Uma sexta-feira, noite
de alegria no bairro. Metade animada com o final de semana, um quarto
se preparando para a churrascada depois do trabalho de meio-período
no sábado, e o outro quarto indiferente a tudo, pois finais de
semana não alteram suas rotinas de ofício. O bar,
movimentado como sempre, as crianças a brincar na rua, as
mulheres a fazerem compras e compartilhar segredos das famílias
alheias, um dia perfeitamente normal, não fosse a chegada, ao
virar a esquina, de algo muito especial.
Nos trinta ou quarenta
anos de existência daquele bairro, já haviam passado
naquela rua vários carros, mas dentre todos os carros, não
havia passado nenhum tão bonito e tão caro quanto o do
Aderbal. Carro amarelo, linhas esportivas, design aerodinâmico,
aquele veículo chamava muita atenção. Qualquer
transeunte se permitia encarar o automóvel por segundos a fio,
esquecendo-se do que estava fazendo. Não era todo dia que se
via um superesportivo italiano andando pelas ruas daquele bairro.
Aderbal, com o maior sorriso do mundo, estava cheio de si,
sentindo-se como o príncipe de Mônaco enquanto percorria
o caminho até sua casa, respirando fundo e curtindo cada
segundo daquele desfile pelo tapete asfáltico.
Já os vizinhos
entenderam que Aderbal estava louco. Como podia ter gastado tanto
dinheiro com um carro? "Virou imã de bandido", era o
comentário que mais se ouvia daquele pessoal. "Galera tá
se mordendo de inveja", pensava Aderbal toda vez ao ver as
pessoas da rua enquanto guardava seu carro. Ao mesmo tempo que as
pessoas julgavam o comportamento de Aderbal, também tinham uma
certa preocupação de que ele tivesse ido para a
bandidagem, afinal o preço de um veículo desse tipo é
centenas de vezes maior do que os ganhos de um mecânico como
ele. Mecânico ganha bem, mas precisa trabalhar muito e Aderbal
não teria tempo ou dinheiro para uma sandice dessas.
Mas a pior reação
vinha de sua família. Sua esposa estava possessa: "Como
pôde gastar todo o nosso dinheiro com essa porcaria? A gente
combinou que iria comprar uma casa perto da de mamãe!".
Além das finanças pessoais, havia outra coisa que
preocupava Jéssica: ela e os vizinhos tinham ciência de
certas propriedades magnéticas do possante, só que,
enquanto os vizinhos pensavam em jovens bem armados, a mulher
imaginava jovens bem ousadas. Enfim, na cabeça de todo mundo,
aquele carro veloz levava mais rápido para o céu, mas
pegava um atalho que passava pelo meio do inferno, e sabe-se lá
se o carro não se perde no meio do caminho, ou se o piloto faz
uma paradinha para se aliviar e aí...
Naquela noite, ninguém
dormiu direito. A casa de Aderbal toda iluminada, e a briga rolava
solta, uma briga como nunca houvera antes ali. Nas outras casas,
luzes acesas, famílias nas varandas, odor de pipoca quente,
aproveitando o show audiofônico vindo da agora famosa casa, o
mais novo farol do bairro a clarear os egos ao redor. Entre a
vizinhança, surgiam apostas das mais diversas: quanto tempo
até a venda do automóvel; quantos dias até o
carro ser roubado; até quando vai durar o casamento... e no
avançar da madrugada, todos foram dormir, esperando
ansiosamente pelo dia seguinte.
De tudo que foi dito e
imaginado, ninguém poderia imaginar que o futuro daquele carro
seria decidido por um simples nome: Jairo.
Jairo, o grande amigo
de Aderbal. O cara que tantas vezes foi acompanhado por Aderbal até
compromissos de família ou idas ao cartório, se levado
em conta o que Jéssica ouviu durante todo esse tempo. Jairo,
muito gente boa, chegou logo no dia seguinte decidido a cobrar de
Aderbal alguma compensação por tantas ajudas
oferecidas. Aderbal ficou bem desanimado, estava pensando em curtir o
carro no final de semana, mas para não provocar um
revisionismo histórico em sua esposa, aceitou emprestar o
bólido, afinal, para que servem os amigos, não é
mesmo? Enquanto Aderbal ficou em casa soletrando "chantagem",
Jairo partiu.
Era muita felicidade
para um rapaz só. "Mas que carro incrível",
ele gritava, enquanto navegava por entre ônibus e outros
carros. Nunca havia entrado em um veículo tão rápido
e tão luxuoso. Jairo só pensava no que iria fazer
durante o dia: primeiro iria passar no banco, tirar uma graninha que
havia reservado para o natal, e fazer uma comemoração
antecipada sozinho, "pero no mucho". Jairo sentiu-se no
céu... até ignorar um sinal vermelho e chegar ao portal
do paraíso na velocidade do pensamento.
Enquanto Jairo pegou o
caminho mais rápido para o outro mundo, Aderbal perdeu-se no
atalho do inferno: teve dificuldade durante alguns meses para
conseguir retirar a grana do seguro, e logo que a retirou, depositou
na conta judicial aberta pela família de seu falecido amigo,
que o havia processado, e a história do Aderbal ficou muito
conhecida no bairro, e em várias ocasiões é
relembrada por quase todos, cada um dizendo um detalhe diferente do
outro. A única versão que ninguém conhece é
a do próprio Aderbal, e não tem nem como perguntar para
ele, afinal ele acabou saindo do bairro. Foi morar com a esposa na
casa da mãe da Jéssica.