Armando tinha ambições
na vida.
Quem chegava ali na
praça do coreto, perto do Teatro Municipal, jamais imaginaria
que um daqueles guardadores de carro tinha algum objetivo na vida,
mas as pessoas não costumam reconhecer iguais entre aquelas
pobres pessoas ali. E Armando não estava exatamente a passeio,
"é só um trampo temporário", dizia
ele, pelo menos até encontrar um emprego de verdade, um que
lhe desse a certeza de um salário no final do mês.
Armando lembrava com
carinho de seu último emprego como vendedor em uma loja de
armarinhos. Armando era bastante dedicado ao serviço,
atendendo bem às pessoas, e sempre aproveitando o tempo livre
para reorganizar o estoque, ou fazer alguns reparos na loja, pegando
algum material de construção que sobrou em casa, até
mesmo comprando alguns materiais menores pagando do próprio
bolso. O Seu Zeca era um ótimo empregador, e aos poucos foi
reconhecendo o talento e a dedicação do rapaz.
Costumava deixar a loja nas mãos de Armando no período
da tarde, voltando apenas para o fechamento do dia, e Armando estava
feliz, gostava do lugar, e tinha grandes esperanças de
progredir ali. Sua dedicação certamente seria
recompensada, e ele poderia ser efetivado no emprego após esse
período de experiência, ter sua carteira assinada e com
o progresso da loja conseguir um aumento.
"Talvez se eu não
tivesse sido preso, eu ainda estaria lá", pensava
enquanto olhava as entradas das ruas em busca de um carro prestes a
estacionar ou algum cidadão aproximando-se de seu veículo
para partir naquele meio de tarde, a praça estava bem
movimentada. A prisão foi um grande mal-entendido, e aconteceu
justamente no final do dia: Em um daqueles turnos da tarde em que o
Seu Zeca não estava presente, Armando não conseguia
abrir a gaveta da caixa registradora. Revirou a loja procurando pela
chave da gaveta, pensou em ligar para o Seu Zeca para perguntar por
ela, mas conforme chegavam os clientes Armando tinha pouco tempo para
tomar uma atitude, senão perderia as vendas, e isso poderia
prejudicá-lo, ele ainda estava no período de
experiência. Então, ele tomou a decisão infeliz
de guardar o dinheiro das vendas no próprio bolso. A chave não
era encontrada em lugar algum, e Armando ia memorizando a quantia
para não se perder na conta, quando o Seu Zeca voltasse,
poderia explicar a situação toda. O problema é
que o Seu Zeca voltou ao final do dia acompanhado por um amigo, o
Guarda Nogueira. Não é que o Armando não tivesse
se preocupado com a presença daquele policial, mas de alguma
forma o Guarda Nogueira desconfiou de alguma coisa e o colocou na
parede. Revistando-o, encontrou o dinheiro das vendas do dia: várias
notas enroladas em bolos, cada bolo com um valor diferente. Armando
tentou argumentar
- Eu não roubei,
é que a gaveta do caixa estava fechada e eu não achava
a chave, então coloquei no bolso...
E aí, Seu Zeca
diz:
- Mas a chave da gaveta
estava aqui, na gaveta de documentos, como sempre - e balançou
o chaveiro na sua frente.
Armando não
podia acreditar, ele tinha procurado naquela gaveta várias
vezes e não encontrou aquela chave. Talvez não tivesse
procurado direito, mas como explicar para os dois naquele momento
onde todas as evidências iam contra ele? Triste, ele viu toda a
confiança e todo esforço em garantir aquele emprego
evaporar dos olhos de Seu Zeca, e não voltou para casa naquele
dia, onde passou a pior noite de sua vida numa sala da delegacia onde
foi denunciado, fichado e marcado como ladrão de um crime que
não cometeu. Arrasado voltou para casa e não teve
coragem de contar para ninguém da sua família o que
aconteceu.
Ao se lembrar disso,
uma lágrima rolou em seu rosto. Armando lembrava-se desse
evento com tristeza e vergonha. Tratou logo de enxugar as lágrimas
para que as pessoas não reparassem, mas ele não
precisava se preocupar porque ninguém olhava para ele, todos
ocupados demais cuidando de seus próprios problemas ou
desviando do caminho para evitá-lo. E enquanto isso, Armando
seguia ali, sentado em um dos bancos da praça, olhando com
atenção para o movimento.
Porém, apesar
desse evento traumático, Armando não iria deixar isso
impedir sua busca por um emprego efetivo, de carteira assinada. Pediu
a um amigo para fazer-lhe um currículo e após seu
turno, tirava alguns do bolso, desdobrava-os e deixava em algumas
lojas e escritórios, e após isso comprava algum salgado
em um bar no caminho. Infelizmente não podia incluir o emprego
na loja de armarinhos, Armando até mesmo evitava passar por
ali. Mas não podia desistir, ele tinha que sobreviver, tinha
que seguir em frente.
Enquanto esses
pensamentos passavam pela cabeça de Armando, ele percebeu que
um homem calvo, gordo, usando terno, se dirigia até seu carro.
Armando levantou-se e foi apressado até ele, porém o
homem estava andando com dificuldade. Quando Armando chegou, percebeu
que ele respirava com força, e preocupado foi até ele
dar uma ajuda a chegar ao automóvel:
- Tudo bem, senhor?
Quer alguma coisa?
Chegaram até a
porta do motorista, mas o homem nem conseguiu responder: desabou no
chão, naquele espaço entre dois carros. Armando tentou
segurá-lo, em vão, pelas laterais do corpo. No
movimento de suas mãos ao tentar agarrar seu corpanzil
rotundo, uma carteira caiu de seu bolso. Armando não conseguiu
deixar de notar a carteira. Pegou-a, abriu para achar algum
documento, e acabou vendo uma quantidade enorme de notas de alto
valor, ele provavelmente deve ter sacado uma grande quantia do banco.
O olhar de Armando
brilhou ao mesmo tempo em que seu coração se congelou.
Muitos pensamentos passaram por sua cabeça ao mesmo tempo,
nenhum deles fazendo qualquer sentido. Não eram pensamentos:
eram emoções. Saiu correndo dali, no maior pique que
havia dado em sua vida. Armando virou duas esquinas e acabou entrando
em uma galeria comercial. Ali acalmou-se, e percebeu que a carteira
do gordo de terno estava em suas mãos. Dali seguiu rapidamente
para o banheiro público, ansioso que estava para ver o quanto
de dinheiro ele havia conseguido.