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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

A hipnose de João Augusto

João Augusto colocou o livro em cima da mesa. Havia muito tempo que ele não o lia, e agora que releu sentiu-se revigorado e pronto para usar suas "novas habilidades".
O interesse pela hipnose surgiu faz uns cinco anos atrás, quando seu amigo Eugênio emprestou-lhe um guia sobre hipnose que ele encontrou na faculdade. Antes disso ele via demonstrações de hipnose na televisão mas isso não lhe chamava particular atenção. O surgimento daquele livro através das mãos de seu amigo mudou tudo. João Augusto leu o livro em dois dias e ficou fascinado, especialmente pelas histórias sobre como as pessoas justificam para si mesmas as ações provocadas pelos comandos do hipnólogo. Não demorou muito tempo para que ele comprasse um livro parecido em um sebo, e após a aquisição, lia-o compulsivamente, página após página, relendo partes que não compreendia direito. Ao acabar o livro, voltava à primeira página e repassava todos os pontos. Aquele assunto de hipnose foi como se tivesse aberto um novo mundo de possibilidades. De repente, as tão difíceis e complicadas relações sociais estavam resolvidas através de um atalho que me permitiria obter tudo o que quisesse com literalmente um "estalar de dedos".
Não há dúvidas de que João Augusto foi bastante aplicado àquela leitura, o problema residia no fato de que ele não conseguia assimilar as instruções ou mesmo copiar os procedimentos. Algo o impedia de seguir com a idéia da hipnose, talvez por uma certa insegurança de que não seguiu as técnicas à risca, e um motivo mais velado de puro medo por não conseguir hipnotizar e o pior:ser descoberto em sua tentativa de manipular a mente das pessoas. "Como se alguém tivesse motivo decente para se interessar por hipnose", pensava ele. Era um motivo bom e justo, só não era moral. E graças a essas reservas e outras preocupações preferenciais, a hipnose foi aos poucos sendo deixada de lado até finalmente ocupar uma posição insignificante em sua lista de interesses.
Mas, com o passar do tempo, as coisas não foram facilitando. Encontrar emprego para alguém sem experiência é muito difícil. Sem emprego, fica difícil também arranjar dinheiro para saídas noturnas, e em um determinado momento os amigos param de convidar, já não falava com Eugênio fazia uns nove meses. Sem emprego nem amigos, fica impossível conquistas amorosas. Por isso João Augusto passava os dias no computador acessando a internet, mandando currículos vazios para agências de emprego e estudando para concursos públicos em que nunca passava. As portas pareciam se fechar cada vez mais com o passar dos dias, mas isso até, em um dia de limpeza de rotina da casa, resolveu mexer em umas prateleiras e reencontrou aquele livro há muito esquecido. A lembrança daquele livro e seus prometidos poderes mentais que o levariam para além das capacidades humanas reacenderam a chama dos desejos internos de João Augusto.
Com tantas derrotas na vida, em seu desespero, João Augusto decidiu apostar sua pouca sorte com a hipnose, e enquanto relia o livro, todo o aprendizado voltava à sua memória, as frases tão devidamente decoradas, os comandos, e o tempo distante do livro revelou a ele uma nova série de significados que ele não havia compreendido na época, por não ter uma mente mais amadurecida. E isso impressionou João Augusto a ponto de finalmente dar uma guinada em direção a algo melhor para sua vida e tentar hipnotizar alguma pessoa na rua.
Ele resolveu tentar uma técnica que funcionaria muito bem para abordagem com pessoas na rua. Como João Augusto aprendeu com seu livro, a hipnose não é exatamente um sono, mas sim um estado alterado da consciência. Para ativar na pessoa o estado alterado, não é necessário que faça essa pessoa dormir. Em muitos casos, basta apenas incutir uma confusão mental na pessoa. Ao fazer várias perguntas diferentes de uma só vez, desviar a atenção do ouvinte para diferentes lugares e coisas, a pessoa acaba incapaz de acompanhar a linha de pensamento do emissor da mensagem e o cérebro acaba entrando nesse estado alterado, onde instruções podem ser passadas para a pessoa através de seu subconsciente, que de acordo com a teoria, aceita as instruções passivamente.
E João Augusto, após repassar o truque várias vezes no caminho para a rua do comércio, deixou para decidir ali o que faria após conseguir hipnotizar sua vítima. "Talvez eu mande ele dar um pulo no meio da rua quando um carro buzinar, ou então tente levar uma televisão de uma loja", João Augusto pensava enquanto ria por dentro com as infinitas possibilidades que aquilo proporcionaria.
Na rua, ao procurar a pessoa perfeita, evitou as mulheres, que poderiam lhe deixar mais nervoso e incapaz de fazer o que planejava com atenção e decidiu escolher um senhor de terno que caminhava decididamente pela calçada. "É só um teste, só preciso de um teste", era o que ele pensava constantemente ao se aproximar do sujeito. Enquanto isso, no seu íntimo, pensava no que faria com os novos poderes adquiridos. Pensou em utilizar a hipnose para conseguir um emprego. Pensou em ligar para o Eugênio, marcar uma saída para a balada. E na balada, imaginava quantas e quantas conquistas conseguiria...
- Bom dia, senhor, pode me ajudar um pouco? - diz alegremente João Augusto.
- Estou com pressa, não posso - diz o senhor na rua
- Eu só preciso de uma direção, não sou daqui, quero saber onde fica a praça central, não sei se fica para ali ou para lá - dizia João Augusto enquanto gesticulava apontando direções diferentes. O senhor de terno olhava fixamente para o rosto dele, visivelmente irritado.
Talvez pelo nervosismo, faltou a João Augusto a lembrança de que apenas pessoas em um determinado estado mental são suscetíveis a sugestões hipnóticas, e faltou também a percepção de que o sujeito que ele havia abordado não estava interagindo com ele amigavelmente, o foco do sujeito estava todo em se livrar daquele incômodo, por isso no momento em que João Augusto decidiu fazer o movimento final do truque, perguntando as horas e colocando suas mãos nos ombros alheios, esperando com isso que o senhor de terno caísse hipnotizado, o homem agiu instintivamente afastando os braços daquele hipnólogo promissor e com um soco certeiro, João Augusto tomba no chão. Sob o olhar de uma dezena de transeuntes perplexos, a corrida irritada do senhor de terno fugindo da cena, João Augusto está estirado no chão, a nuca dói, imediatamente ele leva a mão à face, o olho dói mais ainda, está roxo.
E caído, ele sorri.
Pela primeira vez João Augusto ganhou alguma coisa com a hipnose.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A redação da escola

Bianca terminou de escrever seu texto. Ela sentiu alívio e satisfação por ter feito um bom trabalho. "Este vai ganhar um dez!", pensou ela consigo mesma.
Não havia motivos para não pensar assim. Sempre foi uma ótima aluna de português, e gostava muito de redação, especialmente de escrever histórias como a desse dia. Tinha paixão por leitura, tinha a mania de sempre ler os livros didáticos em casa para passar o tempo. Consequentemente, não ia mal nas outras matérias também. Foi com essa certeza que entregou sua redação à professora, que lhe disse:
- Que bom que terminou logo, Bianca! Vou ler isso e amanhã te darei a nota!
Bianca não tinha grandes preocupações na vida além de se dedicar aos exames e de zelar pela saúde de suas bonecas. Por isso a noite foi cheia de expectativas. Ela demorou para pegar no sono, pensando em qual outra oportunidade ela teria para escrever novamente.
Na manhã do dia seguinte, Bianca foi com sua mãe e seu pai até a escola. Na entrada, sua mãe lhe falou:
- Bianca, você não vai entrar na aula ainda. A professora quer falar com a gente.
Bianca acabou de ganhar mais uma preocupação em sua vida tranquila. Os minutos passavam de forma firme e vagarosa, enquanto Bianca não se agüentava de ansiedade. Eis que surge, de repente, a vice-diretora, que os cumprimenta e pede:
- Bianca, vamos para a minha sala para eu conversar com você um pouquinho?
Bianca soltou a mão de sua mãe, agarrou a mão da vice-diretora e foi com ela até a sala.
Ao entrar, Bianca sentou-se em uma cadeira de frente para a mesa da vice-diretora.
- Oi Bianca, como é que você está?
- Bem.
- Como que estão as coisas na sua casa? Tá tudo tranquilo?
- Tá tudo tranquilo.
- Tá tranquilo mesmo, querida? Não tem alguma coisa que está incomodando? - Naquele momento, a única coisa que incomodava Bianca era entender por que estava conversando com a vice.
- Não tem alguma coisa que está incomodando - falou Bianca.
- Bianca, foi você que escreveu esta redação, não é? - e Bianca viu, nas mãos da vice, sua redação do dia anterior.
- Sim, fui eu - disse Bianca, rapidamente sorrindo ao assumir, com orgulho, a autoria do texto.
- Bianca, a sua professora leu a sua redação e ficou muito preocupada com você. Por que você fez esta história? - e a vice colocou a redação na frente de Bianca.
- É que eu não quis contar história alegre, e contei uma história triste - falou Bianca, com uma leve franqueza em sua voz.
- Meu bem, você conhece algum pai que bate na filhinha dele e se tranca no quarto com ela que nem o da história? - perguntou a vice-diretora, indo direto ao ponto.
- Não conheço - respondeu a menina.
- Pode contar, querida. É alguma amiguinha sua? Se você contar para mim, ela não vai apanhar mais - dizia a vice, curvando-se em direção à garota.
- Não conheço ninguém, tia. Eu inventei a história - disse Bianca, cerrando as mãos.
- Mas como foi que você inventou a história?
- Ah, inventando. Eu vou ser reprovada? - perguntou Bianca, já com medo.
- Bianca, eu falei com a sua professora, ela não vai reprovar você, mas ela quer que você faça outra redação, com final feliz.
- Mas eu não quero fazer outra redação! - respondeu Bianca. - Eu sempre faço com final feliz, agora eu quero fazer com final diferente!
- Você vai ter que mudar o final, querida, senão a professora não vai te dar nota boa - ao dizer isso a vice-diretora sai da sala e volta com a professora e a mãe de Bianca.
- Filha, faça outra redação - pediu a mãe de Bianca.
- Bianca, você escreve bem, você gosta de fazer redação, é só fazer outra, aí você faz uma bem bonita com final feliz - falou a professora.
- Mas eu quero a história triste - falou chorosamente Bianca.
A vice-diretora então pegou uma borracha, colocou-a na mão de Bianca, segurou a mão, e perguntou:
- Vamos apagar essa história feia? Nós ajudamos você.
Bianca chorava sem parar enquanto a vice-diretora, a professora e sua mãe a ajudavam a apagar aquela redação. Bianca teve uma vida tranquila com sua mãe, e com o tempo acabou esquecendo-se desse dia, tempo que alivia as dores, mas não some com as cicatrizes.
Bianca nunca mais foi boa aluna de redação.

sábado, 1 de dezembro de 2012

O carrão do Aderbal

Uma sexta-feira, noite de alegria no bairro. Metade animada com o final de semana, um quarto se preparando para a churrascada depois do trabalho de meio-período no sábado, e o outro quarto indiferente a tudo, pois finais de semana não alteram suas rotinas de ofício. O bar, movimentado como sempre, as crianças a brincar na rua, as mulheres a fazerem compras e compartilhar segredos das famílias alheias, um dia perfeitamente normal, não fosse a chegada, ao virar a esquina, de algo muito especial.
Nos trinta ou quarenta anos de existência daquele bairro, já haviam passado naquela rua vários carros, mas dentre todos os carros, não havia passado nenhum tão bonito e tão caro quanto o do Aderbal. Carro amarelo, linhas esportivas, design aerodinâmico, aquele veículo chamava muita atenção. Qualquer transeunte se permitia encarar o automóvel por segundos a fio, esquecendo-se do que estava fazendo. Não era todo dia que se via um superesportivo italiano andando pelas ruas daquele bairro. Aderbal, com o maior sorriso do mundo, estava cheio de si, sentindo-se como o príncipe de Mônaco enquanto percorria o caminho até sua casa, respirando fundo e curtindo cada segundo daquele desfile pelo tapete asfáltico.
Já os vizinhos entenderam que Aderbal estava louco. Como podia ter gastado tanto dinheiro com um carro? "Virou imã de bandido", era o comentário que mais se ouvia daquele pessoal. "Galera tá se mordendo de inveja", pensava Aderbal toda vez ao ver as pessoas da rua enquanto guardava seu carro. Ao mesmo tempo que as pessoas julgavam o comportamento de Aderbal, também tinham uma certa preocupação de que ele tivesse ido para a bandidagem, afinal o preço de um veículo desse tipo é centenas de vezes maior do que os ganhos de um mecânico como ele. Mecânico ganha bem, mas precisa trabalhar muito e Aderbal não teria tempo ou dinheiro para uma sandice dessas.
Mas a pior reação vinha de sua família. Sua esposa estava possessa: "Como pôde gastar todo o nosso dinheiro com essa porcaria? A gente combinou que iria comprar uma casa perto da de mamãe!". Além das finanças pessoais, havia outra coisa que preocupava Jéssica: ela e os vizinhos tinham ciência de certas propriedades magnéticas do possante, só que, enquanto os vizinhos pensavam em jovens bem armados, a mulher imaginava jovens bem ousadas. Enfim, na cabeça de todo mundo, aquele carro veloz levava mais rápido para o céu, mas pegava um atalho que passava pelo meio do inferno, e sabe-se lá se o carro não se perde no meio do caminho, ou se o piloto faz uma paradinha para se aliviar e aí...
Naquela noite, ninguém dormiu direito. A casa de Aderbal toda iluminada, e a briga rolava solta, uma briga como nunca houvera antes ali. Nas outras casas, luzes acesas, famílias nas varandas, odor de pipoca quente, aproveitando o show audiofônico vindo da agora famosa casa, o mais novo farol do bairro a clarear os egos ao redor. Entre a vizinhança, surgiam apostas das mais diversas: quanto tempo até a venda do automóvel; quantos dias até o carro ser roubado; até quando vai durar o casamento... e no avançar da madrugada, todos foram dormir, esperando ansiosamente pelo dia seguinte.
De tudo que foi dito e imaginado, ninguém poderia imaginar que o futuro daquele carro seria decidido por um simples nome: Jairo.
Jairo, o grande amigo de Aderbal. O cara que tantas vezes foi acompanhado por Aderbal até compromissos de família ou idas ao cartório, se levado em conta o que Jéssica ouviu durante todo esse tempo. Jairo, muito gente boa, chegou logo no dia seguinte decidido a cobrar de Aderbal alguma compensação por tantas ajudas oferecidas. Aderbal ficou bem desanimado, estava pensando em curtir o carro no final de semana, mas para não provocar um revisionismo histórico em sua esposa, aceitou emprestar o bólido, afinal, para que servem os amigos, não é mesmo? Enquanto Aderbal ficou em casa soletrando "chantagem", Jairo partiu.
Era muita felicidade para um rapaz só. "Mas que carro incrível", ele gritava, enquanto navegava por entre ônibus e outros carros. Nunca havia entrado em um veículo tão rápido e tão luxuoso. Jairo só pensava no que iria fazer durante o dia: primeiro iria passar no banco, tirar uma graninha que havia reservado para o natal, e fazer uma comemoração antecipada sozinho, "pero no mucho". Jairo sentiu-se no céu... até ignorar um sinal vermelho e chegar ao portal do paraíso na velocidade do pensamento.
Enquanto Jairo pegou o caminho mais rápido para o outro mundo, Aderbal perdeu-se no atalho do inferno: teve dificuldade durante alguns meses para conseguir retirar a grana do seguro, e logo que a retirou, depositou na conta judicial aberta pela família de seu falecido amigo, que o havia processado, e a história do Aderbal ficou muito conhecida no bairro, e em várias ocasiões é relembrada por quase todos, cada um dizendo um detalhe diferente do outro. A única versão que ninguém conhece é a do próprio Aderbal, e não tem nem como perguntar para ele, afinal ele acabou saindo do bairro. Foi morar com a esposa na casa da mãe da Jéssica.