De que adiantam anos e
anos de terapia quando nenhuma terapia é capaz de te preparar
para reviver seus traumas? Essa foi a descoberta que Luana fez quando
viu em sua frente, depois de tanto tempo, o rosto de seu estuprador
olhando para ela.
Não adiantou
nada tantas regressões, tantos exercícios, tantas
revisitas tentando encontrar cada ponto que lhe incomodava, e
procurando entender tudo o que tinha acontecido para que aquilo não
a afetasse nunca mais e ela pudesse ter uma vida normal, trabalhar
sem medo, quem sabe até ter um relacionamento novamente, se
casar, ter filhos. A visão daquele sujeito lhe fez voltar ao
tempo até o dia do acontecimento: retornaram as cores, os
cheiros, os calores, o medo, a insegurança e a dor daquele
dia. Ecoava em sua cabeça os gritos de socorro que ninguém
ouviu, os tapas que ela recebeu, os risos de deboche e
auto-suficiência daquele covarde.
E enquanto isso
acontecia na mente de Luana, era como se o mundo inteiro tivesse
parado perante aquele momento tão intenso de reencontrar seu
algoz ali, perto do caixa, com uma sacola plástica em uma mão,
abraçado a um pacote de pão de forma na outra mão.
A moça da caixa registradora sentada, olhando impaciente para
que o senhor viesse passar suas compras, uma outra senhora no caixa
ao lado irritada tirando o pacote de biscoito recheado das mãos
de seu filho, que olhava para o embrulho como se não houvesse
mais nada em volta, um outro senhor esperando na fila olhando para a
criança com cara de desprezo, enquanto segurava seu embrulho
de carne moída e uma pequena garrafa de cachaça com uma
das mãos e um pacote de pão francês pendurado no
mesmo braço, a ponto de cair no chão. Estavam todos ali
preocupados com suas próprias vidas, seus próprios
incômodos diários, sem imaginar a história
daquela dupla de vítima e algoz, no mesmo mercado que eles,
fingindo viver.
Nada seria melhor para
Luana que esse momento nunca tivesse ocorrido. Exceto o estupro,
claro, mas ela não sabe como ela seria, que vida ela teria se
aquilo não existisse. Nem ela nem ninguém sabe, nem
mesmo o estuprador sabe como seria se não tivesse feito isso.
Fazer suposições nunca chegam a lugar algum, pois elas
exigem todo tipo de pressupostos sobre os detalhes mais ínfimos,
que não podem ser taxados como irrelevantes. E além
disso, cada pessoa vive apenas uma vez. O passado nos assusta porque
não há como saber como será o futuro. Para a
pessoa traumatizada é muito pior, pois o passado volta
dolorido como um golpe de faca. Qualquer coisa que traga uma simples
memória do evento já machuca, por isso quem tem trauma
vive em constante estado de paranóia.
Era isso que Luana não
esperava quando esse encontro fatídico aconteceu. O passado
havia se distanciado, a vida parecia estar entrando nos eixos, aquela
menina ferida estava sorrindo novamente, brilhando para o mundo
inteiro ver mais uma vez. Ao olhar nos olhos de seu violador
novamente, seu coração se arrebentou, e sua alma se
eclipsou.