Ele tinha cinqüenta
anos de idade. Escalar uma montanha não era mais a mesma coisa
que vinte, trinta anos atrás. As pernas se cansam mais, as
costas começam a doer, atrasando o passo. As únicas
coisas que animam a subida são o clima agradável da
montanha, o vento frio daquele dia limpo e ensolarado, e a certeza
que de estava perto de alcançar seu objetivo.
Aquele objetivo era o
de uma vida inteira, desde quando se interessou por arqueologia:
centenas de séculos de história humana existem pelo
mundo, escondidos, intocados, cheios de materiais e informações
que poderão mudar o modo como vemos o passado, e talvez trazer
coisas para o nosso futuro. Descobertas como a tumba de Tutancâmon,
ou a Tumba de Felipe II da Macedônia, repletos de jóias
e, mais importante, artefatos de época, que ajudam a entender
como era a vida daquelas civilizações, encheram
caçadores de relíquias durante anos e anos, esperando
para encontrar algo parecido, e passaram a dominar os pensamentos
dele desde quando, em uma expedição à rota da
seda, encontrou indícios de uma arte nunca antes vista. Mais
pesquisas e descobertas o levaram a encontrar aquela montanha onde
poderia, talvez, achar quem sabe indícios concretos de uma
civilização desconhecida até então. Se
ele encontrar ali o que procura, terá conseguido muito mais do
que seus colegas, professores e até mesmo seus mentores jamais
alcançaram.
Enfim, ele chegou ao
cume da montanha, em um plateau relativamente horizontal, sem grandes
mudanças de nível, exceto pelo que parece ser uma
rachadura no centro. Ele parou, soltou sua mochila e descansou um
pouco para relaxar os braços e pernas, e principalmente as
costas. Não havia muito pelo que correr: a desolação
do cume o decepcionou um pouco. O segredo da operação,
além da desolação das redondezas e a
impossibilidade de fazer uma pesquisa prévia através
das fotografias aéreas deixou-lhe praticamente às
escuras, mas as pistas pareciam ser boas o bastante para empreender
uma aventura como essa. Após as dores cessarem um pouco, ele
pegou seus instrumentos e resolveu andar pelo lugar e observar
melhor: ainda era muito cedo para chamar o helicóptero para
ser resgatado dali. Ao ir até a rachadura, percebeu que havia
um declive, um baixo-relevo em formato circular com profundidade de
uns trinta centímetros, no formato que parecia o de uma
escotilha, comcircunferência de pelo menos uns sessenta,
setenta centímetros, mas o fato de ser do mesmo material que a
montanha indicava que ali poderia ser alguma espécie de altar
de sacrifícios de uma cultura antiga. Observando melhor, não
haviam marcas no baixo-relevo que se assemelhassem com inscrições.
Ele então resolveu se posicionar bem no círculo para
procurar por referências geográficas e algum indício
astronômico.
Ao fazer isso, o chão
do círculo cedeu e ele caiu em uma vala de um metro e meio.
Ele acabou caindo sentado no chão, felizmente sem ferimento
algum, a única marca foi o susto da queda, a qual lhe exigiu
um certo tempo sentado para se recompor. Ao ficar sentado, seus olhos
se acostumaram um pouco com a escuridão da vala e ele percebeu
ali um caminho que parecia levar para mais abaixoda montanha.
Imediatamente ele atratou de se levantar, buscar mais equipamentos
como luz, luvas e voltou rapidamente para o buraco. Aquilo foi tão
inesperado que foi como se a juventude tivesse voltado em seu ser.
Foi com cuidado, mas numa rapidez até mesmo imprudente, em
direção ao apertadíssimo corredor,
engatinhando-se.
Após uns dez
minutos pelo caminho, ele percebeu que havia finalmente chegado a um
salão mais amplo, tão amplo que ele finalmente poderia
ficar em pé. A luz não revelava muita coisa, mas
parecia ser uma caverna repleta de cilindros grandes, com pelo menos
dois metros de comprimento, empilhados pelos cantos. Parecia ser uma
biblioteca, como aquela encontrada nas cavernas de Qumran, no Mar
Morto, mas não havia sinal algum de jarros, apenas os
cilindros enrolados, expostos. Ele tirou rapidamente um par de luvas,
vestiu-as e foi direto manusear o cilindro mais próximo Ao
colocá-lo no chão e desenrolar cuidadosamente o
cilindro, ele se lembrou da primeira vez em que viu um pedaço
de tapete que não tinha absolutamente nada a ver com qualquer
outra tapeçaria da região. Ela parecia ter símbolos
coerentes e minúsculos gravados em sua trama, o que foi sua
primeira dica. Não precisou avançar muito, no primeiro
metro ele já reconheceu imediatamente os mesmos padrões,
dessa vez na tapeçaria inteira. Aqueles tapetes eram
documentos que contavam alguma coisa, e pela grossura, o tapete
estendido chegaria facilmente aos dez metros. Ele nunca havia sentido
tanta felicidade na vida. Aquela descoberta vai render pelo menos uma
vida inteira de estudos,
E aí foi quando
lhe deu uma grande angústia: Ao sair dali, além de
pedir o helicóptero de resgate, fazer a segurança do
lugar, pedir por verba extra da universidade, contratar outros
arqueólogos, montar o sítio, ainda teria que decifrar
os símbolos, reler tudo, traduzir, enfim, estudos para uma
vida inteira, e é uma vida que ele não teria mais. A
idade havia chegado, passou tanto tempo olhando por pistas,
evidências, fazendo caminhos, tudo em busca de conteúdo
que talvez ele jamais poderá conhecer em seu tempo de vida.
Ele respirou fundo,
liberou o ar com todas as forças que podia e, para si mesmo,
disse em voz alta:
- Bom, parece que é
melhor não perder tempo! Melhor aprender o que eu puder antes
de fazer outra coisa.
Colocou a mão
direita na cintura, sentiu a câmera fotográfica, e
tratou logo de desenrolar totalmente o primeiro tapete.