encontro, sair dali com um número de telefone, ou mesmo acompanhá-la para uma conversa depois de seu turno.
Aí o clínico-geral chamou por João Augusto, que se dirigiu até a salinha. Realmente ele não podia fazer muita coisa, apenas fez um teste para verificar se a visão tinha sido prejudicada, receitou uma pomada e o dispensou. João Augusto ficou aliviado, pois assim seria mais rápido puxar conversa com a bela funcionária que havia lhe chamado atenção. Saiu da salinha, mas não a viu, ela provavelmente deve ter ido limpar outro lugar. Enquanto a procurava, pensava em como abordá-la e qual estratégia usar para produzir algum efeito hipnótico. Passando por outro corredor, próximo à sala de tratamento, João Augusto viu o casal com o filho pequeno sentado esperando para ser atendido ali e, do outro lado, reconheceu a bela moça. Juntou toda a coragem que havia sobrado e foi até ela, achou melhor conversar um pouco com ela antes para ver seu comportamento, uma idéia muito boa para evitar o que aconteceu antes, chegou próximo e abordou-a:
- Com licença, queria lhe fazer uma pergunta...
Ao virar-se, a moça rapidamente devolveu-lhe outra pergunta:
- Por um acaso você não é o filho da Dona Iraci?
João Augusto assustou-se: como ela sabia o nome de sua mãe?
- Sim.
- Ah, então é daí que eu te conheço: Você veio falar comela em casa uma vez, quando ela era babá da minha filha. Faz tanto tempo que não a vejo, mande um abraço para ela, viu? Qualquer dia desses eu ligo para ela.
- Ah, tá... tá bom...
João Augusto saiu de lá desolado. Nem o soco no olho havia doído tanto quanto aquele acontecimento. Infelizmente não há o que culpar João Augusto: as luvas amarelas do ofício impediram que João Augusto visse em seu dedo o anel de compromisso que usava, mas João Augusto realmente não se lembrou daquela jovem a qual havia encontrado apenas uma vez, há dois anos atrás, quando tinha ido até a casa dela e de seu marido para pedir à sua mãe dinheiro para sair com os amigos.
E João Augusto, ao lembrar-se de sua mãe, decidiu voltar para casa. O dia havia sido movimentado demais.