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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

2. O Tesouro

Ele tinha cinqüenta anos de idade. Escalar uma montanha não era mais a mesma coisa que vinte, trinta anos atrás. As pernas se cansam mais, as costas começam a doer, atrasando o passo. As únicas coisas que animam a subida são o clima agradável da montanha, o vento frio daquele dia limpo e ensolarado, e a certeza que de estava perto de alcançar seu objetivo.
Aquele objetivo era o de uma vida inteira, desde quando se interessou por arqueologia: centenas de séculos de história humana existem pelo mundo, escondidos, intocados, cheios de materiais e informações que poderão mudar o modo como vemos o passado, e talvez trazer coisas para o nosso futuro. Descobertas como a tumba de Tutancâmon, ou a Tumba de Felipe II da Macedônia, repletos de jóias e, mais importante, artefatos de época, que ajudam a entender como era a vida daquelas civilizações, encheram caçadores de relíquias durante anos e anos, esperando para encontrar algo parecido, e passaram a dominar os pensamentos dele desde quando, em uma expedição à rota da seda, encontrou indícios de uma arte nunca antes vista. Mais pesquisas e descobertas o levaram a encontrar aquela montanha onde poderia, talvez, achar quem sabe indícios concretos de uma civilização desconhecida até então. Se ele encontrar ali o que procura, terá conseguido muito mais do que seus colegas, professores e até mesmo seus mentores jamais alcançaram.
Enfim, ele chegou ao cume da montanha, em um plateau relativamente horizontal, sem grandes mudanças de nível, exceto pelo que parece ser uma rachadura no centro. Ele parou, soltou sua mochila e descansou um pouco para relaxar os braços e pernas, e principalmente as costas. Não havia muito pelo que correr: a desolação do cume o decepcionou um pouco. O segredo da operação, além da desolação das redondezas e a impossibilidade de fazer uma pesquisa prévia através das fotografias aéreas deixou-lhe praticamente às escuras, mas as pistas pareciam ser boas o bastante para empreender uma aventura como essa. Após as dores cessarem um pouco, ele pegou seus instrumentos e resolveu andar pelo lugar e observar melhor: ainda era muito cedo para chamar o helicóptero para ser resgatado dali. Ao ir até a rachadura, percebeu que havia um declive, um baixo-relevo em formato circular com profundidade de uns trinta centímetros, no formato que parecia o de uma escotilha, comcircunferência de pelo menos uns sessenta, setenta centímetros, mas o fato de ser do mesmo material que a montanha indicava que ali poderia ser alguma espécie de altar de sacrifícios de uma cultura antiga. Observando melhor, não haviam marcas no baixo-relevo que se assemelhassem com inscrições. Ele então resolveu se posicionar bem no círculo para procurar por referências geográficas e algum indício astronômico.
Ao fazer isso, o chão do círculo cedeu e ele caiu em uma vala de um metro e meio. Ele acabou caindo sentado no chão, felizmente sem ferimento algum, a única marca foi o susto da queda, a qual lhe exigiu um certo tempo sentado para se recompor. Ao ficar sentado, seus olhos se acostumaram um pouco com a escuridão da vala e ele percebeu ali um caminho que parecia levar para mais abaixoda montanha. Imediatamente ele atratou de se levantar, buscar mais equipamentos como luz, luvas e voltou rapidamente para o buraco. Aquilo foi tão inesperado que foi como se a juventude tivesse voltado em seu ser. Foi com cuidado, mas numa rapidez até mesmo imprudente, em direção ao apertadíssimo corredor, engatinhando-se.
Após uns dez minutos pelo caminho, ele percebeu que havia finalmente chegado a um salão mais amplo, tão amplo que ele finalmente poderia ficar em pé. A luz não revelava muita coisa, mas parecia ser uma caverna repleta de cilindros grandes, com pelo menos dois metros de comprimento, empilhados pelos cantos. Parecia ser uma biblioteca, como aquela encontrada nas cavernas de Qumran, no Mar Morto, mas não havia sinal algum de jarros, apenas os cilindros enrolados, expostos. Ele tirou rapidamente um par de luvas, vestiu-as e foi direto manusear o cilindro mais próximo Ao colocá-lo no chão e desenrolar cuidadosamente o cilindro, ele se lembrou da primeira vez em que viu um pedaço de tapete que não tinha absolutamente nada a ver com qualquer outra tapeçaria da região. Ela parecia ter símbolos coerentes e minúsculos gravados em sua trama, o que foi sua primeira dica. Não precisou avançar muito, no primeiro metro ele já reconheceu imediatamente os mesmos padrões, dessa vez na tapeçaria inteira. Aqueles tapetes eram documentos que contavam alguma coisa, e pela grossura, o tapete estendido chegaria facilmente aos dez metros. Ele nunca havia sentido tanta felicidade na vida. Aquela descoberta vai render pelo menos uma vida inteira de estudos,
E aí foi quando lhe deu uma grande angústia: Ao sair dali, além de pedir o helicóptero de resgate, fazer a segurança do lugar, pedir por verba extra da universidade, contratar outros arqueólogos, montar o sítio, ainda teria que decifrar os símbolos, reler tudo, traduzir, enfim, estudos para uma vida inteira, e é uma vida que ele não teria mais. A idade havia chegado, passou tanto tempo olhando por pistas, evidências, fazendo caminhos, tudo em busca de conteúdo que talvez ele jamais poderá conhecer em seu tempo de vida.
Ele respirou fundo, liberou o ar com todas as forças que podia e, para si mesmo, disse em voz alta:
- Bom, parece que é melhor não perder tempo! Melhor aprender o que eu puder antes de fazer outra coisa.
Colocou a mão direita na cintura, sentiu a câmera fotográfica, e tratou logo de desenrolar totalmente o primeiro tapete.