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sábado, 1 de dezembro de 2012

O carrão do Aderbal

Uma sexta-feira, noite de alegria no bairro. Metade animada com o final de semana, um quarto se preparando para a churrascada depois do trabalho de meio-período no sábado, e o outro quarto indiferente a tudo, pois finais de semana não alteram suas rotinas de ofício. O bar, movimentado como sempre, as crianças a brincar na rua, as mulheres a fazerem compras e compartilhar segredos das famílias alheias, um dia perfeitamente normal, não fosse a chegada, ao virar a esquina, de algo muito especial.
Nos trinta ou quarenta anos de existência daquele bairro, já haviam passado naquela rua vários carros, mas dentre todos os carros, não havia passado nenhum tão bonito e tão caro quanto o do Aderbal. Carro amarelo, linhas esportivas, design aerodinâmico, aquele veículo chamava muita atenção. Qualquer transeunte se permitia encarar o automóvel por segundos a fio, esquecendo-se do que estava fazendo. Não era todo dia que se via um superesportivo italiano andando pelas ruas daquele bairro. Aderbal, com o maior sorriso do mundo, estava cheio de si, sentindo-se como o príncipe de Mônaco enquanto percorria o caminho até sua casa, respirando fundo e curtindo cada segundo daquele desfile pelo tapete asfáltico.
Já os vizinhos entenderam que Aderbal estava louco. Como podia ter gastado tanto dinheiro com um carro? "Virou imã de bandido", era o comentário que mais se ouvia daquele pessoal. "Galera tá se mordendo de inveja", pensava Aderbal toda vez ao ver as pessoas da rua enquanto guardava seu carro. Ao mesmo tempo que as pessoas julgavam o comportamento de Aderbal, também tinham uma certa preocupação de que ele tivesse ido para a bandidagem, afinal o preço de um veículo desse tipo é centenas de vezes maior do que os ganhos de um mecânico como ele. Mecânico ganha bem, mas precisa trabalhar muito e Aderbal não teria tempo ou dinheiro para uma sandice dessas.
Mas a pior reação vinha de sua família. Sua esposa estava possessa: "Como pôde gastar todo o nosso dinheiro com essa porcaria? A gente combinou que iria comprar uma casa perto da de mamãe!". Além das finanças pessoais, havia outra coisa que preocupava Jéssica: ela e os vizinhos tinham ciência de certas propriedades magnéticas do possante, só que, enquanto os vizinhos pensavam em jovens bem armados, a mulher imaginava jovens bem ousadas. Enfim, na cabeça de todo mundo, aquele carro veloz levava mais rápido para o céu, mas pegava um atalho que passava pelo meio do inferno, e sabe-se lá se o carro não se perde no meio do caminho, ou se o piloto faz uma paradinha para se aliviar e aí...
Naquela noite, ninguém dormiu direito. A casa de Aderbal toda iluminada, e a briga rolava solta, uma briga como nunca houvera antes ali. Nas outras casas, luzes acesas, famílias nas varandas, odor de pipoca quente, aproveitando o show audiofônico vindo da agora famosa casa, o mais novo farol do bairro a clarear os egos ao redor. Entre a vizinhança, surgiam apostas das mais diversas: quanto tempo até a venda do automóvel; quantos dias até o carro ser roubado; até quando vai durar o casamento... e no avançar da madrugada, todos foram dormir, esperando ansiosamente pelo dia seguinte.
De tudo que foi dito e imaginado, ninguém poderia imaginar que o futuro daquele carro seria decidido por um simples nome: Jairo.
Jairo, o grande amigo de Aderbal. O cara que tantas vezes foi acompanhado por Aderbal até compromissos de família ou idas ao cartório, se levado em conta o que Jéssica ouviu durante todo esse tempo. Jairo, muito gente boa, chegou logo no dia seguinte decidido a cobrar de Aderbal alguma compensação por tantas ajudas oferecidas. Aderbal ficou bem desanimado, estava pensando em curtir o carro no final de semana, mas para não provocar um revisionismo histórico em sua esposa, aceitou emprestar o bólido, afinal, para que servem os amigos, não é mesmo? Enquanto Aderbal ficou em casa soletrando "chantagem", Jairo partiu.
Era muita felicidade para um rapaz só. "Mas que carro incrível", ele gritava, enquanto navegava por entre ônibus e outros carros. Nunca havia entrado em um veículo tão rápido e tão luxuoso. Jairo só pensava no que iria fazer durante o dia: primeiro iria passar no banco, tirar uma graninha que havia reservado para o natal, e fazer uma comemoração antecipada sozinho, "pero no mucho". Jairo sentiu-se no céu... até ignorar um sinal vermelho e chegar ao portal do paraíso na velocidade do pensamento.
Enquanto Jairo pegou o caminho mais rápido para o outro mundo, Aderbal perdeu-se no atalho do inferno: teve dificuldade durante alguns meses para conseguir retirar a grana do seguro, e logo que a retirou, depositou na conta judicial aberta pela família de seu falecido amigo, que o havia processado, e a história do Aderbal ficou muito conhecida no bairro, e em várias ocasiões é relembrada por quase todos, cada um dizendo um detalhe diferente do outro. A única versão que ninguém conhece é a do próprio Aderbal, e não tem nem como perguntar para ele, afinal ele acabou saindo do bairro. Foi morar com a esposa na casa da mãe da Jéssica.