Em uma hora qualquer,
decidi começar a escrever. E ao digitar a primeira palavra,
surgiu um personagem, e lhe pergunto:
- Quem é você?
- Sou o vazio.
- Vazio? Então é
você que aparece quando quero criar alguma coisa?
- Às vezes sim.
Aproveito para vir quando a procrastinação não
está por aqui.
- Achei que vocês
conspirassem juntos...
- Achou errado. A gente
não se dá muito bem.
- Pra mim tava na cara
que vocês tinham sido feitos um para o outro.
- Deixa para lá,
é uma longa história...
- Por que você
veio justamente agora, que eu estou precisando tanto criar alguma
coisa?
- Na verdade eu vim
para ver se reencontrava as idéias por aqui.
- Mas não tem
nenhuma idéia aqui.
- Tenho vindo aqui
direto para me encontrar com elas. Será que elas estão
indo embora quando eu apareço?
- E só agora
você percebeu, vazio?
- Nunca me passou pela
idéia. Talvez seja até por isso. Mil perdões!
- Ah, tudo bem, a culpa
é sua, mas normalmente eu não me incomodo com sua
presença. Só me incomoda quando eu realmente estou
precisando de uma idéia.
- Isso é típico
de vocês. Os monges budistas nunca reclamam da minha presença.
As pessoas que trabalham nas grandes indústrias me olham de
cara feia, mas não falam nada. Já quem trabalha em área
criativa vive gritando comigo e me culpando por tudo.
- E a culpa não
é sua?
- Eu apenas estou
andando por aqui e por ali. Estou por aqui agora, mas daqui a pouco
posso estar em outro lugar.
- Mas e agora? Como
faço para arrumar uma idéia com você aqui?
- Você está
perguntando para mim como você faz para arrumar uma idéia?
Eu procuro por elas em todo lugar e não as encontro, você
as vê muito mais do que eu.
- Tem razão.
Estou perdido... peraí...
- O que você
pensou aí?
- Você nunca
encontra as idéias, certo? Mesmo que você vá em
todo lugar do mundo atrás delas, elas não estão.
- Sim.
- É que nem
quando a escuridão foge da luz, certo?
- É, acho que
sim...
- Isso está
errado então! Você é a escuridão, enquanto
as idéias são a luz. Você é que
está fugindo delas!
- Como pode ser isso,
se eu acabei de dizer que estou indo atrás delas?
- Você está
escondendo alguma coisa de mim. Você é muito mais do que
diz que é, você está me enganando!
- Quem é você
para me julgar? Eu existo desde antes do mundo ser mundo! Eu não
tenho culpa de nada.
Nisso chega um outro
personagem em nosso diálogo. Eu pergunto:
- Quem é você?
- Oi. Cheguei um pouco
atrasado, mas acho que dá para te ajudar ainda.
- Oi, mas... o que você
quer dizer com isso?
- Vejo que você
está conversando com o vazio, e acho que você cometeu
alguns mal-entendidos... eu conheço o vazio há muito
tempo e posso te garantir que é mudo, incapaz de falar. Você
está colocando palavras na boca dele.
- E como que eu posso
colocar palavras na boca dele?
- Pode ver que,
enquanto estamos conversando, o vazio está ali no canto,
quieto, sem reagir. O vazio não está a procura da idéia
e nem tem nada a ver com a procrastinação. Quem gosta
da procrastinação... é você.
- Como eu posso gostar,
se eu vivo reclamando dela?
- Você reclama,
mas aproveita toda a oportunidade de estar junto com ela. Quando algo
dá errado, você joga a culpa nela e diz que não
foi você. Me diga, uma coisa: você foi mimado quando
criança?
- Não te
interessa!
- Bom, mas voltando a
falar do vazio, ele não se dá com ninguém.
Quando as idéias aparecem, ele fica ali do lado e acaba indo
embora, porque as idéias adoram andar juntas. Quando uma idéia
aparece em um lugar, ela chama outras para ficar com ela, como em um
piquenique. O vazio não gosta de lugares cheios.
- Tem razão.
Cometi um grande erro realmente. Me desculpe por colocar palavras na
sua boca, vazio... ué, cadê ele?
- Ele foi embora.
Enquanto estávamos conversando, apareceram mais dois
personagens por aqui. Aquela ali que tá chamando outras é
uma idéia...
- Desculpa falar, mas
aquela idéia ali é feia demais... e as outras são
até pegáveis, mas...
- Foram as que
apareceram. Aquele outro ali você até conhece, ele é
primo da procrastinação. O nome dele é preguiça.
- Preguiça? Mas
o que ele está fazendo aqui?
- Ele veio junto com a
idéia, ela falou que se ele não viesse, ela não
ficaria aqui.
- Agora que eu estou
reparando... aqui tá ficando bem cheio.
- É o que
costuma acontecer. Bom, já vou indo, mas antes eu queria te
apresentar um amigo meu que você vai gostar, ele se chama
conteúdo. Não ligue se ele parecer chato, ele é
um grande amigo que sempre está pronto para ajudar.
- Mas você já
vai? Fica aí...
- Eu não sou de
ficar muito tempo, mas é só chamar que eu venho, não
tem problema. Agora deixe-me ir que acho que a preguiça está
querendo bater em mim...
- Mas você nem
disse seu nome...
- Tem razão. Foi
um prazer falar com você, meu nome é coerência.