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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O guardador de carros

Armando tinha ambições na vida.
Quem chegava ali na praça do coreto, perto do Teatro Municipal, jamais imaginaria que um daqueles guardadores de carro tinha algum objetivo na vida, mas as pessoas não costumam reconhecer iguais entre aquelas pobres pessoas ali. E Armando não estava exatamente a passeio, "é só um trampo temporário", dizia ele, pelo menos até encontrar um emprego de verdade, um que lhe desse a certeza de um salário no final do mês.
Armando lembrava com carinho de seu último emprego como vendedor em uma loja de armarinhos. Armando era bastante dedicado ao serviço, atendendo bem às pessoas, e sempre aproveitando o tempo livre para reorganizar o estoque, ou fazer alguns reparos na loja, pegando algum material de construção que sobrou em casa, até mesmo comprando alguns materiais menores pagando do próprio bolso. O Seu Zeca era um ótimo empregador, e aos poucos foi reconhecendo o talento e a dedicação do rapaz. Costumava deixar a loja nas mãos de Armando no período da tarde, voltando apenas para o fechamento do dia, e Armando estava feliz, gostava do lugar, e tinha grandes esperanças de progredir ali. Sua dedicação certamente seria recompensada, e ele poderia ser efetivado no emprego após esse período de experiência, ter sua carteira assinada e com o progresso da loja conseguir um aumento.
"Talvez se eu não tivesse sido preso, eu ainda estaria lá", pensava enquanto olhava as entradas das ruas em busca de um carro prestes a estacionar ou algum cidadão aproximando-se de seu veículo para partir naquele meio de tarde, a praça estava bem movimentada. A prisão foi um grande mal-entendido, e aconteceu justamente no final do dia: Em um daqueles turnos da tarde em que o Seu Zeca não estava presente, Armando não conseguia abrir a gaveta da caixa registradora. Revirou a loja procurando pela chave da gaveta, pensou em ligar para o Seu Zeca para perguntar por ela, mas conforme chegavam os clientes Armando tinha pouco tempo para tomar uma atitude, senão perderia as vendas, e isso poderia prejudicá-lo, ele ainda estava no período de experiência. Então, ele tomou a decisão infeliz de guardar o dinheiro das vendas no próprio bolso. A chave não era encontrada em lugar algum, e Armando ia memorizando a quantia para não se perder na conta, quando o Seu Zeca voltasse, poderia explicar a situação toda. O problema é que o Seu Zeca voltou ao final do dia acompanhado por um amigo, o Guarda Nogueira. Não é que o Armando não tivesse se preocupado com a presença daquele policial, mas de alguma forma o Guarda Nogueira desconfiou de alguma coisa e o colocou na parede. Revistando-o, encontrou o dinheiro das vendas do dia: várias notas enroladas em bolos, cada bolo com um valor diferente. Armando tentou argumentar
- Eu não roubei, é que a gaveta do caixa estava fechada e eu não achava a chave, então coloquei no bolso...
E aí, Seu Zeca diz:
- Mas a chave da gaveta estava aqui, na gaveta de documentos, como sempre - e balançou o chaveiro na sua frente.
Armando não podia acreditar, ele tinha procurado naquela gaveta várias vezes e não encontrou aquela chave. Talvez não tivesse procurado direito, mas como explicar para os dois naquele momento onde todas as evidências iam contra ele? Triste, ele viu toda a confiança e todo esforço em garantir aquele emprego evaporar dos olhos de Seu Zeca, e não voltou para casa naquele dia, onde passou a pior noite de sua vida numa sala da delegacia onde foi denunciado, fichado e marcado como ladrão de um crime que não cometeu. Arrasado voltou para casa e não teve coragem de contar para ninguém da sua família o que aconteceu.
Ao se lembrar disso, uma lágrima rolou em seu rosto. Armando lembrava-se desse evento com tristeza e vergonha. Tratou logo de enxugar as lágrimas para que as pessoas não reparassem, mas ele não precisava se preocupar porque ninguém olhava para ele, todos ocupados demais cuidando de seus próprios problemas ou desviando do caminho para evitá-lo. E enquanto isso, Armando seguia ali, sentado em um dos bancos da praça, olhando com atenção para o movimento.
Porém, apesar desse evento traumático, Armando não iria deixar isso impedir sua busca por um emprego efetivo, de carteira assinada. Pediu a um amigo para fazer-lhe um currículo e após seu turno, tirava alguns do bolso, desdobrava-os e deixava em algumas lojas e escritórios, e após isso comprava algum salgado em um bar no caminho. Infelizmente não podia incluir o emprego na loja de armarinhos, Armando até mesmo evitava passar por ali. Mas não podia desistir, ele tinha que sobreviver, tinha que seguir em frente.
Enquanto esses pensamentos passavam pela cabeça de Armando, ele percebeu que um homem calvo, gordo, usando terno, se dirigia até seu carro. Armando levantou-se e foi apressado até ele, porém o homem estava andando com dificuldade. Quando Armando chegou, percebeu que ele respirava com força, e preocupado foi até ele dar uma ajuda a chegar ao automóvel:
- Tudo bem, senhor? Quer alguma coisa?
Chegaram até a porta do motorista, mas o homem nem conseguiu responder: desabou no chão, naquele espaço entre dois carros. Armando tentou segurá-lo, em vão, pelas laterais do corpo. No movimento de suas mãos ao tentar agarrar seu corpanzil rotundo, uma carteira caiu de seu bolso. Armando não conseguiu deixar de notar a carteira. Pegou-a, abriu para achar algum documento, e acabou vendo uma quantidade enorme de notas de alto valor, ele provavelmente deve ter sacado uma grande quantia do banco.
O olhar de Armando brilhou ao mesmo tempo em que seu coração se congelou. Muitos pensamentos passaram por sua cabeça ao mesmo tempo, nenhum deles fazendo qualquer sentido. Não eram pensamentos: eram emoções. Saiu correndo dali, no maior pique que havia dado em sua vida. Armando virou duas esquinas e acabou entrando em uma galeria comercial. Ali acalmou-se, e percebeu que a carteira do gordo de terno estava em suas mãos. Dali seguiu rapidamente para o banheiro público, ansioso que estava para ver o quanto de dinheiro ele havia conseguido.